Para onde vai o Wolverine, um dos mais populares personagens da editora Marvel e do gênero de super-heróis? Fácil descobrir, basta seguir o rastro de sangue.
Wolverine, ou Logan O. (sobrenome nunca revelado até onde eu sei), ou James Howlett, é um fenômeno. Faz (ou fazia, depende do ponto da cronologia que você está lendo) parte de três (!) equipes dos X-Men, é membro dos Vingadores, tem duas revistas solos e ainda faz uma ponta na revista dos Novos X-Men, como professor do Instituto Xavier. Além disso, aparece na revista Ultimate X-Men (X-Men Millennium, no Brasil), mas aí é outro Wolverine, de outra cronologia. São oito aparições por mês, no mínimo, fora minisséries e edições especiais. São duas histórias inéditas do Wolverine por semana. (Isso nos Estados Unidos. Normalmente, uma revista brasileira da Marvel tem em seu mix de três a quatro revistas diferentes.)
Eu ia começar este post pegando este último mês como referência e somando quantos pessoas ele assassinou na cara dura somando as oito edições. Não contei, tive preguiça, mas são muitos. De um tempo para cá, é simplesmente comum ele assassinar alguém. E mais: isso tem feito sucesso - senão ele não teria tantos títulos, sem falar que o filme "X-Men Origins: Wolverine" está previsto para 1º de maio de 2009. Ele é um fenômeno de popularidade, apesar de ser politicamente incorreto - um homicida, em última análise. Ou será que é justamente essa a razão de seu sucesso?
Wolverine surgiu como um personagem coadjuvante não dos X-Men, mas do Hulk. Foi em "The Incredible Hulk" número 181 (novembro de 1974), pelas mãos de Len Wein, Herb Trimpe e John Romita. Era um anti-herói: baixinho, nervoso, um anti-herói.
Ele teria sido um eterno coadjuvante "Giant-Size X-Men" número 1, de maio de 1975. Graças a Len Wein e Dave Cockrum, surgem novos membros para os X-Men. A equipe passa a ter um canadense (Wolverine), uma africana (Tempestade), um asiático (Solaris), um soviético (Colossus, apesar da Guerra Fria), dois europeus (o alemão Noturno e o irlandês Banshee) e um índio (Pássaro Trovejante). Além deles, o órfão Ciclope e o cadeirante Professor X.
Em resumo: havia diversividade entre os X-Men. Era uma revista de super-heróis, mas focada contra o preconceito, voltada em demonstrar o quanto a raça humana é diferente e maravilhosa, mas deve aprender a conviver com suas diferenças. Isso existe até hoje nas revistas "X" (X-Men, X-Force, X-Factor, Exilados, Excalibur, Novos X-Men etc.). Há muitos exemplos. Um próximo: desde 1982 habita em suas histórias o brasileiro Roberto da Costa (Mancha Solar, criado por Chris Claremont e Bob McLeod). Outro exemplo: assim que os Estados Unidos invadiram o Afeganistão no pós 11 de Setembro, a Marvel anunciou uma heroína afegã nas histórias dos X-Men, a Pó (Sooraya Qadir).
Enfim, isso é só para mostrar que os X-Men existem, também, para mostrar as diferenças entre os humanos. E que era natural que entre todas as diferenças apontadas houvesse um que fosse quase amoral, disposto a "atitudes extremas". E este alguém foi o Wolverine.
Nos idos dos anos 80, quando a dupla Chris Claremont & John Byrne pilotava a revista dos "X-Men", essas diferenças eram bem ilustradas. E o Wolverine, ainda que sempre agressivo, violento e esquentado, não passava disso. Quando advertido, se controlava. Não torturava. Não cruzava a linha entre o "herói" e o "vilão". Matava... em legítima defesa. E era repreendido pelos colegas de grupo.
Hoje, suas garras atravessam abdômens (provocando mortes, é claro) com tal freqüência que é entediante. É a banalizaçao da violência, é a legitimização do "tempos drásticos, medidas drásticas". Perto dele, Jack Bauer é um coroinha. Seria isso conseqüência da cultura norte-americana 11 de Setembro? Ou de algo anterior, da cultura do medo mostrado nos documentários de Michael Moore ("Tiros em Columbine" e "Fahrenheit 9/11")? Mais: você gostaria de ver que seu filho de sete anos está lendo uma história em que o mocinho estripa seus adversários a torto e a direito?
Não tenho todas as respostas, claro. Acho, sinceramente, que a Marvel perdeu o controle sobre o Wolverine. Que ele poderia continuar sendo impulsivo, feroz etc., sem matar mais por edição do que o Rambo por filme. Perderam a mão. Ele não é mais um homem adulto tentando controlar a violência anterior. Ele, parece-me, se tornou um monstro, um vilão, um psicopata. Será que ele sempre foi assim e eu que não via? Será que me tornei um reacionário com a idade? Será que sou sensível demais para a sociedade pós-11 de Setembro?
