A Folha de ontem trouxe o artigo "Sátira", de Kenneth Maxwell. O texto (excelente, como tudo o que se refere ao autor) aborda a charge da "New Yorker" que retrata Barack Obama como terrorista. Reproduzo aqui uma parte interessante do texto (para ler o texto integral, clique aqui):
"Nesta semana, a capa da revista "New Yorker" traz o senador Barack Obama e sua mulher Michelle como terroristas muçulmanos. Ela ostenta cabelos enormes, em um penteado afro ao estilo dos anos 60, e porta uma metralhadora. Ele veste trajes do Oriente Médio. Os dois estão no Gabinete Oval da Casa Branca. Na lareira, encimada por um retrato de Osama bin Laden, vê-se uma bandeira dos Estados Unidos queimando. O resultado não é engraçado. De fato, a sátira passa bem longe do alvo.
O editor da "New Yorker", David Remnick, se viu rapidamente forçado a explicar que o objetivo da capa era demonstrar o absurdo dessas imagens. Mas estamos falando de imagens que refletem a onda de propaganda adversa a Obama que circula amplamente pela internet e nas fímbrias das campanhas. No Upper West Side de Manhattan, um baluarte da centro-esquerda, a capa pode parecer uma zombaria divertida quanto às percepções populares dos conservadores com relação a Obama, mas o mesmo não se aplica ao restante do mundo político. A capa não só não foi engraçada como na verdade está jogando mais lenha na fogueira."
Com todo respeito, eu discordo um pouco de Kenneth Maxwell. Pelo seguinte: é comum as pessoas associarem charges a humor, e nada mais. Quando uma charge pode, às vezes, levar à reflexão, não passando necessariamente pelo humor. O argentino Quino é mestre nisso, embora seja mais conhecido pela sua personagem Mafalda. O brasileiro Angeli também, especialmente quando ele trata do presidente da república. Seu ótimo livro "O Presidente que Sabia Javanês" (cujo co-autor é Carlos Heitor Cony) traz inúmeros exemplos de charge sem humor, mas nem por isso menos profundas.
Com essa charge, o pessoal da "New Yorker" não queria que as pessoas rissem, mas que elas pensassem. Aproveitando uma expressão usada por Keneth Maxwell, eles queriam colocar "lenha na fogueira". Estão fazendo muita gente refletir se a ascendência de uma pessoa (o avô de Obama era islâmico) é tão importante a ponto de interferir na hora de votar (ou não) nela. Alcançaram seu objetivo.
E talvez faça com que as pessoas reflitam também sobre a charge: mais do que humor, o papel da charge é fazer pensar.
No final de semana, a "New Yorker" deu uma charge, na capa, em que Barack Obama aparecia vestido como um islâmico radical, com um pôster do Bin Laden na parede e a bandeira norte-americana ardendo na lareira (post abaixo).
Tanto o partido democrata (pelo qual Obama sairá candidato à Presidência dos Estados Unidos) como o partido republicano (rival) criticaram a charge, que seria de mau gosto.
Ontem, Obama comentou a charge. Segundo nota da Agência EFE, via Folha Online, o que ele disse foi: "Trata-se de uma charge, e é por isso que temos a Primeira Emenda da Constituição. Os autores da charge talvez estimulem alguns conceitos equivocados, mas essa foi sua decisão editorial".
Não sou norte-americano, embore adore alguns comics e a cidade de San Diego, mas o que me parece, vendo de fora, é que a idéia do chargista (e da "New Yorker") foi mostrar o quão desnecessário é ficar tachando o Obama de islâmico. Mesmo que ele fosse, isso não faria dele um terrorista. Enfim, é isso que eu penso ao olhar para a charge. E, sim, acho que é uma ótima charge. Um desenho tão sucinto, tão significativo, que com uma única imagem estática consegue reunir muitos conceitos: eleições, Estados Unidos, manipulação de imagens, marketing, religião, terrorismo, ignorância e, acima de tudo, preconceito.
