Calha

Conceitos



Dois desenhos, duas polêmicas

Ilustração Simple Living, de Nadia PlesnerLi na Folha que a poderosa Louis Vitton (a marca de luxo mais poderosa do mundo, segundo a "Forbes") está processando a artista dinamarquesa Nadia Plesner (http://www.nadiaplesner.com/), de 26 anos, por vender camisetas com a imagem (ao lado) de uma criança sudanesa desnutrida e nua que aparece com um cachorrinho igual ao da Paris Hilton e com uma bolsa da Louis Vitton.

Explica Nadia em seu site: "As I was reading the book "Not on our watch” by Don Cheadle and John Prendergast last summer, I felt horrified by the fact that even with the genocide and other ongoing atrocities in Darfur, Paris Hilton was the one getting all the attention. Is it possible that show business have outruled common sense?"

Livremente traduzindo: "Eu estava lendo o livro 'Not on Our Watch', de Don Cheadle e John Prendergast, no verão passado, e me senti horrorizada pelo fato de que mesmo com o genocídio e outras atrocidades contínuas em Darfur, Paris Hilton continuava adquirindo toda a atenção. É possível que o bom senso do show business tenha desgovernado completamente?"

Ela diz que todo o dinheiro arrecadado com a venda da camiseta vai para a ONG Divest for Darfur (http://www.savedarfur.org/page/content/index/) e recomenda este site: http://www.savedarfur.org/content?splash=yes.

Enquanto isso, no Brasil, o Blog do Josias (http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/) reproduziu uma charge do meu amigo pessoal Lovatto (http://blogdolovatto.zip.net/) levantando uma polêmica: teria sido o chargista preconceituoso?

Charge de Lovatto

Em minha opinião, não. Ele fez uma crítica social, como tantos outros chargistas fazem - Glauco, irmãos Caruso, Lailson, Dálcio Machado, Jean, tantos outros.

Como escreveu Angli no editorial da primeira edição da revista "Chiclete com Banana", no distante outubro de 1985: "Queremos com esse gibi - ou seria revista? - apenas beliscar a bunda do ser humano para ver se a besta acorda."

Mais de duas décadas depois, ainda há gente que acha a Paris Hilton mais importante que Darfur, ou que a pobreza no Brasil deve ser escondida, não denunciada. Enquanto ainda existirem pessoas assim, será importante que Nadia Plesner, Lovatto, Angeli e os demais continuem seu trabalho.



Escrito por Brasil Bonilla às 10h25
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O segredo da boa charge está na profundidade?

O nipo-norte-americano Michael Ramirez, nascido em Tóquio, foi premiado neste ano (pela segunda vez, aliás; a primeira foi em 1994) com o Prêmio Pulitzer. O cara, para usar um bom eufemismo, tem seus méritos. E concedeu uma entrevista ao G1, falando desta arte tão próxima dos quadrinhos que é a charge.

'Ela enfrentou perseguições e ameaças de morte para não votar; qual a sua desculpa?' - questiona a charge a um povo ao qual votar não é obrigatório

Um comentário: na matéria, eles chamam de "cartunismo político"; é tradução literal do inglês, em que "cartoon" é usado tanto para cartum como para charge. No Brasil, se há um contexto por trás da piada (esportivo ou político, por exemplo) é charge, e não cartum. Por isso "cartunismo político" soa estranho: se é político não é cartum, mas charge.

Trechos da entrevista:

- "Todo ano é um grande ano para o cartunismo. O comportamento dos políticos ajuda a fazer o trabalho para você."

- "Acredito que, hoje, infelizmente, os cartuns políticos estão seguindo uma tendência de migrar para o campo do entretenimento."

- "O ponto é que, se você quer produzir um impacto profundo no debate político em seu país, você precisa estimular as pessoas a olhar e a pensar."

- (sobre o polêmico cartum sobre Maomé) "Eu acho que há limites de bom gosto. Você nao quer ofender as pessoas à toa. Eu não faço cartuns controversos só pela controvérsia. Como não faço cartuns de humor pelo humor. Você tem de ter um motivo. Acho que a reação dos muçulmanos é errada ao tentar limitar o discurso das pessoas, que deveriam ter o direito de poder tirar suas próprias conclusões. Penso que, se alguém desenha algo ofensivo, isso terá um mau reflexo no seu trabalho. Quando faço cartum político, sou muito consciente das sensibilidades em jogo e tento evitar que um elemento daquele cartum seja puramente ofensivo. Se você faz isso, eles vão focar apenas naquele elemento em vez da charge como um todo."

- "Uma coisa importante sobre a charge política hoje é que se tratam de trabalhos que lidam com temas complexos. E, como chargistas, temos de entender a profundidade do tema nós mesmos. Temos de conhecer o assunto bem o suficiente para defendermos o nosso ponto de vista. Não há nenhuma charge que eu tenha desenhado até hoje que eu não consiga defender."

Gostei do comentário sobre a profundidade. Será que é aí que está o segredo de uma boa charge?

Para ler a entrevista inteira, clique aqui.



Escrito por Brasil Bonilla às 00h38
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Da 'Der Spiegel': autor da caricatura de Maomé defende islamismo light

O UOL Mídia Global publicou nesta semana uma matéria ótima da "Der Spiegel", ainda sobre a polêmica da charge de Maomé publicada por um jornal dinamarquês. Trata-se de uma entrevista com Kurt Westergaard, o autor do desenho.

O mote, agora, é que filme anti-islamismo feito pelo político holandês de direita Geert Wilders começa com a polêmica charge de Westergaard, em que Maomé é retratado com uma bomba-relógio no turbante.

O artista não gostou e pediu que a caricatura fosse retirada do filme.

