Calha


Walt Disney na mira da esquerda

Escrevi este texto há quase dez anos, quando li pela primeira vez "Para Ler o Pato Donald - Comunicação de Massa e Colonialismo", publicado em 1971, no Chile (e em 1977 no Brasil, pela Paz e Terra). Mudei algumas coisas para republicá-lo aqui.

O livro é uma análise dos valores implícitos e, por vezes, explícitos que aparecem nas histórias de Walt Disney (Walter Elias Disney, 5.dez.1901 a 15.dez.1966).

Mickey em cena de 'Fantasia'Para os autores do livro, os chilenos Ariel Dorfman e Armand Mattelart, Patópolis e seus arredores formam um microuniverso em que se defendem e propagam os valores e ideais capitalistas -é o imperialismo norte-americano que aparece nas sombras da caixa forte do tio Patinhas, dos uniformes laranja dos irmãos Metralha, dos "quacks" do Donald.

Quando o livro foi escrito, os partidos de esquerda estavam em progresso no Chile.

O candidato da situação, Radomiro Romeo, do Partido Democrata Cristão, havia sido derrotado na eleição presidencial de 1970 pelo candidato da oposição, Salvador Allende Gossens.

Os intelectuais de esquerda no Chile temiam qualquer forma de invasão capitalista. Dorfman e Mattelart, em particular, temiam que essa invasão se desse, também, pelas histórias em quadrinhos. Em seu prefácio para a edição brasileira, o tradutor Álvaro de Moya, especialista em quadrinhos, definiu a obra como "um panfleto, uma obra sectária, política, parcial, radical, esquerdista, antiimperialista e anticolonialista em seu bom e mau sentido".

As revistas da família Disney, assim como os partidos de esquerda, também estavam em alta -na época, os "niños" chilenos liam "Disneylândia", "Tio Rico" (com o tio Patinhas), "Tribilin" (com o Pateta) e "Fantasias".

Quando um terremoto assolou a cidade de San Antonio, os meninos de San Bernardo mandaram revistas "Disneylândia" para aliviar a dor de seus compatriotas.

A análise dos autores do livro não se propôs imparcial. Eles partiram do ponto que a obra de Disney era, por definição, errada, e que, por isso, deveriam combatê-lo. Já sabiam, também, que eles próprios seriam atacados por suas acusações e, na introdução do livro, já "profetizavam" como seriam descritos seus atos pelos críticos: "...querer lavar o cérebro das crianças com a doutrina do cinzento realismo socialista..."

Dorfman e Mattelart constatam que não há qualquer espécie de produção no "Mundo Disney": não são mostradas indústrias ou trabalhos cotidianos de qualquer espécie. E mesmo as relações sexuais inexistem.

Zé CariocaAnalisando o lado sexual, eles afirmam que "os (personagens) do setor masculino são obrigatoriamente, e perpetuamente, solteiros. Não, porém, solitários: também os acompanham sobrinhos, que chegam e vão".

Com essa sutil frase, eles vão pelo mesmo caminho que o psicólogo Fredric Wertham (do livro "A Sedução dos Inocentes", de 1954) seguiu quando acusou Batman de transar com Robin -e quase acabou com a revista do herói na década de 60. Mas isso é outra história, para um post futuro.

O fato de nenhum personagem de Disney ter pai ou mãe é considerado perigosamente ofensivo por Dorfman e Mattelart.

Como nunca foi descoberto qual irmão/irmã de Donald é pai/mãe dos trigêmeos Huguinho, Zezinho e Luisinho, e isso se passa em todas as relações tio/sobrinho de Patópolis, os autores concluem que há uma construção de um "mundo aberrante" para os leitores infantis, desprovido de sexo.

A mulher, segundo apontam, estaria restrita a dois papéis específicos: a donzela dona de casa (Margarida, Minie, Vovó Donalda, Clarabela) ou a perigosa perversa (Madame Min, Maga Patalógika). "É preciso escolher entre dois tipos de panela: a caçarola do lar ou a da poção mágica horrenda."

Ao tacharem as histórias de Patópolis como machistas, os autores podem estar se estendendo aos "comics" em geral.

Na época em que foi escrito o livro, as mulheres só protagonizavam HQs na Europa (Barbarella, de Jean-Claude Forest, e Valentina, de Guido Crepax, por exemplo) e no Japão (ah, os mangás...). Nos Estados Unidos, Lois Lane, eterna namorada (hoje mulher) do Super-Homem, Betty Banner, do Hulk, e outras personagens jamais saíram da sombra de seus importantes amantes. A exceção fica por conta da Mulher-Maravilha, iniciativa do psicólogo feminista Charles Moulton (pseudônimo de William Moulton Marston).

De volta a Patópolis: "Tais personagens, por não estarem engendrados em um ato biológico, aspiram à imortalidade; por muito que sofram, no transcurso de suas aventuras foram liberados da maldição de seu corpo".

Essa metonímia se estende, novamente, a todos os personagens das histórias em quadrinhos: jamais veremos um Cebolinha ou uma Mônica crescidos, para pegarmos exemplos brasileiros, ou um Batman e um Homem-Aranha de cabelos brancos. É uma crítica aos personagens de HQs de um modo generalizado.

Mas, além dos fatores de comportamento e evolução física, incomoda a Dorfman e Matelart o lado econômico das histórias, posto que jamais são vistos operários (tio Patinhas só tem "funcionários", segundo eles) ou fábricas nos cenários patopolenses.