Agora, uma polêmica parecida se aproxima das eleições norte-americanas.
Diz a nota da agência AFP: "Uma capa da revista New Yorker
que apresenta o desenho de Barack Obama usando turbante como um islamita radical
foi classificada como de "mau gosto e ofensiva" pelo porta-voz do candidato
democrata à Casa Branca.
Em sua edição desta segunda-feira, a revista
publica uma caricatura de Obama vestido como um muçulmano e de sua esposa
Michelle de guerrilheira com um penteado "afro" e um fuzil, festejando a vitória
no Salão Oval da Casa Branca.
Obama e sua mulher tocam os dedos da mão
com o punho fechado num gesto tradicional de vitória, cumplicidade e
revanchismo. Na parede do gabinete presidencial há um retrato do líder
fundamentalista islâmico Osama bin Laden e na lareira uma bandeira dos Estados
Unidos é queimada.
"A maioria dos leitores vai considerar que (a capa) é
de mau gosto e ofensiva, e nós estamos de acordo", disse o porta-voz da campanha
de Obama, Bill Burton.
Obama e sua esposa foram criticados por
adversários que os acusam de não serem patriotas e uma série de falsos rumores
difundidos pela internet apresentam o candidato como um islamita secreto -
apesar de ser protestante-, e sua esposa como uma militante negra radical e
revanchista.
O editor da New Yorker, David Remnick, divulgou um
comunicado para explicar o sentido editorial da ilustração de Barry Blitt, que
como todas as capas da revista fundada em 1925 é um desenho sem
texto.
"Nossa capa sobre a 'campanha de medo' reúne uma série de imagens
fantasiosas sobre dos Obama e as mostra como óbvias distorsões", alegou
Remnick.
Segundo o editor, "tanto a bandeira queimada, como o traje de
nacionalista islâmico radical, o toque das m|ãos ou o retrato na parede, se
referem a um ou outro desses ataques".
"A sátira é parte de nossa
atividade, e é destinada a deixar as coisas abertas, ao apresentar um espelho
frente ao preconceito, ao ódio e ao absurdo. Esse é o espírito da capa",
insistiu.
O porta-voz da campanha do republicano John McCain, Tucker
Bounds, se somou à polêmica e criticou a revista nos mesmos termos que a equipe
de seu adversário democrata.
"Estamos completamente de acordo com a
equipe de campanha de Obama de que é de mau gosto e ofensiva", disse
Bounds.
O autor da charge defendeu seu desenho insistindo que a intenção
era denunciar o "ridículos" que são os ataques contra o candidato
democrata.
No entanto, nem todos concordam que a ironia da mensagem da
revista favorita da intelectualidade de esquerda nova-iorquina seja recebida da
mesma maneira pelos norte-americanos.
Segundo Jake Tapper, editorialista
político da rede ABC, a caricatura é "incendiária". "Me pergunto quais teriam
sido as reações se as tivessem publicado no Weekly Standard ou na National
Review", duas revistas conservadoras.
A edição desta segunda-feira da New
Yorker inclui um artigo sobre "como Obama se tornou político", que relata o
início de sua carreira em Chicago, e outro sobre as mudanças de postura do
candidato a respeito de diferentes temas."
Meu amigo Lovatto me passou nesta semana o programa "HQ & Cia", que trazia uma entrevista com José Márcio Nicolosi, diretor de animação dos Estúdios Mauricio de Sousa.
A entrevista é curta, mas bacana. E termina com um comentário interessante: "Tá na hora de a gente ter o nosso padrão", diz Nicolosi, citando os japoneses. Ele diz que um mangá é facilmente identificado como sendo de origem japonesa; e que falta isso aos quadrinhos brasileiros.
Não sei se concordo. Ok, quadrinhos japoneses são facilmente identificáveis. Mas e os franco-belgas, os italianos ou os britânicos e norte-americanos que não são de super-heróis. Será que são tão identificáveis assim?