Não gosto mais das histórias do Wolverine. Acho que o problema é também o roteiro, mas não só: é a linha editorial. Estão apostando, cada vez mais, que garras sujas de sangue são atraentes. Eu discordo. Uma boa história é atraente. Um "serial killer", não.
ps – os títulos originais do Wolverine e em que revistas são publicados no Brasil: Astonishing X-Men => X-Men Extra New Avengers => Os Novos Vingadores New X-Men => X-Men Ultimate X-Men => Homem-Aranha Marvel Millennium Uncanny X-Men => X-Men Wolverine => Wolverine Wolverine: Origins => Wolverine X-Men => X-Men
Eis o simpaticíssimo wolverine (nome científico: Gulo gulo). Simpaticíssimo por minha conta, porque, tal qual o super-herói da Marvel, parece que ele tem gênio ruim.
No Brasil, segundo o dicionário Houaiss, pode ser chamado de carcaju ou glutão. Não sei qual dos nomes é mais feio.
A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo vai exibir na próxima semana "Persépolis", o filme (terça, dia 30, às 21h50, no HSBC Belas Artes 2; quarta, dia 31, às 21h10, no CineSesc; e quinta, dia 1, às 15h10, na Cinemateca - sala BNDES). É um desenho animado de 95 minutos baseado na série homônima criada pela iraniana Marjane Satrapi. Os quatro volumes foram lançados no Brasil de 2003 a 2006 (veja aqui: 1, 2, 3 e 4).
Não sou comedido quando falo deste trabalho de Marjane Satrapi. Acho espetacular. Trata-se de uma série autobiográfica que mostra o que foi ter crescido no Irã nos anos 80. Bombardeios, repressão, censura, falta de liberdade, perseguição perpetrada pelos guardiães da revolução, auto-flagelação obrigatória na escola, o uso do véu, a proibição do hino nacional. "Eu preferia meu pai vivo na prisão do que herói e no cemitério."
Satrapi narra com crueza os fatos. Para nós, ocidentais que sequer sabemos onde ficam Ararat ou Astana, e para quem a Ásia Central é apenas uma região enorme e problemática, Satrapi dá uma aula. Várias aulas, aliás. É extremamente didática ao mostrar, de perto, o que significava morar no Irã de então. E ajuda o ocidental a enxergar um pouco melhor o Irã de hoje, com Mahmoud Ahmadinejad na presidência (conhece o blog do Ahmadinejad?).
Satrapi é uma ótima narradora. Une textos às imagens com simplicidades, criatividade e clareza. Adota um tom direto, quase jornalístico, sobre os acontecimentos ao seu redor.
Já quando o foco é ela mesma, seus atos e opiniões, Satrapi muda: torna-se crítica e ácida. Sabe ridicularizar a si mesma, causando humor. E é corajosa, muito corajosa, ao mostrar passagens delicadas de sua vida. Momentos trágicos, fases de depressão e erros enormes - sem essa de pleonasmos para bancar o politicamente correto, Marjane é uma arista maravilhosa, mas antes de ser artista é humana e, portanto, erra como qualquer um.
Não é "só" uma história sobre viver sob o regime autocrático dos aiatolás. É mais. No final do segundo livro, a adolescente Marjane é enviada para morar na Áustria e se distanciar da opressão cada vez pior que existia em seu país. Há choque de culturas e o amadurecimento. Ela agora vive em uma democracia, mas problemas existem em qualquer lugar. Ser humano significa... Enfim, não sei o que significa, mas duvido que exista um que não tenha sofrido muito.
"Eu vivi uma revolução que me fez perder parte da família. Sobrevivi a uma guerra que me afastou do meu país e dos meus pais... e foi uma banal história de amor que quase me levou embora." O "ir embora", neste caso, não é metafórico.
Ao final do terceiro livro, após ter passado quatro anos em terras ocidentais, ela volta para o Irã. O seu amadurecimento, é claro, continua. Sua vida continuou intensa e cheia de obstáculos. Há uma tentativa de suicídio; um casamento em que, menos de um mês após a cerimônia, ela e o marido já dormiam em quartos separados; uma faculdade de Artes Gráficas em que os alunos têm que aprender anatomia humana não com um(a) modelo(a) nu(a), mas com uma mulher com o corpo inteiro coberto pelo véu e apenas um pouco do rosto exposto.
Na verdade, estes fatos isolados talvez não importem tanto. O que importa é o conjunto. São quatro livros de honestidade e revelações vindos de uma mulher corajosa. "Persépolis" é uma obra de arte triste, reveladora, forte e, acima de tudo, humana.
Não sei o que mais admiro em Marjane Satrapi. Poderia ser o seu humor, sua perseverança ou seu talento. Mas acho que é a coragem de se expor. Eu, como a maioria das pessoas que conheço, uso uma espécie de véu sobre mim. Escondo muito mais do que mostro. Medos que tenho, cagadas que cometi, mágoas. Externá-los, como ela fez... É preciso mais do que coragem. É algo que existe na alma, um misto de maturidade, autoconhecimento e desprendimento. Um misto que eu, certamente, não tenho.
ps: entrevista com Marjane, em inglês, publicada neste domingo no "The New York Times": aqui. Abaixo, "teaser trailer" do filme:
Quando eu comecei a ler quadrinhos, todas as revistas eram em formatinho (os livros, não, mas eu não tinha dinheiro para comprá-los). Super-heróis, Disney e Mauricio de Sousa: tudo formatinho. Eis que surgiu a série "Graphic Novel", que travia álbuns de luxo com histórias fechadas, tratamento especial na edição e... formato grande. A série começou trimestral e sempre estrelada por super-heróis: X-Men (1 - "O Conflito de Uma Raça"), Demolidor (2 - "Amor e Guerra"), Capitão Mar-Vell (3 - "A Morte do Capitão Marvel"), Homem-Aranha (4 - "Homem-Aranha em Marandi"), Batman (5 - "A Piada Mortal" e 7 - "O Filho do Demônio") e Homem de Ferro (6 - "Crash!").