Com a ausência das formas de produção, Disney "expulsa o setor secundário de seu mundo, de acordo com os desejos utópicos da classe dominante de seu país", de onde concluem que ele "cria um mundo que é uma paródia do mundo do subdesenvolvimento".

Tio Patinhas no traço de Keno Ron RosaComo o lado econômico, o valor exagerado dado pelo patos ao dinheiro, mostrado explicitamente, há também o lado político, este implícito, que também seria prejudicial às crianças.

"Já não podem escapar a ninguém os propósitos políticos de Disney, (...) em que está cobrindo de animalidade, infantilismo, bom-selvagismo, uma trama de interesses de um sistema social historicamente determinado e concretamente situado: o imperialismo norte-americano."
Funcionaria assim: a classe proletária estaria "escondida" sob os selvagens bonzinhos (pessoas de origem humilde, geralmente do interior) e criminosos patopolenses (fadados ao eterno fracasso).

Esses personagens resgatariam do proletariado alguns mitos que a burguesia tem construído desde sua aparição, com o propósito de "ocultar e domesticar seu inimigo, fazendo-o funcionar fluidamente dentro do sistema".

Essa representação é associada às relações autoritárias que os personagens têm entre si. Em muitas histórias, Donald segue à risca as ordens do tio Patinhas, bem como é obedecido cegamente quando esbraveja com seu sobrinhos.

Desses relacionamentos, eles concluem que há uma linha de poder dividindo os personagens. "Os que estão abaixo devem ser obedientes, submissos, disciplinados e aceitar com respeito e humildade as ordens superiores."

Assim, implicitamente, haveria uma "mensagem" de como os povos subdesenvolvidos devam se comportar frente aos mais desenvolvidos: seguindo suas ordens sem questionar, aceitando cegamente sua liderança.

Donald Fauntleroy Duck e sobrinhos (Huguinho, Zezinho e Luizinho, ou Huey, Dewey e Louie), pintados por Carl Barks, o Homem dos Patos"Os povos subdesenvolvidos são para Disney como as crianças; devem ser tratados como tais e, se não aceitam essa definição de seu ser, é preciso descer suas calças e lhes dar uma boa surra."

Eu sei que os Estados Unidos contrataram Walt Disney para viajar pela América Latina (Brasil inclusive) nos anos 30, a serviço da Política da Boa Vizinhança, lançada pelo presidente americano Franklin Roosevelt com o objetivo de manter toda a América alinhada com os Estados Unidos - e afastada da influência de comunistas e fascistas.

O responsável pela doutrina era o OCIAA (sigla em inglês para "Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos"), que usava a cultura como um dos principais meios para manter a influência americana. O órgão encomendou a Disney - uma espécie de "embaixador não-oficial" da Política da Boa Vizinhança - personagens que conquistassem a simpatia da América Latina. (Este parágrafo, na íntegra, e a maior parte do anterior foram retirados da reportagem "Zé Carioca era paulista", da ótima revista "Aventuras na História").

Ou seja: Walt Disney, de fato, trabalhou para aproximar a América Latina dos Estados Unidos. Criou, inclusive, personagens para homenagear países que visitou: o mexicano Panchito Pistoles (que tem até nome completo: Panchito Romero Miguel Junipero Francisco Quintero González III) e o brasileiro Zé Carioca (em inglês: Jose Carioca).

Mas uma coisa é o que ele fez ao vivo, às claras. Outra é acusar que ele, e todo o estúdio Disney, trabalham/ trabalharam todos aqueles desenhos animados e histórias em quadrinhos com segundas intenções.

Minha opinião? Às vezes nós queremos muito, mas muito mesmo, enxergar certos defeitos ou qualidades em pessoas, filmes, livros etc. E conseguimos. Mas, acredito, é muito mais do que está em nós, e projetamos, do que de fato exista. Nossas convicções, nossas paixões, alteram nossa percepção.

Obviamente, eu posso estar engando. Pode ser que minha paixão por histórias em quadrinhos não me permita ver com a clareza que eu gostaria.

ps - curiosidade, o vídeo de "Blame it on the Samba" (Ernesto Nazareth/Ray Gilbert), estrelado por Ethel Smith, Pato Donald e Zé Carioca:

ps2 - site da Disney Brasil: http://www.disney.com.br/



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Escrito por Brasil Bonilla às 21h59
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Walt Disney na mira da igreja

Assisti, esta semana, ao vídeo abaixo. Trata-se do pastor norte-americano Josue Yrion pregando, em português e no Brasil, contra os estúdios Walt Disney que, segundo ele, pregam: bruxaria, satanismo, pornografia e espiritismo (!).



Os quadrinhos/desenhos Disney realmente provocam reações intensas. Nos anos 70, da esquerda politizada (post acima); agora, de religiosos (ou de um religioso, pelo menos). Por que será? Não pela qualidade, mas sempre por algum tipo de segundas intenções - capitalismo, nos anos 70, e bruxaria, satanismo, pornografia e espiritismo (!!!) agora.

Acredito, em um primeiro momento, que no caso dos políticos de esquerda havia uma identificação da cultura Disney com os Estados Unidos. Atacar Donald, Mickey e cia. era atacar o capitalismo norte-americano.

Já o caso do religioso acima me é mais misterioso. Será que ele está usando a Disney como alvo para atacar toda a cultura que não segue a religião dele? Parece-me que sim. Procurei mais sobre Josue Yrion e descobri que ele também já atacou o Homem-Aranha e a Xuxa (!). Ele acusa a Xuxa de ser satanista. Josue Yrion conta, em outro vídeo, que a filha dele ganhou uma boneca da Xuxa e dormiu abraçada com a boneca. A menina acordou doente. Ele, então, arrancou os membros (pernas e braços) da boneca. Quando ele arrancou a cabeça, a boneca da Xuxa "gritou".