Por exemplo: "The Left Bank Gang", premiado como melhor hq estrangeira publicada nos EUA no ano passado; ou Gipi, artista premiado com a melhor HQ em Angouleme (França), também em 2007. Será que olhando para as obras deles, reconheceremos de cara que são da Noruega e da Itália, respectivamente? Acho que não. E minha dúvida é: será que precisa? Será que as escolas nacionais de quadrinhos precisem ter uma identificação tão clara em sua HQ?
Não sei, na verdade, se era isso o que o Nicolosi quis dizer. Foi uma resposta curta para outra pergunta. Ele dizia que os artistas (brasileiros, mas não só) precisam ter um conhecimento mais amplo antes de se especializarem - ele cita cinema e literatura, mas imagino que também sejam importantes artes plásticas, quadrinhos e animação.
Nisso, concordo com ele. Quanto mais o artista tiver estudado e compreendido seu meio, mais ele vai poder optar até que ponto vai poder seguir o que já existe e até que ponto conseguirá inovar.
E acho que o quadrinho brasileiro já tem uma cara própria. Aliás, uma não, várias. O gênero infantil no Brasil é bem definido; a charge também; terror; erótico. E, se pesquisarmos mais, certamente acharemos outros subgêneros que, se não são brasileiros por excelência, já têm uma boa identididade brasileira.
Na verdade, acho que a história da história em quadrinhos mundial, com suas diversas influências de uma escola para outra (norte-americana de super-heróis, norte-americana underground, britânica, nipônica, franco-belga, BDs portugueses, manwás, brasileiros etc.) ainda pode ser muito, muito estudada. Há muito por aprofundar... Por onde começar?
Ainda que curta, a entrevista é bacana - Gaiman, ex-jornalista, sempre fala bem - mas discordo do "mestre dos sonhos" quando ele diz: "Desde então, os quadrinhos vêm sendo reconhecidos como literatura, e isso, de certa forma, aconteceu no Brasil antes de muitos países".
OK, ele é Neil Gaiman, e quem sou eu para discordar? Um brasileiro. Se você é fã de quadrinhos e mora no Brasil, me diga: quando foi a última vez que você viu uma matéria sobre um lançamento de HQ na TV aberta? Ou na TV paga? Ou uma entrevista com um quadrinista na TV, no rádio ou em uma revista que não seja especializada? Que jornal tem uma seção semanal sobre quadrinhos? Quando foi a última vez que você ouviu algum não-fã pronunciando o nome de um quadrinista em voz alta - a não ser o do Mauricio de Sousa, no terrível seqüestro do filho dele?
OK, no Brasil já há bons blogs de quadrinhos; mais de cem lançamentos por mês; ótimos quadrinistas; seções cada vez maiores nas livrarias; mas será que os quadrinhos já são reconhecidos como literatura por aqui? Será que 2008 será o primeiro ano em que ao menos dez teses, de mestrado ou doutorado, terão sido defendidas no Brasil sobre HQs ou similares? Já chegou perto do reconhecimento que os mangás têm no Japão ou as BDs têm na Itália, na França, na Alemanha, na Bélgica ou em Portugal?
A impressão que eu tenho é que os fãs de HQs têm mais voz atualmente. E isso, em grande parte, seja por conta da Internet, imagino. E porque a aceitação da grande mídia, e do grande público, tem aumentado. Mas, e pode ser pessimismo meu, acho que ainda há um longo caminho pela frente.
Uderzo e quadrinhos comerciais x quadrinhos autorais
Vi uma reflexão interessante sobre quadrinhos nesta manhã no blog Ilustrada no Pop, que entrevistou Uderzo, criador
do Asterix. Destaco o trecho em que o francês é questionado sobre quadrinhos
comerciais x quadrinhos autorais. É uma reflexão bem interessante para os que
torcem o nariz contra quadrinhos mais populares, como mangás e super-heróis.
