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Mais sobre 'Monster', o mangá indicado a melhor série no Eisner Awards

Estou intrigado com "Monster", o mangá de Naoki Urasawa que foi indicado a duas categorias do Eisner Awards, o Oscar dos quadrinhos norte-americanos: melhor edição norte-americana para material japonês e melhor série (é o único estrangeiro que concorre nesta categoria).

Como ainda não li a série, fui pesquisar um pouco sobre ela.

- "Monster" está saindo no Brasil pela editora Conrad em 18 volumes

- A série foi publicada no Japão de 1994 a 2001; no Brasil, a décima edição já saiu

- Naoki Urasawa nasceu em 2 de janeiro de 1960 em Osaka (Japão) e tem, portanto, 28 anos

- Entre as obras de Naoki Urasawa estão  "Pinapple Army" (1985-1988), "Yawara!" (1986-1993), "Master Keaton" (1988-1994), "Happy!" (1993-1999) e "20th Century Boys" (2000)

- Naoki Urasawa já ganhou os dois maiores prêmios de mangás do Japão (Shogakukan e Kodansha) em várias ocasiões:
* 1990 - melhor mangá por "Yawara!" (Shogakukan)
* 2001 - melhor mangá por "Monster" (Shogakukan) e melhor mangá por "20th Century Boys" (Kodansha), a primeira vez em que um artista ganha os dois prêmios no mesmo ano
* 2003 - melhor mangá por "20th Century Boys" (Shogakukan)
* 2004 - melhor série por "20th Century Boys" no Angoulême International Comics Festival Prize (na França)

- foi adaptada para a TV e virou um animê em 74 episódios, que foram ao ar de 2004 a 2005

Abaixo, a abertura do animê...


Vou ler "Monster" com certeza. Duvido que vá me arrepender.



Escrito por Brasil Bonilla às 21h56
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Trailer da Invasão Secreta: Marvel em vantagem contra a DC

Quem acompanha quadrinhos de super-heróis sabe que há duas editoras gigantes que disputam o mercado: DC e Marvel. Cada uma tem suas armas exclusivas, como artistas e escritores exclusivos.

Pôster da Marvel para divulgar a Invasão SecretaDe uns tempos para cá, os roteiristas têm sido o fiel da balança. É da cabeça deles - e dos editores, claro - que saem as megassagas que vão fazer as editoras serem comentadas durante todo o ano.

A DC tem Greg Rucka, Grant Morrison, Mark Waid e Geoff Johns, todos exclusivos. A Marvel tem Brian Michael Bendis, Ed Brubaker, J. Michael Straczynski e Jeph Loeb. E as duas têm o genial Keith Giffen, roteirista e desenhista de tamanho talento e honra que tem acesso aos planos secretos das duas editoras sem problemas.

Consta que, numa reunião dos cabeças da Marvel, Giffen entrou na sala (ele participaria também) e gritou algo como "vocês estão f****os, a DC vai f**** vocês!". A DC estava planejando a "Crise Infinita", saga que foi seguida por "52" e que culminará na (bocejo) "Crise Final". A Marvel planejava "Guerra Civil", cujo final foi recentemente publicado no Brasil e que continuou pelos títulos da editora até a "Invasão Secreta", cujo primeiro capítulo será lançado no próximo dia 2 de abril.

Pois bem. Passados "Crise Infinita" e mais da metade de "52", além de "Guerra Civil", acredito que meu ídolo Giffen errou. Tanto pela repercussão como pelas vendas, a Marvel bateu de longe a DC, que está apanhando para ver o que vai fazer com a (bocejo) "Crise Final". Parece que a idéia original de Grant Morrison não foi aceita, e a DC tem patinado para ver o que fará com seus personagens.

Enquanto isso, na Marvel... Eles sabem bem o que querem. Não vai criar novas dimensões, novas versões de heróis ou recontar a história de seus personagens a partir do zero. Vai investir em uma saga que tem um conceito, aparentemente, pra lá de simples: uma raça alienígena quer invadir a Terra. Só isso.

Mas esta raça são os Skrulls, criação de Stan Lee e Jack Kirby nos seus tempos de "Quarteto Fantástico". E graças ao roteirista Brian Michael Bendis, de "Vingadores", as sementes desta invasão já têm sido plantadas há mais de dois anos (!). Abaixo, o ótimo trailer divulgado pela Marvel sobre a saga.