Em tempo: discordo de tudo o que ele disse. E, segundo a Wikipedia, "Pocahontas" significa "menina brincalhona, peralta, travessa", e não "espírito que vem das profundezas".



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Escrito por Brasil Bonilla às 21h58
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...mas a Mulher-Maravilha?!?!

Tento ler tudo o que passa a um raio de seis metros dos meus olhos e que seja histórias em quadrinhos. Não só HQs, claro: jornais, livros e revistas. mas principalmente quadrinhos. Motivo? Porque gosto. Entre ontem e hoje, por exemplo, li André Dahmer, Allan Sieber, Rising Stars, Pixel Magazine, X-Men e uma importada da Wonder Woman (Mulher-Maravilha).

Anos 40: primeira aparição da Mulher-Maravilha, na Sensation Comics nº 1, ilustrada por Harry PeterComo eu disse, é questão de gosto. Mas noto, no rosto de quem não lê HQs e me vê com uma revista na mão, que há maneiras diferentes de como as pessoas olhas quem está segurando uma HQ mais "adulta" (Art Spiegelman ou Marjane Satrapi, por exemplo) ou uma HQ mais comercial (X-Men, Liga da Justiça, super-heróis em geral). Pode ser impressão minha, é claro. Pode ser que eu esteja projetando nos outros um pré-julgamento que eu acho que elas têm - o que seria um preconceito meu.

Quando converso sobre meus personagens prediletos (que, confesso, são dezenas), percebo que um, em particular, provoca ojeriza em meus amigos "intelecutais", "pseudo-intelectuais", "de esquerda", "de direita" ou simplesmente "adultos": a Mulher-Maravilha. Basta eu citar o seu nome e ouvir "mas a Mulher-Maravilha?!?!", com um ar que mistura decepção, sarcasmo e superioridade. Ainda não consegui entender a razão, mas me eforço.

Há, talvez, a questão do patriotismo norte-americano. Ela foi criada por um norte-americano (William Moulton Marston), para uma editora norte-americana (DC Comics), em um gênero tipicamente norte-americano (super-heróis) e usa um uniforme que remete à bandeira das listras e das estrelas - sem falar que tem uma águia estilizada no peito.

Anos 60: Mulher-Maravilha em versão 'hippie', sem poderes, na Wonder Woman nº 178, por Mike SekowskyOs Estados Unidos, convenhamos, não estão entre os países mais populares do mundo. A política externa do governo dos EUA (e não vou comentá-la aqui; tenho minhas opiniões, mas não creio que seja o lugar), especialmente do governo Bush filho, conseguiu desgastar fortemente a imagem do país no exterior. Conceitos que costumam ser usadas por críticos dos Estados Unidos quando falam a respeito: imperialistas, hipócritas, vendidos por petróleo, interesseiros etc. Até nos esportes ou nos concursos de miss: dificilmente a representação norte-americana tem a torcida a seu favor quando está fora de casa.

Soma-se a isso outra idéia: a de que os Estados Unidos querem doutrinar o mundo a pensarem como ele. Este conceito já rendeu um dos mais influentes livros teóricos sobre histórias em quadrinhos, "Para Ler o Pato Donald", de Ariel Dorfman e Armand Mattelart. Analisando as histórias Disney, parte para como os EUA querem influenciar o mundo também por meio das HQs. Li o livro e posso dizer: discordo, e voltarei a este livro em um futuro post. Por ora, acredito que o raciocínio persiste. Para quem vê de fora, a Mulher-Maravilha, o Superman e o Capitão América, que usam as cores norte-americanas, não passam de bonequinhos criados como ferramenta do American way of life. É uma opinião. Eu discordo dela, mas é uma opinião.

Mulher-Maravilha por Alex RossEspecialmente no caso da Mulher-Maravilha. A personagem não é norte-americana. Ela é - e sempre foi, desde sua criação em 1941 - uma representante de Themyscira nos Estados Unidos. Nas primeiras (e mais inocentes) histórias, era apenas uma representante. Mais recentemente virou uma embaixadora, com direito a imunidade diplomática, embaixada, auxiliares políticos e discursos na ONU. Themyscira não existe no mundo real. No Universo DC (ou DCU, como é conhecido pelos fãs), trata-se de uma ilha colonizada por gregas. A Mulher-Maravilha descende de gregos. Foi alfabetizada em grego arcaico (ou em themysciriano, depende do roteirista, mas não deixa de ser grego arcaico) e é uma mulher extremamente religiosa: ora para os deuses helênicos, especialmente Deméter, Afrodite, Atenas, Ártemis, Héstia e Hermes.

Ela é uma estranha que mora nos Estados Unidos. Um elemento exógeno que busca divulgar a sua cultura, especialmente a igualdade entre todos os seres humanos. A Mulher-Maravilha não é deslumbrada pela cultura norte-americana. Pelo contrária, é uma crítica. Por isso está lá, pregando a sua cultura, e não em outro país do mundo. Mas aos olhos de quem vê de fora, ela não passa de uma garota-propaganda do Tio Sam. Erro... Julgar um livro pela capa dá nisso.