"Não quero vê-la fora do seu contexto original. Aquele desenho tinha como alvo os terroristas islamitas fanáticos - uma pequena parte do islamismo. A caricatura não pode ser usada contra os muçulmanos como um todo. Não foi essa a minha intenção", explica Westergaard.

Trecho da matéria:

"Spiegel Online - Você às vezes se arrepende de ter feito a caricatura?
Westergaard - Não. Se não fosse a caricatura, outra coisa teria provocado os protestos: um livro, uma peça teatral ou um filme. Creio que temos que passar por este período de fricção entre as duas culturas. Espero que os nossos cidadãos dinamarqueses muçulmanos entendam o que significa viver em uma democracia. Mesmo que você seja contrário à democracia, dá para viver nela, mas tem que lutar por meios pacíficos. Na Dinamarca, temos um ditado: A democracia vai para a cama com os inimigos dela - não por desejo, mas por uma questão de princípios.
"

A entrevista completa está neste link: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2008/04/03/ult2682u742.jhtm



Escrito por Brasil Bonilla às 00h08
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Globalização: mangá alemão coloca super-herói contra islâmicos radicais

AndiGlobalização é isso aí: uma agência de segurança alemã está usando os super-heróis (originários dos comics norte-americanos) em estilo mangá (...asiático...) para comabter o radicalismo islâmico (leia-se Al Qaeda), a xenofobia e o racismo, segundo nota do UOL Diversão e Arte.

Segundo a nota, o resumo da HQ, chamada "Andi", é o seguinte: "O adolescente Andi surgiu em 2004 no Estado alemão Renânia do Norte-Vestfália, com a missão de combater o extremismo de direita. Em outubro, ele apareceu em uma nova aventura, ao lado de sua namorada muçulmana, Ayshe, e do irmão dela, Murat, que cai na conversa de um amigo radical e de um 'pregador do ódio'."

Não li a HQ... ainda. Mas, para mim, qualquer forma de combate ao racismo, ao preconceito e à intolerância vale a pena.

ps - o oposto da combinação acima (quadrinhos, bom senso e tolerância) é o impressionante caso da charge dinamarquesa contra Maomé.



Escrito por Brasil Bonilla às 20h23
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A charge, os dinamarqueses e o profeta

Em setembro de 2005, o jornal dinamarquês "Jyllands-Posten" publicou charges em que apareciam o profeta Maomé. Líderes muçulmanos, sentindo-se insultados, iniciaram uma onda de protestos, cada vez mais violentos. Treze manifestantes mortos no Afeganistão, na Líbia e na Somália e os artistas dinamarqueses foram condenados à pena máxima por radicais do Paquistão.

Ou seja: foi criada uma crise internacional, violenta, em um caso que envolve liberdade de expressão, censura, preconceito, blasfêmia... Tudo por causa de uma charge? Ou a charge em questão não é o elemento central, mas apenas o veículo da questão: a intolerância entre ocidentais e islâmicos e vice-versa. Não que seja regra: acredito, na verdade, que os intolerantes são exceção, mas uma exceção violenta. No Brasil, a "Folha" e "O Globo" republicaram as charges mais polêmicas; o "Estado de S.Paulo", não.

Volto ao tema porque a BBC Brasil publicou na madrugada de hoje que "uma mensagem de áudio atribuída ao líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, divulgada nesta quarta-feira, adverte os governos da União Européia para uma reação forte contra a republicação de uma charge que mostra o profeta Maomé".

Diz a nota da BBC Brasil: "A polêmica charge mostra o profeta Maomé, figura central do islamismo, com uma bomba em seu turbante. Esta e outras caricaturas com a imagem de Maomé foram publicadas pela primeira vez em 2005, pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten e, posteriormente, por diversos veículos. A publicação das charges, consideradas ofensivas pelos muçulmanos, provocou protestos violentos de comunidades muçulmanas em vários países que deixaram dezenas de mortos. A tradição islâmica proíbe a divulgação de desenhos ou imagens de Maomé.

Há um mês, jornais dinamarqueses republicaram a charge, depois da prisão de três pessoas supostamente envolvidas em um plano para assassinar o cartunista responsável pela obra. A republicação provocou uma nova onda de protestos. A mensagem divulgada pelo site islâmico nesta quarta-feira traz uma imagem congelada de Bin Laden portando um fuzil AK-47. Traz também a tradução da mensagem em inglês."

O "The New York Times" também publicou uma matéria hoje sobre o tema. Diz a reportagem que o artista ainda corre perigo de vida: "No mês passado a polícia dinamarquesa prendeu dois tunisianos e um dinamarquês descendente de marroquinos sob a acusação de que pretendiam matar Westergaard, um dos 12 cartunistas cujas caricaturas de Maomé no jornal dinamarquês "Jyllands-Posten" geraram protestos, alguns deles violentos, por parte de muçulmanos de todo o mundo em 2006, e fizeram com que fossem oferecidas recompensas pelas cabeças de Westergaard e do seu editor, Flemming Rose. Desde então Westergaard (ele desenhou Maomé com uma bomba no turbante) vive escondido."

Na matéria do "The New York Times", o editor Flemming Rose diz que cometeu blasfêmia, mas não racismo: "Não se tratou de zombar de uma minoria, mas sim de uma figura religiosa, o profeta muçulmano, de forma que a coisa diz respeito a blasfêmia, e não a racismo", argumenta Rose. "A idéia de desafiar a autoridade religiosa conduziu à democracia liberal, enquanto que o ataque a minorias, enquanto minorias, levou ao nazismo e à perseguição da burguesia na Rússia. Assim, esta distinção é essencial para que se entenda o problema".

Kurt Westergaard, o artista, também está mais preocupado em mostrar que não foi racista: "A discordância é parte essencial da democracia", diz ele. "Quero explicar a minha percepção desse embate entre duas culturas porque tenho netos que crescerão nesta sociedade multicultural. Os dinamarqueses são um povo tolerante. Eles não merecem ser tratados como racistas".

