Fui assistir a "Homem de Ferro", o filme de Jon Favreau, com a minha Pequena, que não lê quadrinhos. Ela gostou do filme; eu adorei.
Achei o roteiro amarrado e nas regras do gênero de super-heróis; ótimas atuações, especialmente do Robert Downey Jr. como Tony Stark / Homem de Ferro; humor; efeitos especiais divertidos; e citações internas para os fãs atentos.
Entretanto, ao sair do cinema, questionado sobre se o filme respeitava o personagem, engasguei. Em essência, sim, sem dúvida alguma. Mas qual deles?
Super-heróis de longa trajetória - o homem de Ferro foi criado há 45 anos, em março de 1963 - tendem a ter uma cronologia confusa. E o Homem de Ferro não escapa disso. Por isso, resolvi escrever um pouquinho (só um pouquinho) sobre cada "homem sob a armadura".
O primeiro Homem de Ferro é Anthony Edward Stark, o Tony Stark, criado por Stan Lee, Larry Lieber, Don Heck e Jack Kirby em "Tales of Suspense" nº 39 (março de 1963).
Trata-se de um homem ferido no peito durante uma guerra (Vietnã, 1963). Seu coração pode parar a qualquer momento. Aprisionado por vietnamitas e forçado a criar uma arma para eles, cria uma armadura que, ao mesmo tempo que mantém seu coração batendo, funciona como arma para que ele se fuja da prisão.
As primeiras histórias do Homem de Ferro/Tony Stark eram de uma imensa ingenuidade, e ele enfrentava inimigos de nacionalidades dos rivais dos Estados Unidos dos anos 60, entre eles os soviéticos comunistas Homem de Titânio (Boris Bullski), Dínamo Escarlate (Anton Vanko) e Viúva Negra (Natasha Romanoff), além do comunista chinês Mandarim (Gene Khan).
Com o tempo, Stark se tornou um inventor-cientista-sabe-tudo milionário e o Homem de Ferro era seu guarda-costas.
No início dos anos 80, em uma de suas melhores sagas, Homem de Ferro/Tony Stark finalmente encontra dois inimigos à sua altura.
O primeiro é Obadiah Stane, um habilidoso e manipulador empresário que vai derrotando Stark aos poucos, adquirindo partes de sua empresa, a Stark Internacional. O segundo é alcoolismo.
Com estes dois elementos (Stane, um rival de cérebro, e o alcoolismo), a saga "Demônio na Garrafa" é, na minha opinião, a melhor do personagem.
O Homem de Ferro também é membro dos Vingadores - membro-fundador e ex-líder. Também fez parte de formações derivadas do grupo, como os Vingadores da Costa Oeste e a Força-Tarefa.
Muitos anos e bobagens se passaram desde então. Stark ficou paralítico e voltou a andar; foi subsituído por um módulo de vida artificial (espécie de andróide) em três ocasiões; morreu, assassinado pelo Adversário, e ressuscitou; morreu, assassinado por Kang, e ressuscitou; morreu, assassinado por Massacre e ressuscitou.
Nos anos 2000, especialmente pós-11 de Setembro, as histórias do Homem de Ferro se tornaram mais políticas. Ele se tornou secretário de Defesa dos Estados Unidos por um tempo.
Depois, houve a saga "Guerra Civil", quando todos os super-heróis da Marvel tiveram que escolher se eram a favor ou contra a Lei do Registro, a versão Marvel para o Ato Patriótico do Governo Bush.
Com a Lei do Registro, todo superser, herói ou não, passou a ser obrigado a apresentar sua identidade, poderes etc. ao governo norte-americano. A maioria dos heróis foi contra, e houve uma rebelião, liderada pelo Capitão América.
O Homem de Ferro foi o líder da facção pró-Lei do Registro. Por sete meses, os heróis da Marvel pararam de combater os vilões e ficaram se enfrentando uns aos outros.
Stark venceu a "Guerra Civil" e hoje é o diretor da Shield, a misteriosa entidade cujo nome por extenso é "Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão" e que age em todos os países da Marvel... Quase o cargo de dono do mundo.