Anos 2000: Tróia, a irma gêmea da Mulher-Maravilha, ex-Moça-Maravilha e ex-Mulher-Maravilha; princesa Diana, a primeira e atual MM; e a atual Moça-Maravilha; capa da Wonder Woman, segunda série, nº 186, por Adam hughesA outra coisa que eu acho que incomoda é o físico dela. Uma mulher morena, alta (1,80 m), de corpo escultural e com as pernas de fora. Por essas razões, suponho, ela é tida como uma espécie de barbie, uma idealização do corpo da mulher, aquilo tudo que as moças de hoje em dia gostariam de ser, mas que jamais conseguirão. E que os homens de hoje em dia idealizam a Mulher-Maravilha e não se contentam com a mulher humana que têm ao lado, ou algo assim. Enfim: que a imagem de uma super-heroína de corpo perfeito ajuda a deturpar a imagem da mulher na sociedade. Que por ela ser bonita e gostosa rebaixaria a mulher a um papel de sex symbol, e nada mais. A questão da sexualização, da banalização da mulher como símbolo sexual, parece ser outro fator de incômodo.

Bem... A Mulher-Maravilha percorreu um longo caminho desde sua criação e hoje é não só uma super-heroína, mas também uma diplomata e uma escritora que publica livros de reflexões, nos quais defende a igualdade entre todas as pessoas, independentemente de gênero, cor, nacionalidade, religião, orientação sexual, inclinação política etc. Ela dá palestras, leciona cursos, participa de campanhas e combate o crime. Isso, entretanto, só sabe quem lê suas histórias. Quem não lê... Bem, o que há de errado em julgar pelas aparências, afinal? Simples: você pode estar errando feio.

ps - Mais Mulher-Maravilha, mas em movimento, no post abaixo.



Categoria: Personagem
Escrito por Brasil Bonilla às 00h20
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...e mais Mulher-Maravilha:

Já que falamos de Mulher-Maravilha no post acima...

Em 1966, Adam West estrelou o longa-metragem e a primeira temporada de "Batman", um seriado regado a humor, cores berrantes e onomatopéias. A Mulher-Maravilha quase embarcou na onda: abaixo, piloto, gravado em 1967, de um seriado da MM que não chegou a produzido - e que também seria uma comédia. Nesta cena, ela tem uma mãe humana (e não amazona) que a impede de ir salvar o mundo para... jantar. (Ellie Wood Walker como Mulher-Maravilha.)


Segunda tentativa: a loira (!) de uniforme estranho abaixo não parece, mas é a Mulher-Maravilha em um filme feito para a TV em 1974. Cathy Lee Crosby estrelou este quase desconhecido "Wonder Woman".


A abertura da primeira temporada do seriado da Mulher-Maravilha para a TV (Lynda Carter vivia o papel-título). O filme, "The New Original Wonder Woman", estreou em 1975; a primeira temporada teve 14 episódios, que foram ao ar de novembro de 1975 a fevereiro de 1977. A segunda temporada teve 22 capítulo, de setembro de 1977 a abril de 1978. Na terceira e última foram 24 episódios, de setembro de 1978 a setembro de 1979.


Mulher-Maravilha em três momentos em desenhos animados:
Primeiro, como refém de um inimigo no clássico (e inocente) "Superamigos".


Depois, mais forte e agressiva em "Liga da Justiça", série que teve cinco temporadas entre 2001 e 2006.


Finalmente, na prévia de "Justice League: The New Frontier", longa animado que tem estréia prevista para 2008.



Categoria: Personagem
Escrito por Brasil Bonilla às 00h08
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O que aconteceria se...

Cena de Amazing Spider-Man nº 50, por John Romita Sr., que reflete o momento de introspecção de Peter Parker sobre a sua função no mundoA editora Marvel, do Homem-Aranha, tem uma série de histórias que se chamam "O que aconteceria se..." ("What If...", no original). A princípio, toda HQ da Marvel é ficção (não me lembro de esta editora publicar autobiografias ou biografias, mas pode ter ocorrido). Entretanto, como eles têm suas leis, sua história, sua cronologia, eles criaram esta abertura para que os artistas criem histórias diferentes com seus personagens.

Os quadrinistas pegam momentos importantes na história dos personagens da editora e levam até o fim, em um exercício maior de criatividade. Afinal, em uma revista de linha, por maior que seja a imaginação do escritor, ainda há que se respeitar os limites de cronologia e dos personagens. A Panini lançou recentemente aqui no Brasil "Marvel Especial nº 4: O Que Aconteceria Se...", com histórias envolvendo Vingadores, Homem-Aranha, X-Men e Wolverine. Me deram sono, mas não é esse o caso.

O caso é que na semana passada, Riquelme Wesley Maciel dos Santos, um brasileiro de cinco anos, fantasiado de Homem-Aranha, entrou em uma casa em chamas e salvou um bebê. Felizmente, ninguém se machucou.

Tobey Maguire como o Homem-Aranha, no segundo filme dirigido por Sam Riami, em que ele enfrenta o mesma dilema retratado nos quadrinhos pela dupla Stan Lee e John Romita Sr.O que teria acontecido se ele, ou qualquer outra criança fantasiada como super-herói, tivesse se ferido? Como isso repercutiria? Paulo Ramos, do ótimo Blog dos Quadrinhos, fez uma crônica interessante: "E se o Homem-Aranha tivesse morrido?". Na minha opinião, como fã de quadrinhos, vale a pena a reflexão.

Afinal, o que os não-leitores de HQs esperam dos leitores de HQs? Que imagem eles têm? É merecida essa imagem? Não é? Todo esteriótipo é burro? Não é?