Eu poderia dar aqui o link para as polêmicas charges e ilustrações, mas não vou. Acho que a liberdade de expressão não anula a responsabilidade editorial. Das entrevistas que eu li a respeito do caso, quem me pareceu mais ponderado foi, além do então ombudsman da "Folha", Marcelo Beraba, o quadrinista kuaitiano Naif Al-Mutawa, criador de HQs estreladas por super-heróis muçulmanos.

Disse Al-Mutawa, em entrevista à "Folha": "O que eu vi até agora foi uma discussão entre dois grupos fundamentalistas: o da liberdade de imprensa e o dos extremistas muçulmanos. A imprensa européia, defendendo seu direito divino de publicar o que quer que seja, diz que é assim que as coisas são e que os religiosos é que têm de mudar de opinião. Qual é a diferença entre a intransigência dessa posição e a dos fundamentalistas muçulmanos? Os dois grupos acham que estão certos. Acho que a publicação dos cartuns foi desrespeitosa e que a reação dos muçulmanos, queimando embaixadas, também foi."

É uma questão polêmica, que não tem resposta fácil. Eu acredito em respeito. E acredito (e repeito) em opiniões contrárias. Abaixo, links para mais matérias ou artigos sobre o tema:

* BBC Brasil: "'Bin Laden' ameaça UE por charge do profeta Maomé" (20.mar.2008, BBC Brasil)

* "The New York Times": "Indignação com caricaturas de Maomé continua a perturbar a Dinamarca" (20.mar.2008, UOL Mídia Global)

* Marcelo Beraba: "O clamor por tolerância" (12.fev.2006, "Folha de S.Paulo")

* "Poderes de Alá - Naif Al-Mutawa, escritor do Kuait, cria super-heróis muçulmanos -entre eles, um brasileiro- baseados nas virtudes do Deus da religião islâmica" (9.fev.2006, "Folha de S.Paulo")



Escrito por Brasil Bonilla às 21h24
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Dois exemplos da influência oriental: animê do Batman e Disney em mangá

Falei um pouco (só um pouco) de mangá nos últimos posts. E, por coincidência, foram divulgadas nesta semana dois exemplos da grande influência oriental nos quadrinhos norte-americanos: o animê (desenho animado no estilo oriental) do Batman e a versão em mangá da Disney.

Imagem do site da Disney MangáA mais surpreendente, para mim, é a versão mangá da Disney, noticiada pelo Universo HQ. Embora as história de Donald e companhia não sejam criadas unicamente em único país - há estúdios autorizados a criar histórias dos personagens Disney em alguns lugares do mundo, inclusive no Brasil - eles seguem uma padronização, um jeito bem típico. Não acho que vá ficar ruim, de modo algum. Só estou curisoso.

O site oficial da Disney Manga: http://www.disney.it/publishing/disneymanga (é uma criação da Disney Itália).

Segundo o Omelete, a DC está preparando "Gotham Kinght", um DVD com seis animês do Batman. A idéia é permitir novas intrepretações do personagem, mas de um outro ponto de vista artístico. Abaixo, um preview de dez minutos de "Gotham Kinght", com pessoas ligadas ao projeto explicando por que escolheram o estilo animê e o que é o projeto:


O Batman irá enfrentar três inimigos diferentes (a definição entre parênteses é dos próprios criadores do projeto, retirada do vídeo acima):  Crocodilo (lenda urbana contra lenda urbana), Espantalho (diferentemente dos outros inimigos do Batman, que o atacam fisicamente, este o agride de dentro para fora) e Pistoleiro (a antítese de Bruce Wayne, um playboy que mata por prazer e por dinheiro). Eu, particularmente, gosto muito do Pistoleiro, retratado como um verdadeiro anti-herói por John Ostrander na série "Esquadrão Suicida".



Escrito por Brasil Bonilla às 09h16
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The New York Times e o preconceito contra os mangás

No post de ontem, eu perguntei: nós realmente compreendemos os mangás? Afinal, é um mundo imenso, do qual temos pouco acesso. E há uma história de 2002 (ou seja, em pleno século 21) que mostra um misto de preconceito e falta de informação de um dos maiores jornais do mundo (o "The New York Times") e os mangás.

Em 2002, o "The New York Times" afirmou em uma matéria que o Japão tinha baixos níveis de alfabetização porque os japoneses liam mangás demais. Quando soube disso (a fonte é o livro "Mangá - Como o Japão Reinventou os Quadrinhos", de Paul Gravett), não acreditei. No fundo, não é só um preconceito contra mangás (como se fosse pouco), mas contra as histórias em quadrinhos como um todo. É dizer que ler HQs contribui para o analfabetismo e a falta de cultura.

Enfim, fui atrás do tal artigo para ver se era verdade. Sim, era: "Tokyo Journal; A Wizard of Animation Has Japan Under His Spell" é o título do texto, publicado em 3 de janeiro de 2002. É um artigo sobre a ótima animação "A Viagem de Chihiro" (Sen to Chihiro no Kamikakushi) , dirigido por Hayao Miyazaki.

Pausa para trailer de "A Viagem de Chihiro":

 

A certo momento, o artigo diz: "Comic books account for 60 percent of printed publications in Japan, a reflection of low literacy rates due to the difficulty of learning Japanese characters." Traduzindo livremente: "As histórias em quadrinhos respondem por 60% das publicações impressas no Japão, um reflexo das baixas taxas de alfabetização devido à dificuldade de aprender ideogramas japoneses."

Ou, tentando entender mais: os japoneses só lêem HQs porque não conseguem aprender sua língua escrita. Se conseguissem, não precisariam dos desenhos acompanhando. Preconceito com os quadrinhos, os mangás e, acima de tudo, com os japoneses.