"Ilus: O sr. crê em uma separação
entre as HQs comerciais e as de autor?
Acho que não entendi sua pergunta! Não existe HQ sem
autor... Não se pode qualificar uma HQ de comercial sob o simples pretexto de
que ela foi bem sucedida com os leitores! Existem estilos diferentes, ligados a
cada desenhista, e há gêneros diferentes, como a bande dessinée franco-belga, os
comics e os mangás… Gosto mais de alguns estilos do que de outros, mas isso é
escolha pessoal e não gosto de compartimentar assim [comerciais x de autor] os
diferentes gêneros de HQ. Deploro este tipo de classificação, a HQ deve, acima
de tudo, divertir os leitores e se o faz, duvido que um autor vá reclamar! A
única coisa que eu acho condenável é a falta de respeito que alguns
editores têm, se preocupando menos com os autores do que com o sucesso dos
personagens que eles criaram, pela simples ambição do resultado [financeiro]. É
aí que a HQ se torna comercial e eu recrimino esta prática. Já vi personagens
míticos serem tomados por desenhistas que não tinham o mesmo talento do criador…
isso pode ser perigoso para o personagem."
O quadrinista Gabriel Bá escreveu nesta semana um texto muito legal sobre roteiristas no seu blog 10 Pãezinhos.
Legal mesmo: reflete sobre a falta de reconhecimento dos roteiristas, lado tão importante dos quadrinhos quanto o desenhista/pintor/arte-finalista. Mauricio de Sousa sempre disse: "história em quadrinhos é, antes de tudo, roteiro", mas não é muita gente que entende isso.
Destaco alguns trechos do ótimo post do Bá:
"Nos Quadrinhos nacionais, estamos mais acostumados com autores que escrevem e desenham, fazem tudo. Muita gente pensa que os Quadrinhistas todos fazem de tudo, que não existe divisão de tarefas, que não existe só roteirista. As pessoas acham que fazer Quadrinhos é desenhar bem, criar personagens. E muitos Quadrinhistas pensam isso também. Não pensam em estrutura, forma, fluxo da narrativa. Não pensam em camadas de significado, não pensam em estilos. Acham que é só colocar uma gíria que já são coloquiais e modernos, que sabem captar os detalhes da sua época. Ou, na grande maioria, nem pensam nisso.
(...)
Ser roteirista não é fácil, assim com ser escritor não é fácil. Não adianta colocar a culpa nos outros. Ou você corre atrás..."
Quem são os membros atuais da Liga da Justiça? E dos Vingadores? E de todas as equipes dos X-Men? A Fênix tá viva, morta ou os dois ao mesmo tempo? Afinal, aquele vilão (Starro, Magneto, Caveira Vermelha, qualquer um!) não tinha morrido?
Acompanhar a cronologia (as histórias) dos comics de super-heróis é, realmente, difícil. Muitos personagens, muitas tramas ocorrendo ao mesmo tempo e, principalmente, muitas revistas. Afinal, cada revista normal de super-heróis no Brasil equivale a quatro edições originais norte-americanas.
Pode parecer que ele está dando um tiro no próprio pé - afinal, os artistas por trás das histórias ganham com os gibis vendidos, não com posts na Internet. Mas o raciocínio dele é que muitos leitores deixam de acompanhar seus personagens porque não têm dinheiro para saber o que se passa em outras revistas às quais o personagem está ligado.
Como fã de comics (e de quadrinhos em geral), acho a iniciativa interessante. Tudo o que faz com que o público em geral opine e dê idéias, críticas, comentários e sugestões, me parece uma ótima idéia. E a Internet é um espaço ótimo para isso.
Aliás, será que as próprias editoras não sairiam ganhando se abrissem fóruns dentro de seus próprios sites para que os internautas discutissem sua cronoloia?
