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Angeli comenta Maio de 68 no 'Mais!'

Muito legal a edição de ontem do "Mais!", caderno da Folha, sobre Maio e 1968. E legal também que deram voz a Angeli, criador do divertido Meiaoito, eterno revolucionário teórico, mas nunca prática.

As histórias do Angeli são, normalmente, tão críticas, política ou socialmente, que às vezes parecem charges em quadrinhos - assim como a "Mafalda", do Quino, comentada no post abaixo.

É uma característica dele, que o torna diferente, por exemplo, de seus amigos Glauco (mais escrachado) e Laerte (em sua fase atual, filosófica-metalingüística-surreal).

Abaixo, a última HQ de Meaioto, morto ano ano passado e tema da entrevista:

A simbólica morte de Meiaoito

Folha - E agora ele morreu?
Angeli - Aparentemente morreu. Eu fazia charges para a Folha desde 1975 e, quando passei a fazer tiras, em 1983, criei uma leva de personagens. Ele foi o primeiro. Logo coloquei Nanico como seu companheiro. Um, seco e moralista; outro, que queria soltar as plumas.
Meiaoito foi atropelado por um caminhão da Coca-Cola. Não considero uma morte definitiva, mas me sinto bem deixando-o de lado. Antes da morte, fez uma revisão, conversou com [fantasmas de] Lênin, sua mãe e quase admitiu que era tudo uma fantasia.

De fato, as conversas de Meiaoito com o fantsama de Lênin foram ótimas. Engraçadas e inteligentes, era um verdadeiro questionamento: o que, afinal, aconteceu com a revolução comunista?

A entrevista de Angeli ao "Mais!" está aqui: "Guerrilha dentro do botequim"



Escrito por Brasil Bonilla às 09h14
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Stan Lee: um cara bacana

Hoje estreou aqui no Brasil "Homem de Ferro", adaptação do super-herói para o cinema em filme produzido pela própria Marvel.

Stan Lee, também conhecido como The Man ('o homem')Uma estréia desse tamanho (superprodução, personagem grande, atores famosos etc.) pode servir da base para todo tipo de comentários: retrospectivas do personagem (no caso, o Homem de Ferro), entrevistas com os criadores, revisão de como o gênero super-heróis funciona no cinema etc. Um prato cheio para quem gosta de quadrinhos, como eu.

E uma das coisas mais legais que eu vi na cobertura, até agora, foi uma entrevista com Stan Lee, um dos criadores do Homem de Ferro e mais uma constelação de personagens: "Criador do Homem de Ferro, Stan Lee, de 85 anos, faz jus ao título de 'lenda viva'".

O título, eu sei, é laudatório... Mas é difícil não se encantar diante de Stan Lee. Além de tudo o que fez na carreira, de todos os personagens que criou, Stan é simpático, de bem com a vida, humilde etc.

O Stan Lee já virou até bonequinho!

Um exemplo: trecho da entrevista citada acima:

Pergunta - Você tem 85 anos de idade. Quando chegar sua hora, qual legado você terá deixado para trás?

Stan Lee - Honestamente, eu nunca penso a respeito. Não sei. Gostaria de achar que algumas pessoas leram minhas histórias e as apreciaram. Isso já é suficiente para mim. Mas quando partir para a próxima grande aventura, não será isso que estará na minha mente. Será um momento empolgante descobrir o que acontecerá a seguir. E é nisso que estarei pensando. Já li histórias de ficção científica suficientes, e escrevi o suficiente, para sempre estar de olho que acontecerá amanhã.

Claro, isso é só uma entrevista. Mas, até onde eu sei, ele foi bacana sempre. E deixou uma rica herança cultural, criando os pilares do universo Marvel de super-heróis...

Muito já foi dito sobre Stan Lee... Mas eu ainda não disse o suficiente. Voltarei a ele, neste blog, no futuro.

Excelsior!

ps - continua no post abaixo, "Estou com o Stan Lee: filmes de super-heróis são legais, sim!"



Escrito por Brasil Bonilla às 22h46
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Estou com o Stan Lee: filmes de super-heróis são legais, sim!

Versão para o cinema do Homem de FerroHá uma coisa que notei na entrevista citada no post acima: Stan Lee gosta dos filmes do gênero super-heróis.

Pergunta: Há cerca de uma dúzia de filmes ou séries de televisão baseados no trabalho que fez na Marvel com Jack Kirby, Steve Ditko e outros colaboradores. Quais você considera que capturaram melhor a essência dos personagens, e quais não funcionaram como você esperava?