O "The New York Times" retratou-se no dia 10 de janeiro: "An article on Jan. 3 about the Japanese success of the movie 'Sen to Chiriro', by the celebrated animator Hayao Miyazaki, misstated its relationship to the country's literacy rate. Japan has nearly complete literacy, not a low rate." Em tradução livre: "Um artigo do dia 3 de janeiro sobre o sucesso japonês do filme "A Viagem de Chihiro", do célebre animador Hayao Miyazaki, relatou falsamente sua relação à taxa de alfabetização do país. O Japão tem alfabetização quase completa, não uma taxa baixa."

Minha opinião: que barrigada (jargão jornalístico para grande erro)! Outra opinião: "A Viagem de Chihiro" é uma ótima animação, vale a pena.



Escrito por Brasil Bonilla às 17h34
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Nós realmente compreendemos os mangás?

O escritor, jornalista e professor Arnaldo Niskier escreveu nesta semana um artigo bem interessante na Folha de S.Paulo: "Mangá e a transplantação de cultura".

Astro boy, de Osamu Tezuka"No imenso aeroporto de Tóquio, a espera é angustiante. Você entra e sai das mesmas lojas diversas vezes. Enquanto não reabre o aeroporto de Nova York, fechado por uma nevasca, não há como deixar a base em que nos encontramos. Na poltrona da sala VIP, refestelada, uma criança japonesa está inteiramente envolvida pela leitura de uma história em quadrinhos. Aliás, várias histórias e diversas revistas. Todas de mangá, a coqueluche do público infanto-juvenil.
A moda ganhou mundo, com a publicação se expandindo para outras praças. Houve o reforço dos desenhos animados (anime) que chegaram às telas brasileiras, povoadas de heróis.

O estilo mangá tanto pode ser visto em boas lojas da capital japonesa quanto nas embalagens de produtos brasileiros de perfumaria. Os jovens que constituem a maioria dos interessados na novidade desfilam sobretudo para serem vistos, adorando fotos.

Estamos, pois, no olho de um furacão chamado mangá, sinônimo, para a juventude, de tempos de mudança. O Japão tornou-se uma grande fonte de consumo, com a reação esperada da sua economia, depois de anos de dificuldades, e hoje as lojas, como vimos, estão cheias de clientes ansiosos por novidades. As mulheres gostam do consumo e os homens não ficam muito atrás. Vestem-se com elegância, não raro com o lenço saliente no bolso do paletó, cabelos gomalinados, como se estivessem vivendo de fato uma nova realidade."

Ele fala mais, e aborda a influência do mangá na cultura brasileira. Mas fico pensando uma coisa: nós realmente entendemos os mangás? Li recentemente um livro ótimo sobre o tema: "Mangá - Como o Japão Reinventou os Quadrinhos". Depois de lê-lo, me soa até meio simplista dizer que mangá são os quadrinhos japoneses. Esta definição está certa, mas é simples perante o universo dos mangás.

Gravett apresenta, no seu livro, dois fatores essenciais na formação do mangá. O primeiro foi a influência dos quadrinhos norte-americanos, que entraram no país com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Eram HQs coloridas, alegres e baratas, que tiveram grande aceitação entre as crianças japonesas do pós-guerra.

O sucesso dos quadrinhos feitos nos Estados Unidos tornou-se um estímulo para a produção local. Os leitores consumiam cada vez mais, e as editoras passaram a ser lançar revistas dos mais diversos gêneros e com um número de
páginas cada vez maior. Hoje, cada edição pode ter 200, 400 ou mais de mil páginas. Apesar do tamanho, o preço do mangá tradicional não é um problema: eles são baratos o suficiente para que o leitor compre um por dia e o jogue fora, e não há nada de anormal nisso.

O segundo fator foi, na verdade, uma pessoa: Osamu Tezuka (1928-1989), que em seus mais de 40 anos de carreira influenciou não este ou aquele gênero de mangá, mas todo o estilo japonês de criar quadrinhos. Ele escreveu e desenhou 150 mil páginas (!!) de quadrinhos, distribuídos em 600 (!!) titulos de mangás e 60 trabalhos de animação. Abaixo, um exemplo de animação de Tezuka, "Jumping":


Entre as obras em quadrinhos de Tezuka, estão "Astro Boy", "Adolf" (recentemente lançada no Brasil como uma série em cinco volumes) e "Buda".E o que mais me espanta é a variedade de gêneros. Está errado dizer, como Niskier o fez, que mangá é a "coqueluche do público infanto-juvenil"? Não, mas não é só isso.

Em 2002, segundo levantamento apontado por Gravett, foram publicados 281 títulos de mangás, sendo só 21 para meninos e 43 para meninas - o público infanto-juvenil, somado, fica com 47,2%. Há ainda 54 mangás masculinos, 59 femininos e 104 outros. Ou seja: é muito mais do que a maioria que nós, ocidentais, supomos.

Entre os para meninos, estão "Slam Dunk", série de basquete que está sendo publicada no Brasil; "Tsurikichi Sanpei", sobre pescaria; "Joe do Amanhã", sobre boxe; a comédia nonsense "Tensai Bakabon"; os de ficção científica; e o semi-autobiográfico "Gen Pés Descalços", sobre os sobreviventes das bombas de Hiroshima e Nagasaki.

Para meninas, há "Genji Monogatari"; "Lady Victoria", que se passa na Inglaterra do século 19; "Sailor Moon", famosa no Ocidente; e o seminal "Princesa Cavaleiro", criado por Tezuka.

Entre os mais maduros (não necessariamente eróticos) estão "Ghost in the Shell"; a ficção "Akira", que se transformou em um longa-metragem fantástico de animação; e o épico "Lobo Solitário", publicado na íntegra no Brasil pela editora Conrad (palmas para ela!). Para as moças mais maduras: "Between the Sheets", "Feel Young" ou "Happy Mania" (assim mesmo, em inglês).