Eram revistas mais caras. Para minha felicidade, estava conseguindo comprá-las. E valiam a pena: eram todas muito acima da média. E eis que chegou o número 8 às bancas. Torci o nariz: não era colorido, não havia super-heróis (que absurdo! como assim?) e eu não conhecia o autor. Era "O Edifício", de Will Eisner. Comprei mesmo assim.
Era sensacional. Guardei o nome dele na cabeça. Depois (muito depois) descobri que o nome dele é unanimidade entre os fãs e críticos de HQs. Ele já ganhou seis vezes o "Oscar" dos quadrinhos norte-americanos: em 1987 (eleito para o "Hall da Fama"), em 1992 (melhor "graphic novel" inédita, pela autobiográfica "No Coração da Tempestade"), em 1995 (melhor projeto/coleção de arquivo, por "The Christmas Spirit"), em 1997 (melhor livro relacionado a quadrinhos, por ""Narrativas Gráficas") em 2001 (melhor projeto/coleção de arquivo, por "The Spirit Archives", volumes 1 e 2) e em 2002 (melhor "graphic novel" inédita, por "O Nome do Jogo"). Aliás, o "Oscar" dos quadrinhos norte-americanos chama-se Eisner Awards em sua homenagem. Ele é o próprio prêmio. Ele é o cara.
Está nas bancas e livrarias "O Sonhador", uma autobiografia levemente disfarçada de ficção. Mostra o início da carreira de Eisner, antes mesmo de ele criar o Spirit (em 1940), de virar teórico de histórias em quadrinhos com dois livros maravilhosos ("Quadrinhos e Arte Seqüencial", de 1985, e "Narrativas Gráficas", de 1996), de cunhar o termo "graphic novel" e revolucionar as histórias em quadrinhos norte-americanas. Todos estes atos, espero, irão ser motivos de posts neste blog no futuro - Spirit, o lado teórico de Eisner, o difícil conceito de "graphic novel". Mas agora que eu li "O Sonhador", e vi como ele, Eisner, se lembrava do início de sua carreira (o sonhador do título é ele mesmo), fiquei com vontade de me voltar sobre a biografia dele. Sobre parte da biografia: Eisner viveu de 1917 a 2005, e fez muita, mas muita coisa sensacional relacionada a histórias em quadrinhos para caber em um único post. Seria um desperdício. Vou relembrar apenas quatro fatos, com intervalos de aproximadamente 20 anos entre eles.
* No início dos anos 40, quando concedia uma entrevista ao "Baltimore Sun", Eisner afirmou que as histórias em quadrinhos deveriam ser vistas como uma legítima forma de arte. As pessoas ao seu redor riram como se tivesse contado uma piada.
Para eles, Eisner era um iludido, um ingênuo, uma criança. Um sonhador.
* Nos anos 60, em um encontro da National Cartoonists' Society (sociedade de cartunistas norte-americanos), Eisner conversava com o caricaturista Rube Goldberg quando comentou que enxergava um grande potencial nos quadrinhos enquanto forma de arte. Bravo, Goldberg bateu sua bengala no chão e gritou com Eisner: "Isso é bobagem, menino! Nós não somos artistas. (...) E você nunca se esqueça disso!".
Para Goldberg, Eisner não era um artista. Era um quadrinista. Este negócio de que fazer histórias em quadrinhos era arte era coisa de... sonhador, claro.
* Eisner contava que, em 1978, ele não conseguia publicar uma história sua. Não tinha super-heróis, não era infantil, não era humor. Eram quatro histórias tristes, bonitas, voltadas para o público adulto. Ele ligou para um editor, que lhe respondeu "não publico comics ("histórias em quadrinhos", em inglês, mas também "comédias"), apenas livros". E Eisner respondeu: "mas não são comics, é uma graphic novel (romance gráfico)!". E assim foi publicado "Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço".
Não foi a primeira vez que o termo "graphic novel" foi utilizado no mercado norte-americano. Mas foi um marco: o sonhador deu um passo para uma direção inédita no mercado norte-americano. Havia quadrinhos para adultos, claro, mas um novo formato foi inaugurado ali. E hoje o termo (e o formato) são tão utilizados que é difícil descrever o conceito de "graphic novel" com precisão.
* Em abril de 2003, Eisner discursou na biblioteca do Congresso Americano. Falou sobre a forma de arte que sempre defendeu, sobre o reconhecimento que ela estava começando a alcançar e sobre quanto isso era importante para os artistas vindouros.