Li na Folha que a poderosa Louis Vitton (a marca de luxo mais poderosa do mundo, segundo a "Forbes") está processando a artista dinamarquesa Nadia Plesner (http://www.nadiaplesner.com/), de 26 anos, por vender camisetas com a imagem (ao lado) de uma criança sudanesa desnutrida e nua que aparece com um cachorrinho igual ao da Paris Hilton e com uma bolsa da Louis Vitton.
Explica Nadia em seu site: "As I was reading the book "Not on our watch” by Don Cheadle and John Prendergast last summer, I felt horrified by the fact that even with the genocide and other ongoing atrocities in Darfur, Paris Hilton was the one getting all the attention. Is it possible that show business have outruled common sense?"
Livremente traduzindo: "Eu estava lendo o livro 'Not on Our Watch', de Don Cheadle e John Prendergast, no verão passado, e me senti horrorizada pelo fato de que mesmo com o genocídio e outras atrocidades contínuas em Darfur, Paris Hilton continuava adquirindo toda a atenção. É possível que o bom senso do show business tenha desgovernado completamente?"
Em minha opinião, não. Ele fez uma crítica social, como tantos outros chargistas fazem - Glauco, irmãos Caruso, Lailson, Dálcio Machado, Jean, tantos outros.
Como escreveu Angli no editorial da primeira edição da revista "Chiclete com Banana", no distante outubro de 1985: "Queremos com esse gibi - ou seria revista? - apenas beliscar a bunda do ser humano para ver se a besta acorda."
Mais de duas décadas depois, ainda há gente que acha a Paris Hilton mais importante que Darfur, ou que a pobreza no Brasil deve ser escondida, não denunciada. Enquanto ainda existirem pessoas assim, será importante que Nadia Plesner, Lovatto, Angeli e os demais continuem seu trabalho.
O nipo-norte-americano Michael Ramirez, nascido em Tóquio, foi premiado neste ano (pela segunda vez, aliás; a primeira foi em 1994) com o Prêmio Pulitzer. O cara, para usar um bom eufemismo, tem seus méritos. E concedeu uma entrevista ao G1, falando desta arte tão próxima dos quadrinhos que é a charge.
Um comentário: na matéria, eles chamam de "cartunismo político"; é tradução literal do inglês, em que "cartoon" é usado tanto para cartum como para charge. No Brasil, se há um contexto por trás da piada (esportivo ou político, por exemplo) é charge, e não cartum. Por isso "cartunismo político" soa estranho: se é político não é cartum, mas charge.
Trechos da entrevista:
- "Todo ano é um grande ano para o cartunismo. O comportamento dos políticos ajuda a fazer o trabalho para você."
- "Acredito que, hoje, infelizmente, os cartuns políticos estão seguindo uma tendência de migrar para o campo do entretenimento."
- "O ponto é que, se você quer produzir um impacto profundo no debate político em seu país, você precisa estimular as pessoas a olhar e a pensar."
- (sobre o polêmico cartum sobre Maomé) "Eu acho que há limites de bom gosto. Você nao quer ofender as pessoas à toa. Eu não faço cartuns controversos só pela controvérsia. Como não faço cartuns de humor pelo humor. Você tem de ter um motivo. Acho que a reação dos muçulmanos é errada ao tentar limitar o discurso das pessoas, que deveriam ter o direito de poder tirar suas próprias conclusões. Penso que, se alguém desenha algo ofensivo, isso terá um mau reflexo no seu trabalho. Quando faço cartum político, sou muito consciente das sensibilidades em jogo e tento evitar que um elemento daquele cartum seja puramente ofensivo. Se você faz isso, eles vão focar apenas naquele elemento em vez da charge como um todo."
- "Uma coisa importante sobre a charge política hoje é que se tratam de trabalhos que lidam com temas complexos. E, como chargistas, temos de entender a profundidade do tema nós mesmos. Temos de conhecer o assunto bem o suficiente para defendermos o nosso ponto de vista. Não há nenhuma charge que eu tenha desenhado até hoje que eu não consiga defender."