Há ainda outros gêneros, mas OK, podemos parar os exemplos por aqui. Meu ponto é: o que chega até nós é uma parcela muito pequena. Será que realmente compreendemos os mangás?

ps - mais sobre mangá no post abaixo: Uma faculdade de mangás e o novo DVD de 'Akira'



Escrito por Brasil Bonilla às 21h02
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Uma faculdade de mangás e o novo DVD de 'Akira'

Mais duas notícias relacionadas a mangás nesta semana, além do artigo citado no post acima. O Made in Japan publicou fotos bacanas de uma faculdade para formar mangakas (artistas de mangás) no Japão: clique aqui.

E o Omelete publicou que o DVD da fantástica animação "Akira" ganhará duas novas versões em DVD no Brasil. Citando a matéria original: "A edição de colecionador virá em uma lata com as duas versões do filme - a original de 1988 e a widescreen remasterizada com dublagem original - mais pôster e dois cards. Já a opção simples traz só a versão wide remasterizada. Preços sugeridos: R$ 34,90 (simples) e R$ 49,90 (colecionador). O lançamento, comemorando os 20 anos do longa, está marcado para 23 de abril."

Abaixo, só para dar um gostinho, o trailer de "Akira", dirigido pelo autor dos mangás, Katsuhiro Otomo:



Escrito por Brasil Bonilla às 21h00
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Censura nos quadrinhos: o John Constantine de Warren Ellis

Depois de falar na censura aos desenhos de Frank Cho e ao roteiro do Monstro do Pântano de Rick Veitch, agora é a vez de... Constantinte, John Constantine, escrito por Warren Ellis.

A capa da edição não-publicada de Hellblazer 141John Constantine (não confunda com o filme estrelado por Keanu Reeves, por favor: é o mesmo personagem, mas muito diferente) é uma espécie de um mágico amoral e egoísta que foi criada por Alan Moore como um coadjuvante para o Monstro do Pântano. O personagem cresceu e ganhou uma revista própria (batizada "Hellblazer"), que vigora até hoje (está no número 241), enquanto a do Monstro do Pântano foi cancelada quatro vezes (primeira série: 24 números; segunda série, que teve Alan Moore reinventando o personagem: 171 números; terceira série: 20 números; quarta série: 29 números; total: 244 números). Se não surgir uma nova série do Monstro do Pântano até junho, e a de Constantine não for cancelada, o "coadjuvante" irá superar o personagem principal.

Mas não é este o caso de hoje. O caso é que, em 1999, a edição 141 de "Hellblazer" traria uma história chamada "Shoot.", escrita por Warren Ellis e ilustrada pelo excelente Phil Jimenez. Neste número, Constantine (que é britânico) iria aos Estados Unidos investigar a série de assassinatos realizados em escolas norte-americanas em que crianças assassinam outras crianças. Tema pesado, de fato. Mas Constantine, assim como o Monstro do Pântano, pertence à Vertigo, o selo da editora DC Comics cujas histórias são voltadas ao público adulto.

A capa da edição publicada de Hellblazer 141Entretanto, com a história já escrita e desenhada, houve o Masscre em Columbine (20 de abril de 1999), quando dois alunos mataram 12 estudantes e um professor e feriram mais 23 pessoas, antes de cometerem suicídio. Uma tragédia. Mais sobre ela pode ser visto no polêmico filme "Tiros em Columbine", do diretor Michael Moore (eu recomendo).

As HQs são preparadas com muita antecedência. O número 141 de "Hellblazer" estava previsto para setembro daquele ano. A DC optou por não publicar a história e publicou a edição com um mês de atraso, em outubro, com uma história diferente. O roteirista, Warren Ellis, deixou o título, mas não a editora.

A história censurada, "Shoot.", virou artigo de colecionador. E, de fato, é ótima. Publico neste post a capa da edição não publicada e a capa publicada, ambas de Tim Bradstreet.

Para quem quiser ler a história inteira, recomendo este link: http://www.compsoc.man.ac.uk/~jp/comics/shoot/index.html. O internauta que a postou, entretanto, avisa: "Não tenho advogados, portanto se a DC quiser que eu remova (a história), tudo o que eles têm a fazer é pedir".



Escrito por Brasil Bonilla às 12h29
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Censura nos quadrinhos: o Monstro do Pântano de Rick Veitch

Frank Cho desenha mulheres sensuais e é censurado. Censurado, pero no mucho: faz um retoque aqui, outro ali, e o desenho é publicado. Mas há casos de HQs censuradas por causa do roteiro, ou do tema. Um dos exemplos interessantes é o Monstro do Pântano de Rick Veitch.

A capa censurada de Swamp Thing nº 88O Monstro do Pântano era um monstro (ah, vá) usando em histórias de terror. Foi criado em 1971 por Len Wein (roteiro) e Berni Wrightson (arte). Nunca foi muito famoso... Até chamarem um escritor britânico que começava a fazer sucesso, especialmente com a série Miracleman: Alan Moore.

Moore pegou a série em janeiro de 1984 (Saga of the Swamp Thing nº 20) e a escreveu até setembro de 1987 (número 64). O que ele fez com a revista não foi pouco: foi fantástico. É difícil resumir aqui já que o foco é outro, mas merece outros posts no futuro. Enfim, ele transformou um monstro feio em um ser "elemental", uma criatura gerada pelo planeta Terra para defendê-la. As histórias assumiram um tom de horror, fantasia e ecologia, sem nunca deixar de lado que se passa em um universo habitado por super-heróis.

Enfim, Moore deixou a revista. Em seu lugar assumiu o desenhista Rick Veitch, que passou a escrever e ilustrar o Monstro do Pântano. E ele seguiu os conceitos deixados por Moore: o Monstro do Pântano era, antes de tudo, um elemental que habitava um universo de super-heróis.