Eu diria que quem tem planejamento sério tem tudo. Mais do que isso: acompanhando as histórias escritas por ele, eu diria que quem tem Brian Michael Bendis tem uma grande vantagem sobre o concorrente.



Escrito por Brasil Bonilla às 21h06
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A nova, velha e boa 'Mad'

Capa da nova Mad, com o onipresente Alfred E. NeumanOntem não bloguei. Entretanto, fui avistado em um restaurante por quilo perto do trabalho dobrando, com dificuldade, uma página de uma revista e dando risada sozinho. Era uma Dobradinha Mad, seção tradicional da clássica revista norte-americana, um berço de clássicos e notáveis quadrinistas norte-americanos (por exemplo: William Gaines, Wally Wood, Basil Wolverton e Harvey Kurtzman, todos devidamente já indicados ao Hall da Fama do Eisner Awards, o Oscar dos quadrinhos norte-americanos).

A edição brasileira (este é o número de lançamento da quarta série da "Mad" no Brasil) tem muito material produzido orignalmente para a "Mad" americana, ams também tem muito material nacional - e dos bons. O editor da revista, o Otacílio d'Assunção (o Ota), trabalha na "Mad" desde sua estréia no Brasil, em 1974 (!). Assim como seus colegas norte-americanos, Ota também é reconhecido pela crítica: recebeu, em 2002, o título de mestre do quadrinho nacional do Troféu Angelo Agostini.

Destaques desta edição nacional, além da Dobradinha Mad e do nome da seção de cartas ("Cartas dos Imbecis que Acreditavam na Nossa Volta!"):

* o relatório Ota, sempre sobre um tema polêmico - lembro de um divertidíssimo sobre tamanho de pênis; o desta edição é sobre a vida após a morte e, segundo o Ota, vai nos ser útil quando chegarmos lá;

* a série "Spy vs. Spy", criada pelo cubano Antonio Prohías, mas agora tocada pelo ótimo Peter Kuper; é de Kuper, aliás, a ótima graphic novel "O Sistema", já lançada no Brasil e que vale a leitura;

* aqueles cartuns minúsculos do Sergio Aragones, o quadrinista espanhol mais mexicano que já tive o prazer de ler;

O Ota, por ele mesmoArrisco dizer que pouco mudou na mudança de editora (agora está com a Panini). A nova "Mad" brasileira é a boa e velha "Mad" brasileira de sempre.

Conheci o Ota (conhece o Saíte do Ota?) anos atrás. Foi uma decepção: não hás mosquinhas sobrevoando a cabeça dele, como indicam todos os auto-retratos que ele já publicou na Mad.



Escrito por Brasil Bonilla às 11h49
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'Mad' está de volta em versão 4.0

A revista "Mad" já está de volta, em sua nova edição no Brasil (a quarta). O Ota ainda é editor, o que é um bom sinal. Já tenho o novo número 1, mas ainda não li... Então os comentários ficam para amanhã. Até lá... Um site bacana, com todas as capas da revista: http://www.micromania.com.br/mad/

Abaixo, capa da primeira edição da "Mad" no Brasil (editora Vecchi, julho de 1974):

A Mad voltou! A Mad voltou!



Escrito por Brasil Bonilla às 20h29
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Mais sobre as diferentes visões do Hulk no cinema

Postei aqui outro dia sobre as diferentes interpretações do Hulk no cinema - o seriado exibido na TV de 1978 a 1982, teve 87 episódios e dois filmes, "O Retorno do Incrível Hulk" e "O Julgamento do Incrível Hulk"; o filme de Ang Lee (de 2003); e o filme de Louis Leterrier, a ser lançado ainda este ano, e que ainda não vi (só o trailer). Mas não dei minha opinião sobre eles.

O Hulk de Ang Lee; ou seria o Shrek antes de entrar no banho?Sobre o filme de Louis Leterrier: ainda não vi, mas pelas cenas do trailer e das entrevistas, vai ser mais focado no lado monstro do que no lado psicológico.

Isso faz sentido. A Marvel consideou o filme de Ang Lee, lançado cinco anos trás, um fracasso. O filme focava o lado dramático de violência na infância, traumas e o fardo de ter que reprimir toda violência e ira dentro de si. Isso é muito legal, na minha opinião; tem muito a ver com o personagem.

Além disso, o filme prima por tentar se aproximar da estética dos quadrinhos, o que gerou cenas visualmente lindas.

Porém... Sempre há um porém - ou, neste caso, dois.