O segundo Homem de Ferro é James Rupert Rhodes, piloto amigão de Tony
Stark - no filme, ele é interpretado por Terrence Howard.
Rhodes assume a armadura pela primeira vez durante uma das crises de
alcoolismo de Stark. Acabou se firmando como Homem de Ferro, fazendo parte até
dos Vingadores da Costa Oeste - foi um dos membros-fundadores do grupo.
Depois, Rhodes assumiu outra armadura e identidade: Máquina de Combate, nome
que usa até hoje.
Rhodes brigou com Stark, e hoje eles não são mais amigos... Pelo menos, não
nos quadrinhos.
Em uma péssima saga dos Vingadores, grupo ao qual é muito ligado, o
Homem de Ferro original, Anthony Edward Stark, foi dominado por um inimigo dos
Vingadores, Kang (essa história foi recontada e na verdade não era Kang, mas
Immortus; originalmente, entretanto, era Kang).
Para combater o violento e dominado Anthony Edward Stark, os Vingadores
apelaram para um novo Homem de Ferro: Anthony Edward Stark. Na verdade, uma
versão adolescente dele, que viajou no tempo.
A saga termina com Stark, o original, se sacrificando para derrotar Kang
(Immortus, segundo a retcon - ato de "atualizar a história"). Teen Tony, como o
Stark viajante do tempo ficou conhecido, assume a armadura.
Teen Tony morreu assassinado por Massacre, assim como muitos outros heróis.
Entretanto, na cronologia (maluca?) da Marvel, todos os heróis que morreram no
confronto com Massacre foram "recriados" em outro universo por Franklin
Richards, filho so Senhor Fantástico e da Mulher Invisível.
Neste novo universo surge um novo Homem de Ferro: uma versão adulta de
Anthony Edward Stark, mas diferente de suas versões anteriores. Um quarto Homem
de Ferro.
Este universo criado por Franklin Richards foi mostrado durante os eventos da
saga "Heróis Renascem". Não deu certo, e esse tal universo foi pro vinagre, com
Franklin Richards (seria ele um deus?) ressuscitando todos os heróis no seu
universo original.
Na hora de recriar o Homem de Ferro, entretanto, Franklin Richards
(acho que ele é um deus!) tomou o cuidado de fundir o Stark original (primeiro
Homem de Ferro) com o Teen Tony (o terceiro Homem de Ferro). Surge uma nova
criatura, com a soma das memórias dos outros dois:o quinto Homem de Ferro.
A cronologia Marvel é uma zona, difícil de acompanhar
para leitores tradicionais, que dirá os leitores que, porventura, sintam-se
atraídos aos quadrinhos após assistirem os filmes.
Para este e outros casos, a Marvel criou o universo conhecido como
"Ultimate", onde seus personagens têm sido recriados aos poucos, sem pressa. As
revistas são mais pensadas, editorialmente falando. Claro, há erros - os autores
são humanos, super-humanos são só os personagens. Mas, no geral, tem histórias
de bom nível.
E o Homem de Ferro versão "Ultimate" foi criado como um dos protagonistas dos
Supremos, a versão "Ultimate" dos Vingadores.
Trata-se de Anthony Edward Stark, um homem com um tumor inoperável no
cérebro. Ele atua como Homem de Ferro, e sua identidade é pública: todo mundo
sabe que Stark é o homem sob a armadura.
O Tony Stark versão "ultimate" é mulherendo, alcoólatra e divertido, bem
parecido com o vivido por Robert Downey Jr. no filme "Homem de Ferro".
(Antes de tudo, peco desculpas pela falta de acentos. Estou em um teclado improvisado, arrumo este post assim que puder.*)
Meu amigo Roger me trouxe da Argentina o livro "Mafalda Inedita". Traz tiras da personagem criada pelo argentino Quino que foram publicadas no jornal, mas não foram reunidas nos dez volumes de livros , que mais tarde foram re-reunidas no “Toda a Mafalda”.