Gostei do comentário sobre a profundidade. Será que é aí que está o segredo de uma boa charge?
O mote, agora, é que filme anti-islamismo feito pelo político holandês de direita Geert Wilders começa com a polêmica charge de Westergaard, em que Maomé é retratado com uma bomba-relógio no turbante.
O artista não gostou e pediu que a caricatura fosse retirada do filme.
"Não quero vê-la fora do seu contexto original. Aquele desenho tinha como alvo os terroristas islamitas fanáticos - uma pequena parte do islamismo. A caricatura não pode ser usada contra os muçulmanos como um todo. Não foi essa a minha intenção", explica Westergaard.
Trecho da matéria:
"Spiegel Online - Você às vezes se arrepende de ter feito a caricatura? Westergaard - Não. Se não fosse a caricatura, outra coisa teria provocado os protestos: um livro, uma peça teatral ou um filme. Creio que temos que passar por este período de fricção entre as duas culturas. Espero que os nossos cidadãos dinamarqueses muçulmanos entendam o que significa viver em uma democracia. Mesmo que você seja contrário à democracia, dá para viver nela, mas tem que lutar por meios pacíficos. Na Dinamarca, temos um ditado: A democracia vai para a cama com os inimigos dela - não por desejo, mas por uma questão de princípios."
Globalização: mangá alemão coloca super-herói contra islâmicos radicais
Globalização é isso aí: uma agência de segurança alemã está usando os super-heróis (originários dos comics norte-americanos) em estilo mangá (...asiático...) para comabter o radicalismo islâmico (leia-se Al Qaeda), a xenofobia e o racismo, segundo nota do UOL Diversão e Arte.
Segundo a nota, o resumo da HQ, chamada "Andi", é o seguinte: "O adolescente Andi surgiu em 2004 no Estado alemão Renânia do Norte-Vestfália, com a missão de combater o extremismo de direita. Em outubro, ele apareceu em uma nova aventura, ao lado de sua namorada muçulmana, Ayshe, e do irmão dela, Murat, que cai na conversa de um amigo radical e de um 'pregador do ódio'."
Não li a HQ... ainda. Mas, para mim, qualquer forma de combate ao racismo, ao preconceito e à intolerância vale a pena.
Em setembro de 2005, o jornal dinamarquês "Jyllands-Posten" publicou charges em que apareciam o profeta Maomé. Líderes muçulmanos, sentindo-se insultados, iniciaram uma onda de protestos, cada vez mais violentos. Treze manifestantes mortos no Afeganistão, na Líbia e na Somália e os artistas dinamarqueses foram condenados à pena máxima por radicais do Paquistão.
Ou seja: foi criada uma crise internacional, violenta, em um caso que envolve liberdade de expressão, censura, preconceito, blasfêmia... Tudo por causa de uma charge? Ou a charge em questão não é o elemento central, mas apenas o veículo da questão: a intolerância entre ocidentais e islâmicos e vice-versa. Não que seja regra: acredito, na verdade, que os intolerantes são exceção, mas uma exceção violenta. No Brasil, a "Folha" e "O Globo" republicaram as charges mais polêmicas; o "Estado de S.Paulo", não.
Volto ao tema porque a BBC Brasil publicou na madrugada de hoje que "uma mensagem de áudio atribuída ao líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, divulgada nesta quarta-feira, adverte os governos da União Européia para uma reação forte contra a republicação de uma charge que mostra o profeta Maomé".
Diz a nota da BBC Brasil: "A polêmica charge mostra o profeta Maomé, figura central do islamismo, com uma bomba em seu turbante. Esta e outras caricaturas com a imagem de Maomé foram publicadas pela primeira vez em 2005, pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten e, posteriormente, por diversos veículos. A publicação das charges, consideradas ofensivas pelos muçulmanos, provocou protestos violentos de comunidades muçulmanas em vários países que deixaram dezenas de mortos. A tradição islâmica proíbe a divulgação de desenhos ou imagens de Maomé.