Stan Lee: Deixe-me ver... eu acho, na captura da essência dos personagens, ninguém se saiu melhor do que "X-Men" (2000) e "Homem-Aranha" (2002).

Acho que o "Quarteto Fantástico" (2005) chegou perto de capturar os personagens. O Dr. Destino (Julian McMahon) ficou um pouco diferente de como era nos quadrinhos, mas eu entendo por que o fizeram daquela forma.

No filme "Hulk" (2003), eu acho que o Hulk (Eric Bana) em si era o Hulk que escrevi. Talvez tenham dado uma ênfase um pouco excessiva no pai dele (Nick Nolte), no relacionamento com o pai, deixando um pouco sombrio demais no início e no fim. Eles o fizeram muito sério e pesado. Mas, no que se refere a capturar a essência do personagem, acho que (o diretor) Ang Lee fez um ótimo trabalho.

Quanto ao filme do "Demolidor" (2003), o problema é que acho que também ficou um pouco sombrio e pesado demais, mas capturou o Demolidor muito bem. Sou uma das pessoas que acha que Ben Affleck fez um bom trabalho interpretando o Demolidor. Ele ficou basicamente da forma como o imaginava.

Achei muito bacana, esse comentário. Filmes de super-heróis são quase sempre bombardeados, tanto  por críticos de cinema quanto por fãs "decepcionados" com a adaptação "pouco fiel".

Às vezes eu acho que espera-se tanto de um filme, mas tanto mesmo, que o filme nunca será o suficiente, por melhor que ele seja.

E um filme, adaptação ou não de HQ, não precisa ser sempre um "Cidadão Kane", até porque "Cidadão Kane" só há um. Se for um filme bom, eu já gosto. Se for ótimo, melhor ainda.

Só não vale coisas como o filme "Sandman - O Mestre dos Sonhos" ou "Mulher-Gato". Tudo tem limite.



Escrito por Brasil Bonilla às 22h42
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Homenagem a Mauricio de Sousa

Este é um blog sobre quadrinhos... O seqüestro do filho e da ex-mulher do Mauricio de Sousa terminou bem, felizmente, e só entra aqui por se tratar de um dos mais importantes quadrinistas do Brasil de todos os tempos (não só do Brasil).

Acho qualquer tipo de seqüestro uma tragédia, uma violência monstruosa.

Deixo aqui uma homenagem à família: uma música composta por Marcio de Souza, irmão do Mauricio, quando do 70° aniversário do quadrinista.


Mauricio costuma contar que criou todos os seus personagens, exceto por dois: Bugu e Louco, ambos criados justamente por Marcio de Sousa.



Escrito por Brasil Bonilla às 22h55
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Dois divertidos momentos de Adão Iturrusgarai

Adão Iturrusgarai é de uma ótima geração de quadrinistas brasileiros de humor escrachado. Bem escrachado, na verdade. Às vezes, caminha no limite do bom gosto, e há quem torça o nariz. Eu gosto: acho que tem altos e baixos, como qualquer ser humano, mas que, na média, é bem engraçado. E vi, hoje, dois trabalhos divertidos deles, uma HQ e um cartum.

A HQ, da série La Vie En Rose, foi publicada na "Folha" de hoje:

A HQ usa um formato não-original, que ele usa há tempos. Mesmo assim é, ao mesmo tempo, engraçado, surpreendente e inteligente.

O cartum foi publicado no blog dele, o Blog do Iturrusgarai: "Se estiver apaixonada por mim nunca diga..." Mostra que o bom humorista perde o respeito próprio, mas não perde a piada (o cartum é autobiográfico):

Se estiver apaixonada por mim nunca diga...

 



Escrito por Brasil Bonilla às 22h38
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O último vôo de Dave Stevens

Neste período em que estive ausente, faleceu, aos 52 anos, o quadrinista norte-americano Dave Stevens (29.jul.1955-10.mar.2008).

Rocketeer, por Dave Stevens Ótimo ilustrador, Dave Stevens produziu, entretanto, poucas HQs. Fez muitos pin-ups e capas, e criou uma série que é uma das minhas prediletas: "The Rocketeer", cujas histórias foram publicadas, em doses homeopáticas, de 1982 a 1995.

Apenas os primeiros capítulos desta série foram publicados no Brasil, no 12º número da coleção "Graphic Novel", da Abril. Naquela época, o mercado de quadrinhos no Brasil era bem pequeno: havia Mauricio de Sousa; Disney; e sete títulos de super-heróis. As revistas mais alternativas, como "Animal" ou "Chiclete com Banana", não eram encontráveis em qualquer banca.