Essas tiras foram deixadas de fora, segundo a "explicacion" do livro, por 3 motivos:
1 - por serem datadas (referências a fatos pontuais da época);
2 – por serem “ruins”, na opinião do Quino;
3 – por serem políticas: tiras que, segundo explica o Quino, "tanto por ignorância das regras do jogo democrático quanto pela precariedade da própria democracia, nos convertemos, sem desejar, em aliados do nosso inimigo”.
Achei interessantes esses critérios de exclusão. Principalmente os dois últimos. Politica! De fato, “Mafalda”, enquanto história em quadrinhos, é tão politizada que parece uma charge.
E mais: Quino parece ter se arrependido de ter criticado quem criticou – no caso, Arturo Umberto Illia, presidente argentino deposto pelo golpe militar de 28 de junho de 1966. Parece que ele se sente como alguém que deu munição para os militares que deram o golpe e governaram a Argentina com mão-de-ferro.
O trabalho do chargista, ou do crítico social em geral, seja ele quadrinista, cineasta ou jornalista, inclui a responsabilidade de saber criticar e/ou apoiar as pessoas certas. Um erro de avaliação para uma piada, ou um erro de contextualização, pode fazer com que o leitor perca a credibilidade nele. E mais - pode fazer com que o próprio crítico social perca a confiança no seu trabalho. Felizmente, não foi o caso do Quino, que aposentou a Mafalda em 1973, mas qué ate hoje continua criando charges e cartuns de alta qualidade (na minha opinião, alguns até melhores que Mafalda, que já é excelente).
A outra coisa interessante são as tiras de "má qualidade". O curioso é que essas tiras deixadas de lado por Quino não são exatamente "mas". Mas retratam a Mafalda mais politicamente incorreta: acusando a mãe de ser alienada por não ter se formado, atormentando o pai como uma menina nomal, e nao como a menina politicamente antenada que de fato era ela, etc.
Dizem que há mais de dez evangelhos (livros que narram a história de Jesus), e que a Igreja Católica considerou apócrifos todo aqueles que mostravam Jesus como humano, e não como divino. Essas tiras deixadas de lado mostram a Mafalda mais "comum" do que as tiras que foram reunidas nos livros. Não tiram, em nada, a qualidade da obra de Quino. Mas é um curioso registro do recorte que ele quis dar ao separar as tiras de sua personagem que entrariam para a história - "Mafalda Inedita" é uma espécie de "evangelho apócrifo" da Mafalda.
Ontem, aproveitando a Virada Cultural daqui de São Paulo (24 horas seguidas de cultura, a preços módicos e de graça, como ninguém pensou nisso antes?), fui ao cinema assistir ao longa japonês de animação "Akira", de Katsuhiro Otomo, adaptação do mangá do mesmo autor.
Foi a terceira vez que vi este filme, a primeira no cinema. Em todas, impressões diferentes do mesmo filme.
Tinha 14 anos quando vi "Akira" pela primeira vez. Achei,a cima de tudo, estranho. Aterrorizante, com um final esquisito, muito violento, com algumas forçadas de barra embasadas por ser uma ficção científica. Eu era adolescente e, em resumo, não gostei. Achei "over", violento demais.
Na segunda vez, tinha mais de 20 anos, fiquei impressionado com a arte, acima de tudo. Uma animação com uma qualidade gráfica irretocável. Achei mais palatável do que da primeira vez: acompanhei melhor a história, não estranhei com tantas explicações apenas insinuadas (na verdade, até gostei). Gostei bastante: era uma bela ficção científica.
Agora, iniciando a quarta década de vida, revi, e pela primeira vez na telona. Fiquei com uma impressão mais próxima de quando vi pela segunda vez. É uma ótima ficção. Mais: eu diria até que é ousada. Afinal, de onde o ser humano encontra energia para evoluir? E para onde ele vai evoluir agora que já domina a Terra - e domina de um modo tão negligente que a fere em enormes proporções?