No número 80, o Monstro do Pântano foi enviado ao passado. Ele passaria as edições seguintes tentando voltar ao presente. O problema todo envolve a edição 88: o Monstro do Pântano contracenaria com Jesus Cristo. A DC Comics já havia aprovado o roteiro, mas algo aconteceu e a história foi cancelada no meio - o  desenhista Michael Zulli já havia desenhado parte dela.

A capa publicada de Swamp Thing nº 88Muitos boatos envolvem esta não-publicação. Um deles diz que a DC achou a capa (acima) forte demais. Outro boato diz que a controvérsia gerada pelo filme "A Última Tentação de Cristo", de Martin Scorcese, fez com que a editora recuasse. O filme foi lançado em 1988 - a HQ seria lançada em julho de 1989.

O fato é que Rick Veitch pediu demissão. Neil Gaiman e Jamie Delano, convidados a subsitui-lo, não aceitaram. Doug Wheeler, nem de longe tão conhecido quanto os dois, aceitou a tarefa, e "Swamp Thing" nº 88 foi publicada em setembro, com dois meses de atraso.

Rick Veitch criou, depois deste episódio, a minissérie "Brat Pack", lançada no Brasil no final do ano passado. Nesta série ele ataca, diretamente, a DC Comics e seus principais personagens: Superman, Batman, Robin, Mulher-Maravilha, Arqueiro Verde, Liga da Justiça, apenas recriando-os com outros nomes. Mas não há o que esconder, são eles mesmos. "Brat Pack" também é bem controverso e merece um post com mais calma no futuro.

Quanto à censura imposta pela DC... Fico curioso. Gostaria de ter visto a história. Não acredito que seja ofensiva a Jesus Cristo. Será que esta imagem postada aqui, que seria a capa, foi de fato considerada forte demais? Eu não acho. Será que sou insensível ou foi mesmo rigor demais da DC?



Escrito por Brasil Bonilla às 21h11
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Frank Cho e seus desenhos censurados

Shanna, por Frank ChoFrank Cho, do alternativo Liberty Meadows, é um ótimo desenhista. Escreve bem, especialmente comédia. E ele também trabalha com super-heróis. Afinal, é um ótimo desenhista, acima da média.

Li esta semana no Omelete que Frank Cho enfrentou sua terceira censura na Marvel. A primeira foi em 2004, quando ele fazia a minissérie da Shanna, em que a personagem principal apareceria pelada. A editora, de última hora, mandou que ele "cobrisse" onde ela estivesse "descoberta" demais. Essa minissérie saiu aqui no Brasil, nos primórdios da revista "Marvel Max". Divertida. Mas certamente não teria recebido tanta atenção não fosse este episódio.

Homem-Aranha e Mary Jane, por Frank ChoA segunda foi ano passado, quando Cho fez uma das capas da centésima edição de "Ultimate Spider-Man" (do Homem-Aranha). Na capa original, o Homem-Aranha, de uniforme, aponta para sua mulher, Mary Jane Watson Parker, entrando seminua no banho e diz para o público: "Eu posso ser um perdedor, mas eu que fico com a supermodelo no final". Mary Jane responde: "Com quem você está falando, Peter?".

A edição teve cem capas, e a desenhada por Cho foi publicada normalmente. No entanto, no livro que a editora Marvel lançou compilando as cem capas, a ilustração de Cho saiu com um "retoque": uma toalha encobrindo as nádegas da senhora Homem-Aranha.

Feiticeira Escarlate e Wolverine, por Frank ChoE agora, em pleno 2008... Cho fez uma capa alternativa para "Ultimates III" nº 3 em que Wolverine e Feiticeira Escarlate aparecem à vontade. À vontade demais para a Marvel. Segundo o Omelete, citando o Lying in the Gutters, a Marvel optou por publicar uma capa menos sensual.

Publico neste post três ilustrações censuradas de Cho. Para mim, não há transgressão nenhuma por parte dele: são desenhos provocantes, que depois ele muda. E só. Bem diferentes de censuras mais marcantes no mundo dos quadrinhos de super-heróis, como o Monstro do Pântano de Rick Veitch, o John Constantine de Warren Ellis e o Authority de Mark Millar e Frank Quitely. Mas estas são outras três histórias, para três futuros posts. Por ora, fiquemos com os belos (e até certo ponto ousados) desenhos de Frank Cho.



Escrito por Brasil Bonilla às 23h39
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Mudar tudo na cronologia do Homem-Aranha: babaquice da editora, recurso válido com o personagem ou subestimar o leitor?

O Homem-Aranha não é mais o mesmo. A partir deste mês, a revista do "Amigão da Vizinhança" traz tantas mudanças que foi necessário um pôster-explicação de duas páginas dizendo o que "vale" e o que "não vale" a partir de agora nas histórias do personagem.

Como assim?

A história é complicada e só deve chegar ao Brasil em 2009. Por isso, está narrada no parágrafo abaixo, em letras brancas. Se você não se importar com spoiler (revelação de um fato importante antes do tempo) e quiser saber, passe o mouse sobre o parágrafo abaixo. Senão, aguarde a publicação da saga "One More Day" (um dia a mais) no Brasil e pode pular para o parágrafo seguinte sem problemas.

(Início do spoiler)

Capa de Amazing Spider-Man nº 544, revista em que começou a saga One More Day, em que começa essa zona toda que vão fazer com o Homem-Aranha

 A tia May estava morrendo. Para salvá-la, o Homem-Aranha fez um pacto com o demônio. Há muitos "demos" no Universo Marvel, e ele escolheu Mefisto (o mesmo demônio que fez o pacto com Fausto, talvez uma homenagem). Mefisto salvou a tia May reformulando a realidade. Agora, a tia May não sabe mais que Peter Parker é o Homem-Aranha. Aliás, ninguém mais sabe. O mundo se lembra de que o Homem-Aranha revelou sua identidade, mas ninguém sabe qual é esta identidade. Mais: ele nunca se casou com Mary Jane. A filha dos dois, por extensão, também nunca nasceu. E o Homem-Aranha voltou a ter disparadores artificiais de teia, em vez da teia orgânica que vinha exibindo atualmente.