Um: apesar de todo aprimoramento estético, o Hulk ficou irreal demais. Como bem definiu Sérgio Dávila, parecia o Shrek na TPM. O Hulk de carne e osso do seriado de TV, vivido por Lou Ferrigno, é incomparavelmente melhor, mais humano, mais emocional, mais tudo.

Dois: o lado psicológico ficou, na minha opinião carregado demais. Li uma explicação interessante no blog Ilustrada no Cinema, o meu predileto quando o assunto é a sétima arte:

Shrek banhado, vestido e acompanhado"E, outro dia, lendo uma entrevista com o cineasta malaio Tsai Ming-liang (“O Sabor da Melancia”) na revista “Sight & Sound”, me deparei com uma declaração interessantíssima.

O repórter conta que quando se encontrou com Ang Lee na época de “O Segredo de Brokeback Mountain”, o cineasta confessou que pegou muitos elementos gays de Tsai. “Eu sempre digo que a relação entre o Hulk e seu pai é muito Tsai Ming-liang”.

Quem viu “O Rio”, de Tsai Ming-liang, deve se lembrar da cena em que o rapaz vai à sauna gay e começa a se pegar com seu pai (e nenhum dos dois se dá conta direito do que está acontecendo).

Bem, esse era o Hulk de Ang Lee."

Reiterando: os quatro parágrafos acima são do Ilustrada no Cinema.

Já o seriado de TV é, até onde me lembro (não vi todos os episódios e faz muito tempo que os assisti), a melhor adaptação do Hulk para outra mídia.

Há o lado monstro; há a angústia de um autocontrole excessivo; o desespero de um mal aparentemente sem cura; e, apesar de todos os defeitos (especialmente o excesso de ira), a vontade, tão humana, de tentar ajudar o próximo.

O seriado não possui a qualidade técnica e estética dos filmes de Ang Lee e Louis Leterrier - na época, não havia tecnologia para tanto. Para mim, não faz falta na maioria dos casos - exceto na participações especiais de outros grandes heróis da Marvel, Thor (no longa "O Retorno do Incrível Hulk" e Demolidor (em "O Julgamento do Incrível Hulk"). Os figurinos ficaram tão feios, mas tão feios, que... Deixa pra lá. Se quiser ver esta pérola, há vídeos em que eles aparecem neste post.



Escrito por Brasil Bonilla às 13h14
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Uma nova HQ do Sandman: adaptação de Caçadores de Sonhos

“Sandman” é a minha série predileta. "A" série. O primeiro número que eu comprei foi o 38. Como sou levemente pé frio, a editora Globo cancelou esta revista exatamente no número 38.

Página de Ramadan, história ilustrada por P. Craig Russell e publicada no 50º número de Sandman
Por sorte, conhecia um cara que tinha a coleção nacional completa. Li todos os 37 números anteriores e iniciei uma busca, que durou anos, sebos adentro. Além disso, "assinei" a revista original (a norte-americana) - na verdade, eu a encomendava via importadora Devir. Assim, enquanto Sandman não saía mais no Brasil, li a série em inglês do número 50 ao 75.

Meu inglês não é perfeito, mas, mesmo assim, era fantástico. Cada noite que eu chegava em casa e havia aquele pequeno pacote pardo com formato de "comic book" era uma grande alegria.

"Sandman" foi publicada de 1989 a 1996 nos Estados Unidos - 75 números, fora uma edição especial ("A Canção de Orpheus") e duas minisséries da Morte, contando aqui apenas as HQs escritas pelo criador da série, o britânico Neil Gaiman.

A série continua sendo republicada - nos Estados Unidos, primeiro em uma coleção em fez volumes (que também está saindo aqui no Brasil, em uma edições lindas da Conrad - nove já foram publicadas) e agora há uma nova reedição, “The Absolute Sandman”, em quatro volumes. Será que esta também será lançada no Brasil? Acredito que sim. Os fãs de Sandman são quase tiffosi, barrabravas (sem a violência, claro)... São fanáticos. Eu sou, pelo menos.

Desde 1996, houve muitas séries criadas a partir de “Sandman”, explorando a enorme gama de personagens coadjuvantes que Neil Gaiman deixou para trás. E sempre há a expectativa de mais novidades. Houve um romance em prosa (“Os Caçadores de Sonhos”, de 1999, comemorando os dez anos da série, lançada com ilustrações do japonês Yoshitaka Amano), uma HQ comemorativa (“Noites Sem Fim”, de 2003) e o boato, nunca confirmado, de um filme com algum envolvimento de Neil Gaiman - ele teria dito que quer dirigir um longa-metragem estrelado pela Morte.