Ainda há preconceito quando o assunto são as histórias em quadrinhos?



Categoria: Conceitos
Escrito por Brasil Bonilla às 22h42
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Mônica: uma personagem de HQ que é embaixadora do Unicef

Uma notícia interessante nesta semana que passou, envolvendo histórias em quadrinhos, cultura e educação: a personagem Mônica, de Mauricio de Sousa, recebeu o título de embaixadora do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) no Brasil. Uma personagem, e não uma pessoa. Mais: não uma personagem inatingível: um super-herói, uma gostosona, um gênio, um esportista. Mas uma menina acima do peso, nervosinha e dentuça. Humana, humana.

Legenda desnecessária, certo? ;-)Fiquei pensando no que eu acho da personagem. Não leio mais HQs da Mônica, apenas ocasionalmente. Nada contra: apenas meu gosto mudou um pouco. Mas é inegável que o Mauricio de Sousa teve uma importância enorme na minha paixão por quadrinhos.

Quando eu era pequeno, lia quase tudo que fosse em quadrinhos e caísse na minha mão - menos super-heróis. Mônica, Cebolinha, Pelezinho, Mickey, Pateta e companhia me acompanharam por anos. Gostava principalmente das adaptações de livros ou filmes: a Turma da Mônica reinterpretando "Romeu e Julieta" estava entre as minhas prediletas.


Fui crescendo e meu gosto foi mudando - se diversificando, para ser mais exato. Hoje, não olho para as histórias da Mônica pensando "no meu tempo que era bom...", mas de uma outra maneira. Algo como "muito do meu gosto cultural vem dali".

Não consigo explicar aos meus amigos que não lêem quadrinhos (95%) porque gosto tanto de HQs. Questão de gosto, de hábito, de personalidade? Preciso pensar sobre isso... Mas o fato é que o humor, as aventuras, até as lições de moral da turma do Mauricio de Sousa me cativaram, me ensinaram a olhar com mais carinho para o que eu lia. Mas acho que é mais do que isso: acho que é a amizade que vinha de suas páginas.

Este post me deixou muito nostálgico. E qual o problema com a nostalgia, afinal? :-)Sempre dei muito valor para as amizades - como a maioria das pessoas, suponho. E sempre fui uma criança muito sozinha, na sala de aula. Talvez por ser o melhor aluno por anos, o que sempre funciona para agradar os pais e professores e afastar os colegas de classe, fazendo com que ficassem apenas isso: colegas, nunca amigos.

Sentia uma solidão dos infernos. Só encontrava meus poucos amigos (que felizmente ainda vejo, mais de duas décadas depois) fora da escola. Lá dentro, eu era quase como o Jeremy da canção homônima do Pearl Jam - ou era assim que eu me sentia. Mas quando eu lia, a coisa mudava de figura.

E minhas leituras prediletas, desde aquela época, refletiam isso - pelo menos é o que me parece, olhando retroativamente e ciente de que as memórias não são representações exatas da História, mas uma mera releitura dela. Na prosa, eram o Sítio do Picapau Amarelo (uma turma, uma família, como queira), os livros dos Karas (de, cinco amigos da mesma escola) e a Turma do Gordo (de ). Nos quadrinhos, eram a Turma da Mônica, Pelezinho e sua turma (tinha pena do Frangão), as histórias com Mickey e o Pateta juntos, e uma história Disney que nunca mais reencontrei, mas que adorei, sobre Zé Carioca e seus primos - salvo engano, Zé Paulista, Zé Gaúcho, Zé Nordestino e Zé Mineiro, ou algo assim.

Mônica, em versão renascentistaTambém foi a união que me levou para o universo dos super-heróis. Em um primeiro momento, o Quarteto Fantástico de John Byrne, histórias maravilhosas que uniam uma família que não se separava nunca e conceitos científicos que mexiam com o meu cérebro em formação. Depois, a Liga da Justiça de J.M.DeMatteis, Keith Giffen e Kevin Maguire, quando os super-heróis deixaram de ser heróis e viraram, veja só, humanos. Ali eu vi uma super-heroína ficar viciada em refri diet; um herói parar de ser herói por ter engordado tanto, mas tanto, que não cabia mais no uniforme; dois heróis saíram brigarem bobamente entre si, tal qual dois adolescentes descerebrados; etc etc etc.

O terceiro passo foram os X-Men: os super-heróis que lutam, acima de tudo, contra o preconceito. Lá tem de tudo: brasileiro, canadense, africano, asiático, careca, cadeirante, judeu, islâmico, prostituta, órfão, pessoas diferentes, com problemas, normais, o que for. Lá, também, valoriza-se a união, a amizade, a educação. Como a Turma da Mônica, que foi onde este post começou.

Este post e minha paixão por quadrinhos. Não fossem as histórias tão boas e inteligentes, que soubessem dar tanta importância a valores como amizade e respeito, eu certamente não teria mergulhado tão fundo no mundo das histórias em quadrinhos. Ainda bem que mergulhei.


ps - Mais Mauricio de Sousa no post abaixo.



Categoria: Personagem
Escrito por Brasil Bonilla às 21h17
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Mauricio de Sousa: além de quadrinista, cronista

Não é de hoje que o Mauricio de Sousa é cronista. Já lançou dois livros, aliás: "Navegando nas Letras" (editora Globo, 1999) e "Navegando nas Letras II" (editora Globo, 2000). Tenho ambos.

As crônicas estão disponíveis em seu site, http://www.monica.com.br/mauricio-site/. A que eu coloco abaixo é a que mais gosto, e é a nona das quase 300 já publicadas. Fala de amizade, um tema que prezo muito - não só eu como ele, tenho certeza.