Há um mês, jornais dinamarqueses republicaram a charge, depois da prisão de três pessoas supostamente envolvidas em um plano para assassinar o cartunista responsável pela obra. A republicação provocou uma nova onda de protestos. A mensagem divulgada pelo site islâmico nesta quarta-feira traz uma imagem congelada de Bin Laden portando um fuzil AK-47. Traz também a tradução da mensagem em inglês."
O "The New York Times" também publicou uma matéria hoje sobre o tema. Diz a reportagem que o artista ainda corre perigo de vida: "No mês passado a polícia dinamarquesa prendeu dois tunisianos e um dinamarquês descendente de marroquinos sob a acusação de que pretendiam matar Westergaard, um dos 12 cartunistas cujas caricaturas de Maomé no jornal dinamarquês "Jyllands-Posten" geraram protestos, alguns deles violentos, por parte de muçulmanos de todo o mundo em 2006, e fizeram com que fossem oferecidas recompensas pelas cabeças de Westergaard e do seu editor, Flemming Rose. Desde então Westergaard (ele desenhou Maomé com uma bomba no turbante) vive escondido."
Na matéria do "The New York Times", o editor Flemming Rose diz que cometeu blasfêmia, mas não racismo: "Não se tratou de zombar de uma minoria, mas sim de uma figura religiosa, o profeta muçulmano, de forma que a coisa diz respeito a blasfêmia, e não a racismo", argumenta Rose. "A idéia de desafiar a autoridade religiosa conduziu à democracia liberal, enquanto que o ataque a minorias, enquanto minorias, levou ao nazismo e à perseguição da burguesia na Rússia. Assim, esta distinção é essencial para que se entenda o problema".
Kurt Westergaard, o artista, também está mais preocupado em mostrar que não foi racista: "A discordância é parte essencial da democracia", diz ele. "Quero explicar a minha percepção desse embate entre duas culturas porque tenho netos que crescerão nesta sociedade multicultural. Os dinamarqueses são um povo tolerante. Eles não merecem ser tratados como racistas".
Eu poderia dar aqui o link para as polêmicas charges e ilustrações, mas não vou. Acho que a liberdade de expressão não anula a responsabilidade editorial. Das entrevistas que eu li a respeito do caso, quem me pareceu mais ponderado foi, além do então ombudsman da "Folha", Marcelo Beraba, o quadrinista kuaitiano Naif Al-Mutawa, criador de HQs estreladas por super-heróis muçulmanos.
Disse Al-Mutawa, em entrevista à "Folha": "O que eu vi até agora foi uma discussão entre dois grupos fundamentalistas: o da liberdade de imprensa e o dos extremistas muçulmanos. A imprensa européia, defendendo seu direito divino de publicar o que quer que seja, diz que é assim que as coisas são e que os religiosos é que têm de mudar de opinião. Qual é a diferença entre a intransigência dessa posição e a dos fundamentalistas muçulmanos? Os dois grupos acham que estão certos. Acho que a publicação dos cartuns foi desrespeitosa e que a reação dos muçulmanos, queimando embaixadas, também foi."
É uma questão polêmica, que não tem resposta fácil. Eu acredito em respeito. E acredito (e repeito) em opiniões contrárias. Abaixo, links para mais matérias ou artigos sobre o tema:
Dois exemplos da influência oriental: animê do Batman e Disney em mangá
Falei um pouco (só um pouco) de mangá nos últimos posts. E, por coincidência, foram divulgadas nesta semana dois exemplos da grande influência oriental nos quadrinhos norte-americanos: o animê (desenho animado no estilo oriental) do Batman e a versão em mangá da Disney.