Continuo gostando da arte. Filme bonito, bem feito, veloz. Sei que a HQ é mais profunda (afinal, são mais de 2.000 páginas de quadrinhos contra apenas duas horas de filme), mas ainda assim... impressiona.
Além de esteticamente belo, é ousado no argumento. Uma ficção sem medo de usar a imaginação. Em alguns momentos, me lembrou "2001 - Uma Odisséia no Espaço". Ambos são estranhos, mas enquanto o filme do Kubrick é lírico e sugestivo, o animê de Otomo é agressivo e dolorido.
Li que Andrew Lazar, Jennifer Davisson e Leonardo Di Caprio estão produzindo um longa com atores de "Akira" para 2009... Tem um enorme potencial para um belíssimo filme de ficção, ainda que eu ache que muita coisa seria mudada para se adaptar ao gosto do público norte-americano - como o final.
Agora eu achei no YouTube este vídeo de dez minutos estrelado por Winsor McCay, em que ele interpreta a si mesmo. No curta, ele aposta com amigos que será capaz de preparar 4.000 desenhos para serem exibidos em movimento, como um filme.
Segundo o IMDb, o filme de chama "Winsor McCay, the Famous Cartoonist of the N.Y. Herald and His Moving Comics" e foi rodado em 1911, dirigido por J. Stuart Blackton e pelo próprio Winsor McCay, que também escreveu o roteiro. Ainda segundo o IMDb, um dos amigos de McCay é George McManus, também quadrinista, criador de "Bringing Up Father", HQ conhecda no Brasil como Pafúncio e Marocas.
Do tempo em que o cinema e os quadrinhos eram inocentes e leves... O que não impedia o talento, a originalidade e a excelência de McCay:
a) sobrevivente de outro planeta (Argo City), trata-se da prima do Superman chamada Kara Zor-El (nome kryptoniano) ou Linda Lee Danvers (nome terráqueo)
b) sobrevivente de outra dimensão (Universo Compacto), trata-se de Lana Lang (nome original) ou Matrix (nome com o qual é batizada pelos cientistas que a reconstruíram)
c) uma mistura das duas anteriores - Linda Lee Danvers e Matrix mescladas em um ser só, na verdade um anjo nascido na Terra
d) sobrevivente de um futuro terrível, trata-se da filha do Superman com Lois Lane chamada Cir-El
e) sobrevivente de outra dimensão (a Terra 2), trata-se de Kara Zor-L (nome original) ou Karen Starr (nome terráqueo), conhecida como Poderosa
f) uma personagem horrível e atual, que se chama Kara Zor-El e vem de Argo City, mas que ainda não descobriu se foi para ajudar seu primo, o Superman, ou se para matá-lo (?!)
A resposta certa é: todas as anteriores.
Supergirl, uma personagem que tem tudo para render ótimas histórias, rodou muito nas mãos de editores e roteiristas não muito talentosos. É o caso da atual Supergirl (a da alternativa f). A melhor de todas, na minha opinião, é a da alternativa c. Peter David, excelente roteirista, escreveu suas histórias por 75 números consecutivos e, a exemplo de seu trabalho com o Hulk e o Aquaman, conseguiu fazer boas histórias, recheadas com humor, suspense e fantasia.
Mas essa retrospectiva breve da Supergirl é só para contar que surgirá uma nova versão dela, e que não vai atrapalhar a continuidade de suas predecessoras. Segundo o Universo HQ, a editora DC Comics anunciou mais um título de sua nova linha de quadrinhos infantis, "Supergirl: Cosmic Adventures in the Eighth Grade".
A minissérie em seis partes, produzida por Landry Walker (roteiro) e Eric Jones (desenhos), será voltada para crianças e está programada para o segundo semestre.
Espero que façam algo menos complicado dessa vez. Nada de anjos nascidos na Terra, mulheres fundidas em uma nova criatura ou viajantes de outra dimensão ou do futuro. Ser prima do Superman já está de bom tamanho.