(Fim do spoiler)

Ou seja, numa pincelada "mágica", a Marvel "reconstruiu" o contexto do personagem. Mudou tudo o que não gostava, simplesmente apagando. Há leitores sugerindo boicotes às revistas do Aranha em protesto.

Afinal, é tão ruim assim uma canetada como essa? Quais seriam as outras opções?

Há várias. Um caminho, mais longo, é provocar mudanças aos poucos, respeitando o universo ao redor do personagem e sem "apelação". Isso acontecia com o homem-Aranha pré-"Saga do Clone". Um personagem da importância dele teve mudanças importantes, como

- sua namorada (Gwen Stacy) foi assassinada por um inimigo que conhecia sua identidade secreta
- a mudança para o uniforme preto (e orgânico, como se descobriria depois)
- ele, que foi retratado a vida inteira como um esforçado estudante, abandonar a faculdade
- o namoro dele com uma vilã (Gata Negra)
- a morte de uma das mais cativantes coadjuvantes da Marvel, a detetive Jean DeWolff, na ótima história "O Devorador de Pecados"

Foram mudanças quase tão importantes quanto estas impostas de uma hora para a outra pela Marvel, mas viriam aos poucos, em doses "homeopáticas", como uma história bem planejada e bem contada. Sem pressa na execução. Afinal, a pressa é inimiga da perfeição.

Outro caminho, bem mais raro, é fazer como as séries japonesas: ir até o fim. Contar até o final da história do personagem. Depois, pode-se recomeçar de novo. Por exemplo: inventemos um herói, o Capitão Super de Ferro-X. Publica-se ele por anos, talvez mais de uma década. Quando ele está envelhecendo, quase morrendo, escolhe seu sucessor (Capitão Super de Ferro-X Kid ou algo parecido) e, enfim, aposentar-se ou morrer. Daí, a revista pode ser zerada e recomeçar com a história do sucessor ou a revista é zerada e recomeça contando uma nova e mais atualizada versão do mesmo Capitão Super de Ferro-X.

Os dois casos acima são raridade. A DC Comics fez isso em 1986, quando zerou a cronologia de seus personagens após o ótimo evento "Crise nas Infintas Terras". Mostrou, por exemplo, a morte do Superman (escrita pelo Alan Moore), a morte do Flash e o casamento e a morte da Mulher-Maravilha. Aí as histórias recomeçaram do zero.

Esse reinício foi ensaiado, sem muita convicção mais uma vez em 1994, com "Zero Hora: Crise no Tempo". As histórias não foram exatamente alteradas, apenas houve um número zero recontando a origem e as motivações dos personagens. Ou seja: noves fora, nada.

A DC começou aquela que seria sua "reformulação definitiva" em 2004, engatando um grande evento atrás do outro. Grande em marketing, porque de qualidade inconstante. Na ordem: "Crise de Identidade" e "Crise Infinita" (já publicados por aqui), "52" e "Um Ano Depois" (sendo publicados agora no Brasil) e a ainda inédita nos Estados Unidos "Final Crisis".

Antes de "Final Crisis", como preparação de terreno, está sendo publicada "Countdown to Final Crisis" (contagem regressiva para a crise final). A DC liberou dois pôsteres metafóricos para a Crise Final, um com os heróis e o outro com os vilões. Estas imagens trariam dicas do que iria acontecer. Abaixo, os pôsteres: 

A partir da esquerda, no alto: Grande Barda, Senhor Milagre 2 (Scott Free), Lanterna Verde 5 (Kyle Rayner), alguém com o uniforme que Robin (Dick Grayson) usou na série "O Reno do Amanhã" (com o nome Robin Vermelho), Arqueiro Verde, Batman e um Flash; no meio: Canário Negro 2 (Dinah Laurel Lance), Mulher-Maravilha (princesa Diana), Superman e Mary Marvel; embaixo: Besouro Azul 2 (Ted Kord), Maxwell Lord, Jade e Questão.

A partir da esquerda, no alto: um marciano, Coringa, Mulher-Gato, uma versão do Superman, Superciborgue e outra versão do Superman; abaixo: Vovó Bonda, Mary Marvel em versão "maligna", Eclipso 3 (Jean Loring), Lex Luthor, Trapaceiro 2 (Axel Walker), Dessad e Pingüim. A frase é "...e o Mal deve herdar a Terra".

A única pista da DC sobre "Final Crisis" (as imagens anteriores eram para "Countdown") é um pôster com a frase "Heróis morrem, lendas vivem para sempre". Faz pensar se eles vão encerrar este segundo ciclo de seus personagens, que começou em 1986 após "Crise nas Infinitas Terras" e iniciar um terceiro. Talvez.

Se for verdade, não vejo problema. Torço apenas, como leitor, fã e colecionador, que invistam em bons roteiristas, para que não façam embustes como este que a Marvel obrou com o Homem-Aranha.



Escrito por Brasil Bonilla às 01h25
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"The New York Times": o uso de HQs em salas de aula e um erro comum

O sério "The New York Times" abordou nesta semana, em editorial, o uso de histórias em quadrinhos no ensino. Eles citam o "The Comic Book Project" (projeto Histórias em Quadrinhos), que começou em 2001.