Tal reconhecimento ficou restrito aos Estados Unidos. Um dia depois de Eisner discursar no Congresso, o governo paulista fechou o Museu de Artes Gráficas do Brasil (MAG), que havia sido inaugurado quatro meses antes.Entre os motivos apresentados para o fechamento do museu estavam frases como "o museu não tem interesse para o público, só para um grupo pequeno de desenhistas" e "o museu não tem estofo artístico e cultural", entre outros preconceitos. O projeto do MAG viria a ser retomado após muitos protestos de fãs e profissionais. No Brasil, como nos Estados Unidos, há sonhadores.
O Capitão América foi criado por Jack Kirby e Joe Simon no início dos anos 40 (mais sobre ele no post abaixo). Havia a Segunda Guerra Mundial, com os Estados Unidos envolvidos (sim, eu sei que você sabe História, só estou contextualizando), e os "comics" norte-americanos estavam borbulhando. Um gênero em especial, mais do que o humor, a ficção científica ou qualquer outro, destoava naquele momento nos "comics": os super-heróis, que surgiram com o Superman em 1938.
Valia tudo naquele "boom" de super-heróis, inclusive uma senhora gorda que usava um uniforme tosco e uma panela na cabeça - embora não tenha feito muito sucesso, a Red Tornado existe até hoje como coadjuvante na revista "Justice Society of America".
Mas o uniforme do Capitão América não era tosco: era praticamente a bandeira dos Estados Unidos. Havia um forte sentimento patriótico nele. Seus inimigos, claro, eram todos nazistas. E lá ia ele, com seu uniforme colorido, de escudo em punho e com um parceiro-mirim, o Bucky, como ajudante (ajudava a atrair os leitores mais jovens para a revista). Poderia ser só mais um, mas não foi.
De alguma maneira, o Capitão América se perpetuou. Acredito que seja o super-herói mais identificado com os Estados Unidos. Superman pode ser o mais identificado com o gênero de super-herói; Homem-Aranha, Wolverine ou Batman, os de maiores penetração junto ao público adolescente; a Mulher-Maravilha, a de mais sucesso entre as leitoras. Mas o personagem que significa, de carne, osso e alma, os Estados Unidos, é o Capitão América.
Mas ele mudou. Por decisões editoriais, o Capitão América agora usa uma arma. Mantém o escudo, mas agora anda armado. É uma mudança significativa. De março de 1941, data oficial de sua criação, a janeiro de 2008, quando o novo uniforme estreará em "Captain America" (quinta série da revista) número 34, é a primeira vez que o Capitão América, o bonzinho, o homem que nunca mente, o infalível, aquele que nunca desiste, o líder entre os líderes... Andará armado. O Capitão América já pegou em armas. Já matou terroristas, em um ato desesperado - os terroristas haviam tomado a sede da ONU e haviam aberto fogo contra os reféns. Mas agora é uma postura nova: agora, o Capitão América vai ao ataque. Os Estados Unidos vão ao ataque.
Faz sentido?
As histórias em quadrinhos são vistas, normalmente, como escapistas. Errado. Histórias em quadrinhos são um meio de comunicação, como a Internet, a televisão ou o cinema. Dentro das HQs, há os gêneros. E o de super-heróis é, e sempre foi, escapista. Aí sim. Mas isso não significa que ele não possa afotar tons sérios. Ou que ele não possa mudar. E a Marvel Comics, detentora dos direitos do Capitão América, está mudando. E não é de hoje.
A Marvel possui centenas de personagens. Eles vivem em um mundo próprio em que tudo é interligado. Se um personagem morrer em uma revista deles, não pode aparecer em outras. A editora possui uma cronologia própria, assim como sua principal rival, a DC Comics.
E na cronologia do Marvel, o governo norte-americano tomou uma decisão: todo super-herói, ou supervilão, ou qualquer mascarado meia-boca, será obrigado a se cadastrar no governo, dando o nome verdadeiro, endereço, identidade etc. E só os autorizados pelos Estados Unidos terão permissão para continuar em ação. É a Lei de Registro dos Super-Humanos, ou só Lei de Registro. Mas pode chamar de Ato Patriótico, se quiser. É uma metáfora clara aos os encarceramentos ilegais e demais medidadas promovidas por George Bush desde o 11 de setembro de 2001 que ameaçam as liberdades públicas e os direitos constitucionais nos Estados Unidos.
Nas histórias da Marvel, como na vida real, a Lei de Registro/ Ato Patriótico foi polêmico. Os super-heróis da editora, sempre mais humanizados que os da rival DC, mostraram que não são infalíveis, ou perfeitos, e se dividiram: parte a favor e parte contra a lei. O Homem de Ferro, um dos maiores personagens da editora, e que está prestes a virar filme, é o comandante da facção pró-Lei do Registro; o Capitão América é o líder dos rebeldes.
Os outrora super-heróis que não aceitaram ser registrados não são apenas presos: são enviados para uma penitenciária especial em outra dimensão, de onde é impossível escapar. Mesmo que fujam de suas celas, continuam ilhados em outra dimensão. Guantánamo?
As histórias sobre este tema, publicadas com o nome de "Guerra Civil", têm se mostrado muito interessantes, acima do que a Marvel avinha apresentando. Há ideologias envolvidas, discursos e discussões, heróis se arrependendo e trocando de lado. A facção pró-Lei de Registro tem poucos heróis, mas é apoiada por um número enorme de vilões. Esta, talvez, seja a resposta da Marvel ao Ato Patriótico.