A Folha tem uma matéria hoje sobre uma das minhas HQs favoritas:
Asterix, criada em 1959 por René Goscinny e Albert Uderzo. Passei a minha
infância lendo. Não precisei ir atrás: meus pais (ótimo gosto, aliás!) já tinham
a coleção completa. Li e reli tantas vezes que sei algumas passagens de
cabeça.
A matéria diz que será lançada no Brasil uma edição especial em que 34
artistas, de diferentes estilos (do erótico italiano de Milo Manara ao
disneyniano Vicar, passando por Stuart Immonen, ótimo ilustardor de
super-heróis), homenageiam Uderzo.
(Um parêntese: fico curioso para ver se algum mangaká [artista de mangá]
participou do projeto, depois da paulada de Uderzo nos quadrinhos orientais no
último álbum do Asterix, o "O Dia em que o Céu Caiu", lançado em 2005. O álbum,
aliás, é o mais fraco de toda a série do Asterix, mas isso é outra
história.)
Eu fico me perguntando por que Asterix é tão universal, tão bem aceito. Já
ouvi algumas teorias interessantes. Por exemplo: ele traz a história universal
da luta do mais fraco (os gauleses) contra os mais fortes (o Império Romano), em
que os mais fracos conseguem vencer com um misto de esperteza (Asterix),
inocência (Obelix) e inteligência (Panoramix).
Pode ser.
Mas eu vejo outra coisa: os roteiros. São excepcionais. Os desenhos também
são lindos, claro, mas os roteiros, especialmente quando Goscinny era vivo, são
muito acima da média. Ágeis, engraçados, inteligentes, com personagens bem
definidos e carismáticos. Histórias muito bem contados, com início e fim, mas,
principalmente, recheio. Todos os personagens coadjuvantes são excelentes; todas
as passagens, engraçadas; não havia cena perdida.
Acho Asterix uma das melhores HQs do mundo do século 20. Goscinny e Uderzo
definitivamente merecem esta homenagem!
Novo livro de Calvin: com imaginação, jamais há solidão
Já falei do Calvin aqui no Calha, mas com "Tem Alguma Coisa Babando Embaixo da Cama" chegando às livrarias, não resisto: falo de novo.
O título desse livro já diz muito. Na sua infância, quando seus pais apagavam a luz do quarto para a noite de sono, você alguma vez sentiu que havia monstros à espreita, escondidos em algum lugar da escuridão? Calvintem certeza: eles estão lá!
Tudo pode ser um problema - ou uma aventura, dependendo do ponto de vista - para uma criança (ou adolescente) que reflete sobre si mesmo e sobre o mundo que está conhecendo. Bill Watterson, além de ótimo roteirista e ilustrador, é um grande observador: sabe extrair dos pequenos momentos do cotidiano cenas que são retratadas com doses de humor e lirismo.
Assim, estão retratadas neste álbum situações como Calvin ter de "ceder" seu dinheiro ao garoto mais velho (e forte); sua angústia para decorar uma fala de uma peça a ser encenada na escola; o desgosto de ter de fazer exercícios nas aulas de educação física; e até o fato de ele não saber o que fazer quando sua mãe fica doente e de cama.
Calvin tem uma "arma" para lidar com todas estas situações. É a mesma, aliás, usada por inúmeras crianças e adultos, e que talvez explique a identificação que o personagem gera em seus leitores. É a imaginação.
Dentro de sua mente, Calvin nunca está sozinho. Se a situação não está como ele gostaria (por exemplo: ele tem de comer o mingau do refeitório na escola), basta que ele se "transforme" no astronauta Spiff, viajante espacial em sua árdua tarefa de conhecer planetas inóspitos. Ele também pode virar um dinossauro, ficar invisível, provocar maremotos... Com sua imaginação, não há limites.
E há, acima de tudo, Haroldo, o tigre de pelúcia que é seu melhor amigo, mesmo que imaginário. É com ele que Calvin brinca, praticando esportes que não existem - e que por isso mesmo são mais divertidos. É também a ele que o menino conta suas confidências, medos e inseguranças. São seus ouvidos "felinos" que ouvem as reclamações sobre o excesso de rigor dos pais, os deveres e a falta de diversão.