A estudiosa Mafalda, do quadrinista espanhol e argentino Joaquín Salvador Lavado, o QuinoA introdução do editorial diz, em tradução livre: "Gerações de crianças cresceram lendo dissimuladamente histórias em quadrinhos, escondendo-se dos pais e professores que veriam (a leitura de HQs) como um desperdício de tempo e um perigo para mentes jovens. Quadrinhos estão ganhando uma respeitabilidade nova agora na escola. Isso graças a um programa crescentemente popular e criativo, freqüentemente apontado a leitores em formação, que encoraja que as crianças criem, escrevam e desenhem histórias em quadrinhos, que em muitos casos que usam temas de suas próprias vidas."

O editorial explica, em outro trecho: "O objetivo é não colocar uma história em quadrinhos na escrivaninha de uma criança e dizer: 'leia isto'. As equipes dão a grupos de estudantes a oportunidade para colaborar em histórias e personagens freqüentemente complexos que eles (as equipes) então revisam, publicam e compartilham com outros nas comunidades dos alunos."

E a conclusão do "The New York Times": "Professores estão achando mais fácil ensinar escrita, gramática e pontuação com material em que os alunos estão completamente interessados. E se revela que as histórias em quadrinhos têm outras vantagens embutidas. O emparelhamento dos enredos visual e escrito em que elas se apóiam parece ser especialmente útil a leitores em formação. Ninguém está sugerindo que histórias em quadrinhos devessem substituir livros tradicionais para leitura ou lições de composição. Professores que teriam dispensado os quadrinhos estão aprendendo a explorar um gênero que claramente tem uma ligação poderosa com mentes jovens. Eles estão usando o que está funcionando". (Quer ler o editorial inteiro e no original? Pois não: aqui.)
 
Meu comentário: descobriram que histórias em quadrinhos ajudam a estimular a leitura e a imaginação. Bingo. Minha dúvida: como conseguiram demorar tanto para descobrir algo tão óbvio? Minha queixa: o TNYT chama as histórias em quadrinhos de "gênero". Segundo o Houiass, gênero é "em teoria literária, cada uma das divisões que englobam obras literárias de características similares". Não acho que as histórias em quadrinhos sejam um "gênero", que faça parte da literatura assim como os épicos, os dramas, os romances etc. História em quadrinhos, como eu a entendo, é uma mídia, um meio de comunicação. Assim como o cinema, o teatro... e a literatura. E este é um erro comum.



Escrito por Brasil Bonilla às 18h01
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Super-heróis morrem? Lendas vivem para sempre?

A DC Comics e a Marvel Comics, as duas maiores editoras de quadrinhos de super-heróis, adoram boatos. Ventilam notícias (o Tocha Humana vai ter um caso com sua irmã, a Mulher Invisível; o Capitão América vai morrer; o Batman vai sair do armário). Alguns se concretizam (dos exemplos, citados, apenas a morte do Capitão América), outros, não. Não importa: o lance é deixar seus personagens na boca do povo, criando hipóteses, tentando entender, comprando as HQs para acompanhar. É um recurso válido?

Dois boatos rondaram um dos maiores ícones das histórias em quadrinhos do mundo, o Batman, pouco depois de a DC divulgar um pôster com o enunciado "Heroes die. Legends Live Forever." (em tradução livre: "Heróis morrem. Lendas vivem para sempre."):

O pôster divulgado pela DC para ver se alguém prestava atenção naquela que seria a crise final1 - Bruce Wayne morreria em junho ou julho de 2008, e Jason Todd (ex-Robin, ex-Capuz Vermelho, ex-morto [!!]) seria o novo Batman.

2 - Bruce Wayne morreria e se tornaria um dos Novos Deuses; os Novos Deuses são um panteão próprio da DC Comics, criados pelo maravilhoso Jack Kirby. São pouco famosos no Brasil; os mais conhecidos são Senhor Milagre, Órion e Magtron, todos ex-membros da Liga da Justiça.

Este segundo boato seria mais profundo: a Mulher-Maravilha e o Superman também morreriam. Todos virariam Novos Deuses, e a DC terminaria um ciclo de suas histórias, e começaria a contar tudo de novo.

Polêmica.

Fãs indignados.

Nitroglicerina pura.

Não sei se é verdade. Acredito que não: a DC não mataria Bruce Wayne com o segundo filme da nova safra do Batman pintando por aí ("Batman: The Dark Knight": mais sobre 2 seriados do Batman para o cinema e os nove longas com o personagem no post abaixo). Seria um tiro de canhão nos dois pés.

Uma das mortes do Batman; sim, houve mais de umaMas... E se fosse verdade? Qual o problema? A editora está fadada a, para todo o sempre, ficar contando histórias eternas dos mesmos personagens, sem que eles "envelheçam" ou "morram"?

Comecei a ler HQs antes da sensacional "Crise nas Infinitas Terras", série de Marv Wolfman e George Pérez lançada em 1985-86. Esta série foi um ponto final para os personagens da editora. Depois, suas histórias começaram do zero, com escritores e desenhistas de ponta reinventando os personagens (John Byrne com Superman; Frank Miller e David Mazzuchelli com o Batman; George Pérez com a Mulher-Maravilha etc.).

As histórias, neste recomeço, eram ótimas. Depois, com as trocas das equipes criativas, o excesso de revistas, algumas decisões editorias contestáveis, os personagens foram "desandando". Houve mais três "crises" que tentaram ser como "Crise nas Infinitas Terras" ("Zero Hora - Crise no Tempo", de 1994, e "Crise Infinita", de 2005-06), e uma nova "crise", "Final Crisis" (bocejo...), está prevista para 2008.


E se os heróis, de fato, morressem? E a editora recomeçasse suas histórias do zero, dando mais coerência à sua gama enorme de personagens, tentando ter menos furos cronológicos e mais qualidade nas histórias? Não seria bacana para nós, leitores?



Escrito por Brasil Bonilla às 03h33
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