Há mais: a Guerra Civil termina com a morte do Capitão América. Steven Rogers, o bom e velho Capitão América, o espírito dos Estados Unidos, morre, algemado, traído e a caminho de um julgamento em que era acusado de traição. A Marvel, definitivamente, não gostou do Ato Patriótico.
A morte de Steven Rogers foi em março de 2007, na revista "Captain America" número 25. E seu sucessor irá surgir neste vindouro número 34. Não é apenas um sucessor. É um passo além. É alguém de arma em punho. Alguém mais próximo dos Estados Unidos de hoje? Não é preciso citar um exemplo sobre a que me refiro. Há vários.
Não acredito que, com o novo homem sob o uniforme, as histórias do Capitão América deixem de ser escapismo. Mas acho que eles estão refletindo o zeitgeist do início dos anos 90, o espírito dos nossos tempos. Assim como as histórias originais do Capitão América, aquelas em que ele, com um escudo na mão e uma criança mascarada ao seu lado, enfrentavam o nazismo, refletiam o início dos anos 40.
ps - a Lei de Registro não é novidade no mundo dos quadrinhos de super-heróis. Em "Watchmen", a espetacular série de Alan Moore e David Gibbons lançada de 1986 a 1987, o Senado norte-americano já promulgara, em 1977, o Decreto Keene, que proibia a atuação de qualquer super-herói que não estivesse a serviço do governo dos Estados Unidos.
E antes mesmo de "Watchmen": a DC Comics publicou, em 1979, uma história que se passava nos anos 50 e em que o Senado norte-americano dava um ultimato ao único grupo de super-heróis de então, a Sociedade da Justiça: ou os heróis revelavam suas identidades secretas aos políticos ali presentes ou teriam de se aposentar. Eles escolheram a segunda opção. Esta história, escrita por Paul Levitz, foi publicada em "Adventure Comics" número 466. Dos heróis da Sociedade da Justiça aos senadores, por meio de seu líder, Gavião Negro: “Our faces, our names, our lives are our own business – you won’t be hearing from us again.” (Nossos rostos, nossos nomes, nossas vidas são da nossa conta, vocês jamais voltarão a ouvir falar de nós, em tradução livre.)
A invencível Sociedade da Justiça fora finalmente derrotada: caiu diante um intransigente governo dos Estados Unidos do mundo dos quadrinhos. E a impressão que eu tenho é que o Capitão América/ Steven Rogers, igualmente invencível, caiu diante as ações do governo dos Estados Unidos do mundo real.
Steve Rogers (nome que seria oficializado como Steven Grant Rogers) era a identidade secreta do Capitão América em sua estréia, na revista "Captain America Comics" número 1, que foi lançada em dezembro de 1940, mas com data de capa de março de 1941 - data aceita com a oficial pela editora Marvel. O sobrenome, Rogers, vem do termo usado pelo Exército norte-americano que equivale ao "câmbio" brasileiro. O escudo não era o redondo, como é hoje, mas quase triangular. Em sua estréia já estavam lá seu parceiro-mirim ("sidecick") Bucky e seu primeiro interesse amoroso (e futura namorada) Betsy Ross - homenagem de Jack Kirby e Joe Simon, criadores do Capitão América, à mulher que teria costurado a primeira bandeira dos Estados Unidos.
Na cultura dos "comics", é normal a troca de "identidades" dos super-heróis. Não mudar de nome/ uniforme apenas por uma história, mas por uma fase - ou em definitivo. Pode ser por questões ideológicas, de direitos autorais, para corrigir inconsistências nas histórias ou por decisão editorial dos editores/ roteiristas. Esta "troca" de identidades é aceitável e acompanhada de perto pelos fãs, diferentemente das "mortes" e "ressurreições", que são condenadas pelos leitores assíduos, mas que, por vários motivos, funcionam como alavancas nas vendas.
O sétimo Capitão América será revelado em janeiro de 2008 no "Captain America Comics" número . Os outros seis, na ordem da cronologia da editora Marvel, são:
1 - Steven Grant Rogers O original, criado por Joe Simon e Jack Kirby. Nasceu em 4 de julho de 1917 e foi assassinado em "Captain America" (quinta série da revista) número 25 (março de 2007). Também atuou com os nomes de Nômade e Capitão.
Foi "morto em ação" em 1945. Com ele morreu seu parceiro Bucky (James Buchanan Barnes). Em 1964, a editora Marvel decidiu que ele não havia morrido, mas que esteve em animação suspensa durante este tempo (na ótima "Avengers" número 4, de março de 1964). Três homens diferentes atuaram sob seu uniforme durante este período.
Após sua "ressurreição", Steve Rogers teve inúmeros parceiros (como Rick Jones, o quarto Bucky) e ficou marcado como eterno líder do grupo Vingadores.
2 - William Naslund Foi criado por Roy Thomas e Frank Robbins como o super-herói Espírito de 76 (Spirit of '76, no original) na revista "The Invaders" número 14 (março de 1977). Após a primeira "morte" de Steven Rogers, em 1945, foi recrutado para assumir o manto de Capitão América. Lutou ao lado do segundo Bucky (Fred Davis). Foi assassinado em 1946 pelo vilão Adam II.