Há um coisa bem própria do Calvin: ele nunca reclama da solidão.
O mundo está passando por um processo de 'Dilbertização'
A economia dos Estados Unidos está indo pro vinagre. Pelo menos, é o que carece, a julgar pelo bafafá que a crise norte-americana está provocando no resto do mundo - Brasil devidamente incluído na lista. E eis que, nesta semana que começa, o economista Paul Krugman começa sua coluna no vetusto "The New York Times" da seguinte maneira:
"Qualquer um que trabalhou em uma grande organização -ou que leia a tira de quadrinhos 'Dilbert'- está familiarizado com a estratégia "mapa organizacional". Para esconder sua falta de qualquer idéia sobre o que fazer, os gerentes às vezes fazem um grande show de reorganização das caixas e linhas que dizem quem presta contas a quem.
Agora você entende o princípio por trás da nova proposta do governo Bush de reforma financeira: se trata da criação da aparência de estar respondendo à crise atual, sem realmente fazer nada significativo."
Concordo com Paul Krugman, e vou além - pelo menos na área de história em quadrinhos, uma vez que quando o assunto é economia eu abaixo a cabeça e ouço tudo com cara de conteúdo, raramente emitindo opiniões. Então, meus comentários ficarão restritos à criação de Scott Adams.
Dilbert, para mim, é o espírito das megacorporações, das corporações grandes, médias ou mais ou menos, do século 21. Isso apesar de a tira ter surgido no século 20 - 16 de abril de 1989, para ser mais preciso. Ele é tão "século 21" que tem seu próprio blog (o Dilbert, não o Scott Adams): http://dilbertblog.typepad.com/
Quanto mais eu trabalho e ouço histórias de trabalho, mais me parece que as empresas daqui do brasil estão passando por um processo de "dilbertização". Não é um julgamento, pelo menos não a princípio. Mas o fato de colocar todas as profissões de funcionários de uma empresa no mesmo balaio me parece equivocada. Quem tem que fazer auto-avaliação (bimestral, trimestral, semestral, tanto faz) sabe do que estou falando. São sempre as mesmas perguntas, não importa se você é um engenheiro, um jornalista, um administrador ou o que quer que seja.
Este é um exemplo minúsculo. O lance é que "Dilbert", hoje uma tira publicada em 2.000 jornais, 65 países e 25 línguas, acertou no ponto: mostra o quanto as empresas são ridículas, o quanto os funcionários são impotentes diante desse mundo kafkiano e o quanto é tudo, mas tudo mesmo, muito engraçado.
Sim, eu me sinto ridículo quando leio "Dilbert". Ridículo porque eu me vejo lá: eu, meus amigos, meus colegas de trabalho. Ridículo, burocrático, com idissioncracias, normas arbitrárias e ordens não-intencionalmente dadaístas. E fazer o quê quanto a isso? Dar risada, oras.
A Universal liberou ontem o segundo trailer para o novo filme de Hellboy,
criação de Mike Mignola. Não sabia que o filme estava tão avançado assim - não
havia visto sequer o primeiro trailer, que reproduzo abaixo.
Tenho altas expectativas para este filme. Hellboy é uma HQ divertida,
honesta: não pretende revolucionar o gênero de super-heróis (ou de terror), mas
"apenas" contar boas histórias. São HQs raras hoje em dia. Goon, Bone, Hellboy,
Estranhos no Paraíso: exemplos de quadrinhos bem feitos, com autores cuidadosos
ao extremo com seus personagens.
Mas não é por isso que espero tanto do filme, mas por causa do diretor. Sou
fã do mexicano Guillermo Del Toro. Ele também dirigiu o primeiro "Hellboy", que
é divertido, lançado em 2004. Mas entre um e outro Hellboy ele lançou, em 2006,
"O Labirinto do Fauno. Achei impressionante. Ainda acho, na verdade. Em todos os
aspectos: visual (efeitos especiais, cenário e figurino); no roteiro, que aborda
dois temas aparentemente tão incompatíveis quanto a Guerra Civil Espanhola e um
reino encantado de fadas e duendes que vive ao nosso redor, mas não podemos ver;
na força dos personagens. Foi uma experiência marcante para mim. Quero ver todos
os outros filmes dele, a começar por "A Espinha do Diabo".