Sair do eixo Disney-Turma da Mônica-super-heróis não era fácil (não que eu não gostasse desse eixo). E a coleção "Graphic Novel", da editora Abril, surgiu como uma publicação trimestral com histórias especiais de super-heróis. Além de não serem necessariamente canônicas (não era necessário ler a revista mensal para entender o que se passava), tinha um tratamento gráfico superior e, uau! (pelo menos para a época): era em tamanho grande. Coisa rara. Era mais cara por isso, mas valia a pena.

Os sete primeiros números trouxeram super-heróis: X-Men, Demolidor, Capitão Mar-Vell, Homem-Aranha, Batman, Homem de Ferro e Batman. Todos ótimos. Na oitava edição, mudou a linha editorial da série: os super-heróis deram lugar a HQs diferentes. Foi assim que, com o oitavo número, tive contato com aquele que seria o maior ídolo nos quadrinhos, Will Eisner.

Depois, a cada mês era uma surpresa. Algumas, confesso, não gostei, como "Void Indigo". Mas o 12º número foi inesquecível: "Rocketeer".

Primeiro, pelas ilustrações. Lindas. Todas as mulheres criadas por Dave Stevens eram apaixonantes; os vilões tinham cara de maus; e o mocinho tinha cara de ser bobo, atrapalhado, bem intencionado, impulsivo, talvez meio burro, às vezes. Humano, acima de tudo.

A história se passava nos inocentes anos 30-40, quando os super-heróis ainda não haviam sido inventados e a inocência e a ficção científica caminhavam de mãos dadas. Nesta época, cabia imaginar que tudo o que um homem precisava para voar era algo tão simples quanto um motor amarrado nas costas.

E esse é o primeiro mote de "Rocketeer": um homem consegue, por acaso, um motor que, amarrado às suas costas, permite que ele voe. O segundo mote: de que adianta conseguir ser fantástico, um homem voador, se não se tem o essencial: a mulher que você ama?

A luta do protagonista Cliff Secord não era só para manter o motor em seu poder, e aprender a usá-la. O que ele queria, mesmo, era o coração da sua linda Betty - linda mesmo: tanto seu nome como seu visual eram homenagens a Betty Page, modelo que fez sucesso justamente nos anos 30 e 40.

Aventura, romance, humor e inocência = Rocketeer.

A HQ virou filme em 1991, dirigido por Joe Johnston. Bill Campbell interpretou Cliff Secord; Jennifer Connelly viveu Betty (que no filme se chamava Jenny); Alan Arkin era Peevy, o melhor amigo de Secord; e o vilão foi vivido pelo ex-Bond, James Bond, Timothy Dalton.

O longa também é divertido e despretensioso, como a HQ. Para mim, tem um sabor especial: foi o primeio filme que assisti sozinho no cinema (em Guarujá, em vez de estar na praia, jogando bola). Abaixo, o trailer:

Me deu uma vontade louca de fuçar sebos atrás do final da saga do Rocketeer...



Escrito por Brasil Bonilla às 22h54
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Angeli: “apenas beliscar a bunda do ser humano para ver se a besta acorda”

História em quadrinhos pode ser escapismo... Mas não necessariamente. É possível criar HQs com um pé na sociedade, sem desperdiçar os personagens e balões em histórias chatas e/ou puramente ideológicas ou as belas imagens que contam sempre a mesma história. E Angeli faz HQs e charges excelentes usando a sociedade como matéria-prima.

Quem ainda não leu uma tirinha do Chiclete com Banana, dê-se esta oportunidade.  Para quem queria, a princípio, “apenas beliscar a bunda do ser humano para ver se a besta acorda”, como escreveu no editorial do primeiro número de “Chiclete com Banana”, Angeli fez muito mais do que isso.

Em alguns de seus personagens, como o machão Bibelô, o pessimista Vodu, o hipocondríaco Hippo-Glós e os parados no tempo Wood & Stock, Angeli mostrou pequenas “espécies” deste reino animal inesgotável que é a humanidade – mais especificamente, deste jardim zoológico tão variado que é o Brasil.

Seus personagens são facilmente identificáveis nas ruas. Quem não tem vê, por aí, tipos como a fogosa Rê Bordosa e o mala-sem-alça do Walter Ego? No fundo, no fundo, o Angeli me parece um crítico social, um “ombudsman da classe urbana”, um desses caras que vai num bar, num restaurante ou num clube, e fica sentado, quieto em um canto, observando quem ele vai poder satirizar nas próximas histórias.