"Sem dinheiro... no hotel mais caro do mundo"

Era tempo de festival de História em Quadrinhos em Lucca, na Itália. O mais importante do mundo e que reunia, a cada ano, os mais importantes desenhistas de cada país. O ano: 1971.

Para mim um festival memorável: voltei para o Brasil com dois prêmios: o gran Guinigi e o Yellow Kid (este último considerado o Oscar das HQ).

E lá estávamos nós, os desenhistas, reunidos para palestras, convenções, premiações e principalmente (naquela região da Toscana) para almoços e jantares monumentais, regados a vinho generoso. Mas a coisa não terminava aí. A Europa nos convidava para esticadas aos países mais próximos após a mostra. E eu aceitei a sugestão do meu colega Hugo Pratt (Corto Maltese) para visitá-lo em Veneza, onde ele tinha uma de suas casas.

Antes, como o clima do Festival estava uma beleza, antevia a premiação e tinha um tempinho para essa fugidinha para Veneza, liguei para o Brasil e convidei minha então esposa Vera Lucia, para "voar" para Lucca, a fim de ainda pegar o Festival pelo meio e depois irmos, juntos, para Veneza numa lua de mel tardia. Vera conseguiu chegar rapidinho, participou das festividades de premiação e arrumamos as malas para a esticada veneziana.

Só havia um problema naquele tempo: eu tinha o dinheiro contado para os poucos dias que vinham pela frente. Não podiamos nem pensar em errar na escolha de um mero restaurante. Tínhamos que economizar, mesmo!

Mas o outono era uma festa, o clima de lua de mel também.

Dinheiro era o menos importante... desde que tomássemos cuidado.

Chegamos a Veneza, por trem. Hugo nos esperava, com aquele seu corpanzil, sorriso simpático e jeitão todo diferente de falar.

Misturando italiano com português e espanhol para que Vera o compreendesse. Chamou uma lancha-táxi e disse que tinha reservado para nós um hotelzinho simpático e barato. Eu já havia lhe contado, em Lucca, do nosso problema de caixa. Ele nos acalmou, enquanto singrávamos pelos canais, abobados pelo espetáculo. Hugo dizia, enquanto admirávamos a cidade, que Veneza fôra feita para lua de mel. E a lancha embicou numa viela-canal ao lado de velhos prédios, próximo da Piazza San Marco.

Uma portinha quase despercebida surgiu rente à água, num paredão lateral de uma velhíssima construção. Hugo disse que era ali. Fez-nos descer da lancha num pequeno embarcadouro e nos encaminhou à entrada. Antes que pudéssemos falar mais coisas subiu na lancha e sumiu.

Tomamos o corredorzinho meio escuro e fomos em busca da recepção. A julgar pelo corredor velho e escuro, já estava até imaginando que o Hugo Pratt nos indicara um hotel inferior ao que eu pedira.

Mas a dúvida se desvaneceu quando deparamos com um enorme salão renascentista, coalhado de quadros e tapetes maravilhosos. A decoração era, no gênero, o que eu vira de mais sofisticado e magnificente. Era de cair o queixo. Vera e eu achamos que o Hugo se enganara ou estávamos no meio de um museu no caminho do tal hotelzinho. Mas tudo era muito estranho. Até encontrarmos, atrás de uma coluna, a recepção. Onde nos informaram da reserva feita em meu nome. Preenchemos as fichas e subimos para uma suite de cobertura que dava para o grande canal. Uma beleza de vista. Linda. E provavelmente muito cara. Vera estava encantada. E preocupada, como eu.

Como é que íamos pagar tudo aquilo?

Telefonei para o Hugo. E ele, às gargalhadas, disse que tinha planejado tudo aquilo, sim, porque achava que uma lua de mel merecia o melhor e mais caro hotel do mundo: o Danieli Excelsior.

E que eu economizasse no resto da viagem. Mas não nos três dias de Veneza.

Aceitei o argumento. Já que estávamos ali, o melhor era aproveitarmos.

O que fizemos.

Nos dias restantes, na volta via Paris tivemos que experimentar almoços e jantares de sanduíches e vinhos mais baratos. Mas sabe que também foi delicioso? Pudera: pão e salame franceses e mais vinho Boujolais, que era mais barato que água. O que mais queríamos para terminar a lua de mel temporã?

Mas todas essas aventuras tiveram um significado especial dentre as minhas lembranças de vida: uma semana depois de nossa chegada ao Brasil, Vera morreu num acidente de carro.



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Escrito por Brasil Bonilla às 21h14
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Astro City e a essência dos super-heróis

Notei que eu andei esculhambando algumas HQs de super-heróis por aqui: a mini "Procurado" e o onipresente Wolverine. Ei, nada contra... Gosto de quadrinhos, de um modo geral, e de muitas HQs de super-heróis. Hoje vou falar bem de uma: "Astro City".

Uma imagem que praticamente diz 'para o alto e avante': o Samaritano de Alex Ross"Astro City" foi criada por três quadrinistas que, antes de quadrinistas, são nerds: o roteirista Kurt Busiek, o desenhista Brent Eric Anderson e o fenômeno editorial e alavanca de vendas Alex Ross. Eles se juntatam para um projeto gigantesco, talvez megalomaníaco: criar uma série que, de uma paulada só, conseguisse sintetizar e homenagear o gênero de super-heróis.