Enfim, o primeiro trailer de "Hellboy II - The Golden Army" (Hellboy 2, o
exército dourado).
É um lançamento do início do ano, mas vale a pena comentar: o 12º volume
nacional de “Bone”, de Jeff Smith, uma das melhores HQs independentes publicadas
nos Estados Unidos – especialmente em tempos recentes;
O enredo é
simples: após uma confusão, três primos da família Bone deixam para trás a linda
cidade chamada Boneville. Perdidos, acabaram se envolvendo em um lugar
aterrorizado por perigosas “criaturas ratazanas” e um ser maligno conhecido como
“Encapuzado”, que perseguem uma princesa perdida.
A aparência dos três primos, Fone Bone, Phoney Bone e Smiley Bone, é limpa e
precisa, conseguida com poucos traços. É tão sintética que parece um personagem
infantil. É, eu sei. As aparências enganam. Se não fosse pelo nariz avantajado
de Fone Bone, eu diria que ele e Gasparzinho foram separados no nascimento.
“Bone” não é infantil, embora uma criança possa ler. É uma história de
fantasia, com humor e aventura, focada na saga da família Bone e seus novos
amigos.
A série “Bone” foi publicada originalmente em 55 números avulsos nos Estados
Unidos, que depois foram republicados em edições encadernadas. No Brasil, a
série está sendo lançada em livros com mais de uma história por edição.
Eu,
vergonhosamente, não comprei todos os Bones que saíram no Brasil. Mas após ler
“Círculos Fantasmas”, o 12º da edição nacional (equivale do 38º ao 40º dos
números originais), resgatei os números anteriores que eu tenho e os reli.
.Como é bom ler uma história bem contada... Adaptando a frase do assessor do
Bill Clinton: “é o roteiro, pombas!” (a frase original, explicando a
popularidade ou não do então presidente, dizia: “é a economia, estúpido!”).
Ainda no clima de mangá: o seriado estrelado pelo Lobo Solitário
Falei de mangás nos dois últimos dias e aproveitei para pesquisar o meu predileto, "Lobo Solitário" ("Kozure Okami"), de Kazuo Koike (roteiro) e Goseki Kojima (arte). Trata-se da história do samurai em desgraça Itto Ogami, que perambula com seu filho de três anos, Daigoro. A série teve 28 volumes de 300 páginas, publicados de setembro de 1970 a abril de 1976.
Lobo Solitário virou dois seriados televisivos e sete longas para o cinema, além de filmes para a TV.
O primeiro seriado, "Kozure Okami", teve três temporadas de 26 episódios lançadas de 1973 a 1976, com Kinnosuke Yorozuya no papel de Itto Ogami. O segundo seriado, também chamado "Kozure Okami", foi ao ar de 2002 a 2004 e teve Kinya Kitaoji como Ogami.
Os quatro primeiros filmes para o cinema foram lançados em 1972; os seguintes viriam em 1973, 1974 e 1980.
Trailer do primeiro filme, "Kozure Ōkami: Kowokashi udekashi tsukamatsuru" (algo como "lobo com criança a reboque: aluga-se perícia e criança"):
Abaixo, a primeira abertura do seriado de TV:
Curioso que ambos são da mesma época, mas se o trailer é violento e sangrento (e termina com uma cabeça rolando), a abertura do seriado não traz nada de violência . É focada no pequeno Daigoro e tem um clima mais intimista (imagens do Sol ou do reflexo de um lobo em um lago, além de uma espada e uma mancha de sangue). Dois aspectos diferentes de uma complexa história em quadrinhos.
Não sei se estes seriados ou filmes estão disponíveis no Brasil, mas devem ser interessantes.