Nas tiras políticas, o sarro fica maior. Não acho que as HQs devam ser totalmente engajadas – assim como não acho que devam ser veículos somente de super-heróis voadores, de cenas de sexo ou de adaptações de livros ou filmes. Longe disso: tem espaço para tudo. E Angeli tem acertado quando atira tanto na cotidiano da sociedade (as tiras e HQs reunidas sob o nome Chiclete com Banana) como na política (com suas charges). “Dar um tapinha na esquerda e outro na direita” política do país, resume Angeli na introdução do livro “FHC - Biografia Não Autorizada”.

As charges de Angeli, publicadas na página 2 da “Folha de S.Paulo”, estão cada vez melhores. Merecem um livro, ou uma antologia. São sintéticas, opinativas, engraçadas. Vão direto ao ponto. Acho até que a “Folha”, vez ou outra, poderia inovar e arranjar mais espaços para Angeli criticar a sociedade, e não apenas aquele espaço fixo na segunda página.

Charges do Angeli: a cobertura política da imprensa brasileira ganha muito com elas.

ps - E não só com elas: o Brasil possui ótimos chargistas... Mas isso fica para um próximo post.
ps2 - Site não oficial do Angeli: http://www2.uol.com.br/angeli/



Escrito por Brasil Bonilla às 23h03
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Oscar Kern morre aos 72 anos

Quando eu era criança, era fã, antes de tudo, dos personagens. Senhor Fantástico, Homem-Aranha, Super-Homem.

Depois, passei a me interessar mais por quem estava por detrás deles: escritores, desenhistas, editores. Pessoas que colocavam as histórias em quadrinhos para funcionar.

E, no último dia 12 de janeiro, morreu em Porto Alegre, aos 72 anos, um homem de grande importância para as HQs nacionais: Oscar Kern.

Fã com vontade e energia para ser mais do que um fã, Kern lançou em 1972 o primeiro número do fanzine "Historieta". Um fanzine, por si só, já é algo valioso. Criado por amor e  dedicado a autores, a personagens ou a uma mídia, caso da criação de Kern, voltada, de muitas maneiras, às histórias em quadrinhos.

"Historieta" tinha de 28 até 128 páginas por edição e trazia matérias, classificados, entrevistas e HQs criadas aqui no Brasil - Watson Portela, Mozart Couto, Emir Ribeiro, Renato Canini e o próprio Kern, que também era roteirista e trabalhou para a Disney Brasil.

Não tive o prazer de conhecê-lo em vida, mas ainda tenho muito a aprender com ele. Pelo o que ele deixou para trás em "Historieta" e em outro grande fanzine de sua autoria, o "Confraria dos Dinossauros". São fanzines que ensinam muito sobre quadrinhos. Mais do que isso: ensinam que a paixão (por quadrinhos, neste caso, mas poderia ser por teatro, um esporte, um país etc.) pode ser usada, com energia, para dar um passo além.

Não sei se algum dia vou conseguir direcionar minha paixão por histórias em quadrinhos como gostaria, mas vejo em Kern um exemplo e tanto.

ps - um dossiê sobre Oscar Kern no excelente Neorama: http://neorama2.blogspot.com/2008/01/adeus-oscar-kern-o-neorama-dos.html
ps2 - um ótimo especial sobre o Historieta, do Universo HQ: http://www.universohq.com/quadrinhos/2007/Historieta.cfm
ps3 - última entrevista concedida por Kern, publicada no Blog do Tex, de Portugal, no dia de sua morte: http://texwiller.blog.com/2522331/
ps4 - Os fanzines, criados sem intenção de lucro, mas apenas para direcionar uma paixão, uma admiração, são, para mim, admiráveis. Ainda pretendo pesquisar e aprender mais sobre os fanzines. Amanhã (terça), a britânica BBC Radio 4 vai exibir um programa especial sobre fanzines apresentado pelo músico e ator escocês David Tennant (que interpreta desde 2005 o protagonista do seriado "Doctor Who") e pelo músico inglês Jarvis Cocker, da banda Pulp. O nome do programa é "Zine Scene". Vou tentar ir atrás; peguei a informação no blog Forbidden Planet International: http://forbiddenplanet.co.uk/blog/?p=6192



Escrito por Brasil Bonilla às 23h40
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Mauricio de Sousa: além de quadrinista, cronista

Não é de hoje que o Mauricio de Sousa é cronista. Já lançou dois livros, aliás: "Navegando nas Letras" (editora Globo, 1999) e "Navegando nas Letras II" (editora Globo, 2000). Tenho ambos.

As crônicas estão disponíveis em seu site, http://www.monica.com.br/mauricio-site/. A que eu coloco abaixo é a que mais gosto, e é a nona das quase 300 já publicadas. Fala de amizade, um tema que prezo muito - não só eu como ele, tenho certeza.