A meta, convenhamos, não era das mais fáceis. Desde que Jerry Siegel e Joe Shuster publicaram a primeira aventura do Superman, em 1938, podemos dizer que milhares de super-heróis e vilões, além dos sempre populares anti-heróis, pipocaram em revistas, tiras de jornais, seriados de TV e filmes. É um filão e tanto. Teve, como ainda tem, aritstas extremamente talentosos fazendo essa máquina girar. E, não menos importante, milhões de fãs. Não apenas leitores, veja só: mas fãs.

Fã é aquele cara que sabe que super-heróis não existem, mas que fica chateado quando um roteirista dá uma "escapada" e erra ao retratar um personagem importante; que fica emputecida quando editorias "malandros" bolam estratégias mega-hiper-gigantescas para vender suas histórias, ignorando completamante o histórico de uma série ou personagem; que fica emocionado quando lê uma série boa e sente vontade de mandar um e-mail elogiando.

É um pássaro? É um avião? Não, é o S... Samaritano, de Alex RossEu me incluo entre esses fãs, claro. Exemplificando os três casos acima: detesto as 126.234 maneiras que os roteiristas da DC descrevem a personalidade do Batman, parece que não chegam a um acordo sobre quem ele é; parei de ler todas revistas com o Homem-Aranha depois da "Saga do Clone"; e já mandei cartas para Will Eisner e Ramona Fradon.

Pois por ser um fã, e não um leitor, eu gosto tanto de "Astro City". O que os três criadores fizeram foi bolar um universo (e uma cidade em particular, a Astro City do título) em que caberiam a essência de todos os grandes (ou não tão grandes) super-heróis que já existiram. A essência, mas não eles - ou tomariam processo das demais editoras.

Assim, o mais poderoso de todos os mortais, com sua capa esvoaçante e seu cabelinho "pega-rapaz", que esconde sua identidade secreta atrás de um cabelo diferente e um par de óculos, está lá, mas se chama Samaritano, e não Superman. O Quarteto Fantástico (Fantastic Four, em inglês) virou a Primeira Família (First Family). A Mulher-Maravilha é a Vitória Alada; Batman e Robin, Confessor e Coroinha e por aí vai.

Eu disse a essência... Eu vejo assim. O Superman da DC Comics já morreu duas ou três vezes, se dividiu em Superman Azul e Superman Vermelho, viajou ao passado e ao futuro, casou-se etc. etc. etc. Isso tudo não está em "Astro City" - não precisa estar. A base está lá. O imensurável altruísmo, os enormes poderes, o desafio de manter a identidade secreta, a tragédia de ter sobre seus ombros o fato de saber ser o último de seu mundo. Esse é o Samaritano. Assim, icônicos, também foram construídos seus colegas. Poderia parecer plágio, mas é uma homenagem rica em detalhes, para onde quer que se olhe.

Um homem comum sem dar a menor bola para o super qualquer coisa sentado ao seu lado; arte por Alex RossE é bom reparar mesmo nos detalhes: embora nada essenciais à continuidade da história, as homenagens aparecem, por exemplo, em locais e datas relativos a Astro City. O Monte Kirby, onde fica a sede da Primeira Família, é uma homenagem a Jack Kirby (criador de Quarteto Fantástico, Novos Deuses, Hulk, Capitão América); a universidade Fox-Broome lembra os escritores Gardner Fox (Liga da Justiça, Sandman, Starman, Flash/Barry Allen) e John Broome (Lanterna Verde/Hal Jordan, Guy Gardner, Capitão Cometa, Vingador Fantasma); e a ponte Outcault, em memória daquele que, para os norte-americanos, é o criador das histórias em quadrinhos, Richard F. Outcault ("pai" do Yellow Kid, ou Menino Amerelo). Referências cronológicas também aparecem: a Primeira Família surge em 1961, mesmo ano em que o Quarteto Fantástico, sua "inspiração", foi criado; e o Samaritano aparece em 1986, ano em que, pela primeira vez, a cronologia do Superman foi zerada e suas histórias começaram do zero (é a cronologia que vale até hoje).

Em resumo, é um universo em que há pessoas voando (algumas com capas), onde criaturas monstruosas nem sempre são o que parecem, e em que há pessoas que querem dominar o mundo. Esse é o ponto de partida. O ponto de chegada de "Astro City", e que é seu ponto alto, são as histórias. Excelentes.

O ponto de vista muda: pode ser de um herói ("Astro Cty: A Primeira Família", editora Pixel), de um vilão ("A Águia e a Montanha", de "Bem-Vindo a Astro Cty", editora Pixel), de um anti-herói ("Astro City: O Anjo Caído", editora Devir), de uma pessoa absolutamente comum ("A Proximidade Dela", de "Astro City: Inquisição", editora Devir). São histórias com começo, meio, fim e, acima de tudo, conteúdo. Vida longa a Astro City!



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Escrito por Brasil Bonilla às 23h06
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Wanted - quero ser malvadinho ou o que são os quadrinhos para adultos?

Foi divulgado nesta semana o primeiro trailer do filme "Wanted", do diretor Timur Bekmambetov, com Angelina Jolie, Morgan Freeman e James McAvoy. O longa é uma adaptação da minissérie homônima lançada em 2004-05 nos Estados Unidos, e publicada no Brasil como "Procurado" (editora Mythos, 2005). Foi escrita por um dos roteiristas mais "descolados" das HQs de super-heróis no momento: o escocês Mark Millar, que escreveu "Guerra Civil", grande (no sentido de divulgação) evento da editora Marvel na virada de 2006 para 2007.