A mais surpreendente, para mim, é a versão mangá da Disney, noticiada pelo Universo HQ. Embora as história de Donald e companhia não sejam criadas unicamente em único país - há estúdios autorizados a criar histórias dos personagens Disney em alguns lugares do mundo, inclusive no Brasil - eles seguem uma padronização, um jeito bem típico. Não acho que vá ficar ruim, de modo algum. Só estou curisoso.
Segundo o Omelete, a DC está preparando "Gotham Kinght", um DVD com seis animês do Batman. A idéia é permitir novas intrepretações do personagem, mas de um outro ponto de vista artístico. Abaixo, um preview de dez minutos de "Gotham Kinght", com pessoas ligadas ao projeto explicando por que escolheram o estilo animê e o que é o projeto:
O Batman irá enfrentar três inimigos diferentes (a definição entre parênteses é dos próprios criadores do projeto, retirada do vídeo acima): Crocodilo (lenda urbana contra lenda urbana), Espantalho (diferentemente dos outros inimigos do Batman, que o atacam fisicamente, este o agride de dentro para fora) e Pistoleiro (a antítese de Bruce Wayne, um playboy que mata por prazer e por dinheiro). Eu, particularmente, gosto muito do Pistoleiro, retratado como um verdadeiro anti-herói por John Ostrander na série "Esquadrão Suicida".
The New York Times e o preconceito contra os mangás
No post de ontem, eu perguntei: nós realmente compreendemos os mangás? Afinal, é um mundo imenso, do qual temos pouco acesso. E há uma história de 2002 (ou seja, em pleno século 21) que mostra um misto de preconceito e falta de informação de um dos maiores jornais do mundo (o "The New York Times") e os mangás.
Em 2002, o "The New York Times" afirmou em uma matéria que o Japão tinha baixos níveis de alfabetização porque os japoneses liam mangás demais. Quando soube disso (a fonte é o livro "Mangá - Como o Japão Reinventou os Quadrinhos", de Paul Gravett), não acreditei. No fundo, não é só um preconceito contra mangás (como se fosse pouco), mas contra as histórias em quadrinhos como um todo. É dizer que ler HQs contribui para o analfabetismo e a falta de cultura.
Enfim, fui atrás do tal artigo para ver se era verdade. Sim, era: "Tokyo Journal; A Wizard of Animation Has Japan Under His Spell" é o título do texto, publicado em 3 de janeiro de 2002. É um artigo sobre a ótima animação "A Viagem de Chihiro" (Sen to Chihiro no Kamikakushi) , dirigido por Hayao Miyazaki.
Pausa para trailer de "A Viagem de Chihiro":
A certo momento, o artigo diz: "Comic books account for 60 percent of printed publications in Japan, a reflection of low literacy rates due to the difficulty of learning Japanese characters." Traduzindo livremente: "As histórias em quadrinhos respondem por 60% das publicações impressas no Japão, um reflexo das baixas taxas de alfabetização devido à dificuldade de aprender ideogramas japoneses."
Ou, tentando entender mais: os japoneses só lêem HQs porque não conseguem aprender sua língua escrita. Se conseguissem, não precisariam dos desenhos acompanhando. Preconceito com os quadrinhos, os mangás e, acima de tudo, com os japoneses.
O "The New York Times" retratou-se no dia 10 de janeiro: "An article on Jan. 3 about the Japanese success of the movie 'Sen to Chiriro', by the celebrated animator Hayao Miyazaki, misstated its relationship to the country's literacy rate. Japan has nearly complete literacy, not a low rate." Em tradução livre: "Um artigo do dia 3 de janeiro sobre o sucesso japonês do filme "A Viagem de Chihiro", do célebre animador Hayao Miyazaki, relatou falsamente sua relação à taxa de alfabetização do país. O Japão tem alfabetização quase completa, não uma taxa baixa."
Minha opinião: que barrigada (jargão jornalístico para grande erro)! Outra opinião: "A Viagem de Chihiro" é uma ótima animação, vale a pena.