"Sem dinheiro... no hotel mais caro do mundo"

Era tempo de festival de História em Quadrinhos em Lucca, na Itália. O mais importante do mundo e que reunia, a cada ano, os mais importantes desenhistas de cada país. O ano: 1971.

Para mim um festival memorável: voltei para o Brasil com dois prêmios: o gran Guinigi e o Yellow Kid (este último considerado o Oscar das HQ).

E lá estávamos nós, os desenhistas, reunidos para palestras, convenções, premiações e principalmente (naquela região da Toscana) para almoços e jantares monumentais, regados a vinho generoso. Mas a coisa não terminava aí. A Europa nos convidava para esticadas aos países mais próximos após a mostra. E eu aceitei a sugestão do meu colega Hugo Pratt (Corto Maltese) para visitá-lo em Veneza, onde ele tinha uma de suas casas.

Antes, como o clima do Festival estava uma beleza, antevia a premiação e tinha um tempinho para essa fugidinha para Veneza, liguei para o Brasil e convidei minha então esposa Vera Lucia, para "voar" para Lucca, a fim de ainda pegar o Festival pelo meio e depois irmos, juntos, para Veneza numa lua de mel tardia. Vera conseguiu chegar rapidinho, participou das festividades de premiação e arrumamos as malas para a esticada veneziana.

Só havia um problema naquele tempo: eu tinha o dinheiro contado para os poucos dias que vinham pela frente. Não podiamos nem pensar em errar na escolha de um mero restaurante. Tínhamos que economizar, mesmo!

Mas o outono era uma festa, o clima de lua de mel também.

Dinheiro era o menos importante... desde que tomássemos cuidado.

Chegamos a Veneza, por trem. Hugo nos esperava, com aquele seu corpanzil, sorriso simpático e jeitão todo diferente de falar.

Misturando italiano com português e espanhol para que Vera o compreendesse. Chamou uma lancha-táxi e disse que tinha reservado para nós um hotelzinho simpático e barato. Eu já havia lhe contado, em Lucca, do nosso problema de caixa. Ele nos acalmou, enquanto singrávamos pelos canais, abobados pelo espetáculo. Hugo dizia, enquanto admirávamos a cidade, que Veneza fôra feita para lua de mel. E a lancha embicou numa viela-canal ao lado de velhos prédios, próximo da Piazza San Marco.

Uma portinha quase despercebida surgiu rente à água, num paredão lateral de uma velhíssima construção. Hugo disse que era ali. Fez-nos descer da lancha num pequeno embarcadouro e nos encaminhou à entrada. Antes que pudéssemos falar mais coisas subiu na lancha e sumiu.

Tomamos o corredorzinho meio escuro e fomos em busca da recepção. A julgar pelo corredor velho e escuro, já estava até imaginando que o Hugo Pratt nos indicara um hotel inferior ao que eu pedira.

Mas a dúvida se desvaneceu quando deparamos com um enorme salão renascentista, coalhado de quadros e tapetes maravilhosos. A decoração era, no gênero, o que eu vira de mais sofisticado e magnificente. Era de cair o queixo. Vera e eu achamos que o Hugo se enganara ou estávamos no meio de um museu no caminho do tal hotelzinho. Mas tudo era muito estranho. Até encontrarmos, atrás de uma coluna, a recepção. Onde nos informaram da reserva feita em meu nome. Preenchemos as fichas e subimos para uma suite de cobertura que dava para o grande canal. Uma beleza de vista. Linda. E provavelmente muito cara. Vera estava encantada. E preocupada, como eu.

Como é que íamos pagar tudo aquilo?

Telefonei para o Hugo. E ele, às gargalhadas, disse que tinha planejado tudo aquilo, sim, porque achava que uma lua de mel merecia o melhor e mais caro hotel do mundo: o Danieli Excelsior.

E que eu economizasse no resto da viagem. Mas não nos três dias de Veneza.

Aceitei o argumento. Já que estávamos ali, o melhor era aproveitarmos.

O que fizemos.

Nos dias restantes, na volta via Paris tivemos que experimentar almoços e jantares de sanduíches e vinhos mais baratos. Mas sabe que também foi delicioso? Pudera: pão e salame franceses e mais vinho Boujolais, que era mais barato que água. O que mais queríamos para terminar a lua de mel temporã?

Mas todas essas aventuras tiveram um significado especial dentre as minhas lembranças de vida: uma semana depois de nossa chegada ao Brasil, Vera morreu num acidente de carro.



Escrito por Brasil Bonilla às 21h14
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