Parece estranho que ele tenha sido criado em 1997 e agido como Capitão América de 1945 a 1946? Originalmente, o Capitão dessas histórias era o bom e velho Steven Rogers. Depois, a editora Marvel reescreveu sua cronologia. Este ato (detestado por muitos fãs, indiferente a outros muitos fãs) é chamado retcon - "retroactive continuity" ou continuidade retroativa. Já leu "1984", do George Orwell? É aquilo ali.
3 - Jeffrey Mace Era o super-herói Patriota. Foi criado por Ray Gill e Bill Everett em "The Human Torch" número 4 (primavera de 1941 nos EUA, outono aqui). Tornou-se o Capitão América com a morte de William Naslund, em 1946, e atuou ao lado da heroína Golden Girl - a Betsy Ross (nome completo: Elizabeth Ross), ex-namorada de Steve Rogers. Jeffrey Mace e Betsy Ross casaram-se e se aposentaram em 1949.
4 - Steve Rogers Criado por Steve Englehart e Sal Buscema em "Captain America" número 153 (setembro de 1972). Sua identidade original nunca foi revelada - trocou seu nome para Steve Rogers antes mesmo de assumir o manto de Capitão América. Atuou ao lado do terceiro Bucky, James Monroe, que depois se tornaria o segundo Nômade e parceiro do Capitão América original. Este segundo Steve Rogers não teve um final digno do nome: virou o vilão Grand Director e depois se suicidou.
5 - Samuel Thomas Wilson Sam Wilson foi criado por Stan Lee e Gene Colan como Falcão em "Captain America" número 117 (setembro de 1969). É mais conhecido como Falcão, seu período como Capitão foi minúsculo: só nas histórias publicadas em "Captain America: Sentinel of Liberty" números 8 e 9 (abril e maio de 1999) mostraram que ele atuou como Capitão América no início da carreira.
6 - John Walker / Jack Daniels Sim, o sexto Capitão América tem dois nomes, e ambos de uísque. Brincadeira do roteirista Mark Gruenwald, co-criador ao lado do artista Paul Neary. Ele surgiu em "Captain America" número 323 (novembro de 1986) como rival do Capitão América original. Ele usava o nome de Superpatriota (o segundo a usar o nome); após um desentendimento de Steven Rogers com o governo norte-americano, virou o sexto Capitão América. Atuou ao lado de Lemar Hoskins, o quinto Bucky, hoje chamado de Estrela Negra.
Johnnie Walker / Jack Daniels agora é conhecido como Agente Americano (U.S. Agent, no original).
Palpite para a identidade do sétimo Capitão: eu colocaria o James Buchanan Barnes, o Bucky original. Era o parceiro original do Capitão América desde sua criação, na "Captain America Comics" número 1, e atua até hoje, agora com o nome de Soldado Invernal. Mas não acho que será ele. Acredito que a Marvel irá criar um personagem novo, com uma história que remeta aos tempos de hoje (talvez o pai dele tenha morrido na Guerra do Golfo, de 1991, ou em 11 de Setembro de 2001). E, mais importante: se for um personagem novo, completamente inédito, fica mais fácil de ser descartado, ou transformado em coadjuvante com outra identidade, caso não seja bem aceito pelos leitores.
Acho a tira "Calvin e Haroldo", de Bill Watterson, sensacional. Mais do que engraçada ou bem desenhada: é lírica e inteligente.
Há algo no qual eu penso quando leio as antologias do Calvin: quanta solidão. Seus pais, adultos e distantes, não parecem fazer muito esforço para acompanhar seus devaneios. A professora (senhorita Wormwood) ou a babá (Rosalyn), muito menos. Me impressiona o quanto ele está sozinho mesma na sala de aula. Não há um amigo ou amiga, a maioria dos seus colegas considera Calvin... "estranho". O mais próximo que ele tem disso é a Susie Derkins. A impressão que eu tenho do relacionamento deles é que ele sente carinho por ela, e se expressa daquela maneira, usando-a como alvo de suas brincadeiras, por não conhecer outra maneira de se comunicar. Afinal, ninguém se comunica com ele com carinho, mas por obrigação - babá, professora e, em muitas ocasiões, os pais. Em poucas tiras um colega de classe aparece lhe dirigindo a palavra.
Fico com a impressão de que Calvin não sabe se relacionar com ninguém, adulto ou criança. Por isso lhe sobram "apenas" Haroldo, seu tigre de pelúcia, e sua imensa imaginação. É por esta razão que, vez ou outra, ele vira super-herói, aventureiro interplanetário ou um dinossauro. Também por isso que ele viaja no tempo, encontra extra-terrestres e salva a Terra. Porque ele tem muita imaginação. E porque está sozinho.
Não sei como as pessoas se lembram de suas infâncias. A julgar pelos livros, filmes e músicas que li, assisti e ouvi, foram maravilhosos, em sua maioria. Uma época com pequenos problemas, mas com muitas liberdades, alegrias, conquistas, descobertas etc. A minha, até onde eu me lembro, não foi assim. Está mais próxima da do Calvin - o que não quer dizer que meu único amigo era um animal de pelúcia. Tinha amigos, mas não na escola.