Antes da opinião, um resumo de "Procurado": garoto comum, com emprego burocrático e em crise no namoro (lembrou alguém que você conhece) descobre que seu pai, a quem nunca conheceu, é, na verdade, o maior assassino que o mundo já viu.

A premissa é boa: tudo pode acontecer a partir daí. No caso, o tal moleque acaba se tornando um assassino dos grandes, quase tão bom quanto o pai. Afinal, qualquer coisa é melhor do que ser uma pessoa comum, com uma emprego comum e um namoro comum.

Acima, o trailer. Abaixo, um trecho do discurso final de "Procurado", dito diretamente para o leitor (ou seja, você e eu):

"Porra, você é o maior cuzão... E tô falando por experiência própria. Por que você se borra todo pela resolução da minha vida? Você se mata de trabalhar 12 horas por dia, engorda de tanto se empanturrar de comida barata... E sua mina, é quase garantido, tá dando pra outros caras.

Só porque tem uma puta tevê de plasma e uma grande coleção de DVDs não significa que você é um cara livre, ô filha da puta. Cê num passa dum escravo bem-pago, como tantos outros fodidos por aí.

Até este gibi é um reles intervalo de 15 minutos nda nossa manipulação da sua vida."

Os protagonistas de Wanted (Procurado): Wesley Gibson e Raposa (arte por J.G. JoneS)Concorda? Ou é radical? Mais (ou menos) do que radical... Adolescente?

As histórias em quadrinhos de super-heróis sempre tiveram, de um modo bem definido, a estrutura básica que apresentava os heróis de um lado e os vilões de outro. Isso até 1985-86, quando foram publicados "O Cavaleiro das Trevas" (Frank Miller, Klaus Janson e Lynn Varley) e o espetacular "Watchmen" (Alan Moore e David Gibbons).

Depois disso, ficou difícil fazer HQs de super-heróis com a sombra deste colossos. Alguns escritores conseguem - são uma minoria: Kurt Busiek (Astro City), Keith Giffen (algumas fases da Liga da Justiça), Peter David (Hulk, Aquaman), Brian Michael Bendis (Homem-Aranha do universo Millenium, uma fase impressionante do Demolidor), John Byrne (um montão de coisas)... Os outros, a grande maioria, parece ter medo. De quê? Não sei: talvez de serem comparados a Miller ou Moore; ou de descobrirem que estão escrevendo super-heróis para o público adolescente.

Será que é isso? Querem tornar os quadrinhos mais "adultos"? Por isso, hoje, os heróis são tão dúbios em seus valores? Por isso, o maior evento da editora Marvel recentemente ("Guerra Civil") tem como mocinho o Capitão América e como vilão, o Homem de Ferro? Ou será o contrário? O Homem de Ferro é o mocinho e o Capitão América, o bandidão? Para não ficar só na Marvel: por essa razão que a Mulher-Maravilha assassinou, a sangue frio, um vilão na frente do Super-Homem? Para que os leitores percebam que "agora é sério"?

Por isso que o Millar "se soltou" em "Procurado"? Além desse discurso final, a HQ mostra como o menino-transformado-em-vilão descobriu o lado bom de ser mau: estuprar, matar, ferir, roubar... sem jamais sofrer qualquer represália por isso. Duvido que "Wanted", o filme, seja tão radical quanto "Wanted", a HQ.

Não consigo gostar de "Procurado". Acabei de relê-la. Sei que é uma ficção, uma fantasia escapista, que ninguém vai sair de arama em punho e estuprar a primeira vizinha que encontrar pela frente após ter lido "Wanted"... Mas não consigo gostar. Acho bobo. Acho adolescente esse lema "eu sou malvadinho, ninguém manda em mim". Coisa de criança mimada. De "mo-le-que", como diria o Capitão Nascimento.

Não vejo nada errado em histórias em quadrinhos trangressoras, ou em qualquer manifestão de arte que quebre as regras. Mas não vou gostar apenas porque é "revolucionária", "original" ou algo assim. Porque nem sempre é o que gostaria de ser. "Procurado", por trás de toda sua "revolta", não presta inúmeras homenagens ao trio Super-Homem& Batman& Mulher-Maravilha. Mark Millar, na minha opinião, não é um roteirista revolucionário, mas alguém com altos e baixos. "Wanted" é dos baixos: um gibi de super-herói que pretende ser voltado para adultos. Não é com palavrões ou estupros que se consegue isso.

ps - para que eu não fique apenas como um reclamão, três gibis de super-heróis que podem, perfeitamente, serem lidos pelo público adulto: "Astro City" (Kurt Busiek e Brent Eric Anderson); o Quarteto Fantástico de John Byrne; a versão Millenium do Homem-Aranha (Brian Michael Bendis e Mark Bagley); o fase do Demolidor com Brian Michael Bendis e Alex Maleev; o Homem-Animal de Grant Morrison; a Liga da Justiça do trio J.M. DeMatteis, Keith Giffen e Kevin Maguire... OK, eram só três, e citei seis. Me empolguei.

ps2 - a estréia de "Wanted" nos Estados Unidos está prevista para 28 de março de 2008

ps3 - Timur Bekmambetov nasceu em Guryev, União Soviética (hoje Atyrau, Cazaquistão), e dirigiu "Guardiões da Noite". Li pouco sobre o filme, mas achei muito próximo do gênero super-herói, embora não haja ninguém voando com uma capa. É diferente e visualmente lindo.



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Escrito por Brasil Bonilla às 21h39
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