Lá, na sala de aula, eu era taxado de CDF. E, como "todo mundo" sabe, CDFs não têm amigos, não se divertem, não nada. Talvez por isso eu tenha ido me refugiar na leitura (livros e histórias em quadrinhos). Ou talvez por eu gostar de ler eu tenha me tornado um CDF, não sei. Nunca me preocupei com isso. Mas a verdade é que fui crescendo sozinho, à la Calvin, e também contando apenas com a minha imaginação na maior parte do tempo.
Calvin queria ser super-herói, astronauta etc. Eu sempre quis ser roteirista: criei dezenas de personagens. Quando não estava estudando ou vivendo com meus amigos (sim, CDFs têm amigos - bons amigos, aliás), criava histórias: origens para meus super-heróis, minisséries, álbuns de luxo. Não sabia desenhar (ainda não sei), mas fazia rabiscos, esboços do que eu queria que um dia viesse a ser desenhado.
Este não é um post "ai que infância triste eu tive". Porque não tive uma infância triste. Se um dia o Calvin crescesse (sei que jamais isto vai ocorrer), e se perguntassem a ele sobre a sua infância, acho que ele responderia o mesmo que eu. Feliz, mas sozinho, até certo ponto (ele mais do que eu, certamente). E com uma imaginação descomunal, que lhe proporcionou momentos inesquecíveis.
A imaginação, a meu ver, é um dom. Não torna ninguém melhor do que outrem, apenas é um dom, que pode ser canalizado de muitas maneiras. Escrevendo um blog, um conto, uma história em quadrinhos - caso do Bill Watterson, que usou seu dom com maestria para abordar a infância de uma criança com muita imaginação - ele nega que seja autobiográfico, mas deve haver um pouco dele ali.
Acho que eu, e todos os fãs do Calvin, me identifico tanto com ele não pela solidão, mas pela imaginação. E é gostoso perceber isso: que há outros como nós. Que não estamos sozinhos neste mundo. Tão sozinhos a ponto de ter, como único companheiro, um brinquedo inanimado de pelúcia.
Esta é a última tira do Calvin - ou melhor, como seria, na opinião de um fã,
que não assinou. Mas que, para mim, fez um belo trabalho. (Achei esta tira no
blog Pensar Enlouquece, do Alexandre Inagaki).
O Mauricio de Sousa sempre fala: história em quadrinhos é, antes de tudo, roteiro. Como ele, é por aí que me aproximo de uma determinada HQ: é o escritor, e não o personagem ou o desenhista, que me chama a atenção. Normalmente, não acho que há personagem ruim, mas roteirista pouco inspirado (ou preguiçoso mesmo). Isto posto, há personagens que, acredito, destoam. E um deles é o Hulk.
A premissa para o Hulk é muito, muito simples: um homem tem que se controlar, senão ele pode ferir muito as pessoas ao seu redor. Sim, há mais do que isso, mas este é o primeiro passo - e, na minha opinião, o mais importante.
Não sei como a maioria das pessoas é, mas eu, com toda certeza, sou humano. Erro uma barbaridade. E um dos meus maiores defeitos é perder a paciência. Ficar puto mesmo. Não me lembro de ter partido para cima de alguém, mas já fiz coisas talvez quase tão horríveis. Já magoei pessoas profundamente. Sem pensar, sem planejar, sem nada: apenas soube o que dizer para magoar, machucar, provocar lágrimas. Sim, é péssimo.
Hoje, não vejo mais isso nas histórias do Hulk, mas antigamente o pobre Robert Bruce Banner passava páginas e páginas tentando manter o controle. Ele suava, se contorcia, fazia caretas horríveis. E perdia: virava um monstro e destruía tudo ao seu redor. Depois, tinha que viver com a culpa.
A luta de Banner por autocontrole durou décadas. Às vezes ele assumia o controle do Hulk e virava um super-herói como nenhum outro: mens sana in corpore sano, que outro herói se compararia a ele? Mas na maior parte dos casos não era assim. Ele era apenas um homem tentando se controlar para não virar um monstro.
Um escritor percebeu isso. Peter David notou que o Hulk, mais do que um super-herói ou um monstro, era um homem tentando se controlar. E então Robert Bruce Banner fez o mesmo que muitos homens que, como eu, tentam se controlar: terapia.
Banner, um homem inteligente e sensível, de aparência inofensiva, não sabia se controlar. E passou a freqüentar o consultório do psiquatra Leonard Samson. As sessões não eram fáceis. Eram bem pesadas na verdade - mais um ponto para Peter David.
Acredito que jamais um escritor conseguiu interpretar tão bem o Hulk. Tão bem que é difícil para um roteirista levar o título adiante atualmente. No momento da série do Hulk que está sendo publicada agora no Brasil, os super-heróis amigos dele desistiram do Hulk, acharam que ele não tem mais jeito, e enviaram o pobre coitado para outro planeta. Que raio de amigos são esses? E desde quando super-herói desiste?
Tratar o lado psicólogico do Hulk não é, claro, o jeito "certo" de tratar o personagem. Não há um jeito certo. E não foi este o único foto que Peter David levou ao título. Afinal, foram 11 anos, de 1987 a 1998. Tempos suficientes para histórias excelentes, ótimas, boas e mais ou menos, que ninguém é de ferro. Mas, enfim, teve muito mais méritos do que qualquer outra coisa.
Eu tenho um ponto em comum com Bruce Banner. A raiva é a minha kryptonita. Cada vez que eu percebo ter errado novamente, ter sido derrotado pela cólera, me sinto derrotado. Um humano fracassado. E me identifico com o Hulk, um personagem que parece ser super-herói, parece ser um monstro, mas, às vezes, é tão humano, mas tão humano, que não consegue parar de errar. E nem por isso deixa de tentar.
Gerard Jones foi roteirista de quadrinhos por muito tempo - passou por títulos como "Mulher-Maravilha", "Batman" e "Lanterna Verde". Há quem ache memorável a passagem dele pelo "Sombra"; eu tenho na memória o tempo que ele ficou à frente da "Liga da Justiça", e que considero fraco.
Não li "Brincando de Matar Monstros". Ainda. Mas li o livro seguinte dele, "Homens do Amanhã - Geeks, Gângsteres e o Nascimento dos Gibis", que conta como surgiram os super-heróis como existem hoje e a explosão do mercado norte-americano de quadrinhos no final dos anos 30 e início dos anos 40. Li em apenas três dias. É impressionante. Recomendo a todos os fãs de histórias em quadrinhos.
Meu contato com "Homens do Amanhã" me deixou com muita vontade de ler "Brincando de Matar Monstros". Acredito que me levará a compreender melhor as histórias em quadrinhos. Provavelmente me fará refletir sobre o que eu procuarava quando, décadas atrás, comecei a ler HQs.
Lerei em breve. Não tão breve quanto eu gostaria, infelizmente, mas em breve.
Foi lendo “O Menino Quadradinho”, do Ziraldo, que eu percebi o quanto eu o leitor era importante para uma história em quadrinhos. Lá que eu entendi, pela primeira vez, a importância da calha – há quem chame “calha” de “sarjeta”. Até onde eu sei, ambas as maneiras estão certas. Acho “calha” mais simpático. Além disso, não creio que um blog chamado Sarjeta.zip.net atrairia leitores de histórias em quadrinhos :-)
Li “O Menino Quadradinho” há muito tempo. Tinha 13 anos, acredito. Perdi o livro. Comprei de novo, mas dei antes de relê-lo, então confesso que não me lembro de muita coisa, exceto que eu achei sensacional. A sinopse que eu achei na Internet:
Editado pela primeira vez em 1989, conta a história de um menino que morava dentro de uma história em quadrinhos e que um dia...
"De repente, o menino quadradinho descobriu que tinha vindo parar do lado de fora dos seus quadrinhos coloridos"
Ou seja: tem tudo para agradar um fã de histórias em quadrinhos, certo? Tudo e, para mim, um pouco mais. Desde muito cedo meu sonho foi criar histórias em quadrinhos. Ter a imaginação de alguém que inventava aqueles personagens maravilhosos que eu lia.
Meu primeiro contato com as histórias em quadrinhos foi com as HQs do Mauricio de Sousa. Depois, vieram os super-heróis. Em momento, entretanto, algum eu sonhei em ser um deles. Não queria voar ou ser super-forte. Sempre quis ser o cara por trás: o roteirista. O homem que escrevia os roteiros do Astronauta, personagem do Mauricio, viajando pelo universo; o cérebro que bolava todas as invenções espetaculares que sairiam da mente elástica de Reed Richards; ou a mente por trás das histórias que me impressionaram tanto como a autobiográfica “Maus” ou a ficcional “Watchmen”.
E foi ao ler “O Menino Quadradinho” que eu aprendi o que era a calha. E, com isso, descobri também o quanto o leitor é importante, pois é ele que interpreta e reinventa a história do seu jeito. Se ele não tiver imaginação e sensibilidade, não há roteiro ou desenho, por mais expressivos que sejam, que "funcionem". O roteiro é fundamental, a arte é fundamental e o leitor... também.
Viva “O Menino Quadradinho”, o livro, e todos os "meninos-quadradinhos" e "meninas-quadradinhas" que aproveitam sua sensibilidade e imaginação com comics, bandas desenhadas, fumettis, mangás...
Este é um blog para conversar sobre histórias em quadrinhos.
A primeira idéia é resenhar histórias em quadrinhos - laçamentos ou clássicas, nacionais ou importadas. Não apenas apresentar a HQ em questão, mas também dar opiniões: o que mais gostei, o que não me atraiu, o que é diferente, o que achei muito bom.
Outra idéia é, às vezes, pensar sobre fatos relacionados a quadrinhos, mas que não estejam necessariamente nas páginas de uma HQ: não fofocas ou polêmicas, mas notícias relacionadas a quadrinhos que me fizeram, de alguma forma, pensar um pouco.
O nome deste blog é Calha (o espaço entre os quadrinhos) porque é nela em que acontece o que, na minha opinião, o que é mais importante nas histórias em quadrinhos: a imaginação do leitor.
É entre um espaço e outro que o leitor completa a ação na sua mente, imagina (ou intui) o que está acontecendo. É na calha que ele completa o roteiro, que ele interage.
Bem-vindo ao blog Calha.
ps sobre a atualização: será feita às quartas e sábados, pelo menos neste primeiro momento