Enfim, em 2009, a série completa 20 anos. Para comemorar, a DC lançará uma versão em quadrinhos de "Os Caçadores de Sonhos", que será adaptada pelo ótimo artista P. Craig Russell.

No vídeo abaixo, P. Craig Russell comenta como está a produção de "Os Caçadores de Sonhos".


P. Craig Russell é experiente no ramo dos quadrinhos. Trabalhou na ótima série "Elric", infelizmente pouco publicada aqui no Brasil. Desenhou duas histórias de "Sandman": a número 50, "Ramadan" (o primeiro "Sandman" importado que eu li: fantástico) e uma das histórias do especial “Noites Sem Fim” (a estrelada pela Morte, a mais popular de todos os coadjuvantes do Sandman).

Ilustração de Yoshitaka Amano para a primeira versão de Os Caçadores de Sonhos, publicada em forma de romance com ilustrações do artista japonês
Russell já adaptou um texto em prosa de Gaiman: "Mistérios Divinos", publicado originalmente como um conto no livro “Fumaça e Espelhos”. "Mistérios Divinos" saiu no Brasil em janeiro de 2007. A tarefa de Russell era transmitir as descrições feitas em prosa por Gaiman de conceitos abstratos como o projeto de um universo em construção. As soluções que ele encontrou, tanto para esses momentos como para as cenas mais prosaicas, são tão boas que chega a parecer que Gaiman imaginou a história como se soubesse que ela seria adaptada para quadrinhos. Não foi isso: a verdade, como constata quem lê “Mistérios Divinos”, é que Russell é um grande artista, e que ele não se importa em encarar desafios, desde que seja para narrar boas histórias.

"Os Caçadores de Sonhos" em quadrinhos não será uma história nova, mas não há por que duvidar de que P. Craig Russell fará, novamente, um ótimo trabalho.



Escrito por Brasil Bonilla às 09h23
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Os humanos tão humanos de Palomar

Paixões não correspondidas, casamentos, divórcios, um jovem preso, a dor do desemprego, pessoas em crises, amores, mágoas e amizades. Conhece “Love and Rockets”?

Heráclio e Carmen em capa de edição norte-americana de Lova and Rockets“Love and Rockets” é uma revista que, na primeira edição, teve 50 números, publicados de 1981 a 1996. A segunda série teve 20 números, de 2001 a 2007.

E daí?

Daí que a revista trazia histórias excelentes. Os artistas são dois irmãos, Gilbert e Jaime Hernandez, cada um tocando suas histórias. (Mario Hernandez, também irmão, colaborava).

Eu tenho uma coisa a dizer: eles são muito bons. Principalmente nas histórias. Humanas, humanas. Gilbert, meu predileto, escreve sobre Palomar, um vilarejo pobre em algum lugar da América Latina. Lá não há televisão ou telefone, mas há coração. Pessoas com histórias, de finais felizes ou não - na verdade, quase sempre sem finais. A vida vai seguindo, os personagens estão ali, evoluindo.

As histórias de Palomar normalmente são curtas: dez páginas, em média. E como possui um "elenco" fabuloso de tão humano, Gilbert pode variar, alterando o personagem-narrador de uma história para outra... E sempre conseguindo belíssimas narrações.

Tudo é importante em Palomar. Afinal, vivem lá seres humanos, como você e eu. E alguns fatos, às vezes, são narrados repetidas vezes. Mas nunca da mesma maneira: mudando o narrador, muda também a interpretação do fato, ou até a importância dele. Algo que pode render uma história inteira na voz de um habitante de Palomar pode virar uma cena de apenas um quadrinho para outro personagem.

Qual o segredo de Palomar e, por extensão, de “Love and Rockets”? Excelentes roteiros, mas não só.

Humanidade.



Escrito por Brasil Bonilla às 20h29
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As coincidências entre Twilight e Reino do Amanhã

Há algumas coincidências entre "Twilight" ("crepúsculo"), o projeto não publicado de Alan Moore criado em 1987, e o ótimo "Reino do Amanhã", lançado em 1996, também pela DC Comics, com roteiro de Mark Waid e arte de Alex Ross:

- "Twilight" tem muito a ver com Ragnarok, o crepúsculo dos deuses da mitologia nórdica. "One legend in particular will be the main thematic drift of the storyline, this being the Norse legend of Ragnarok, twilight of the Gods", escreve Moore no projeto. "Reino do Amanhã" tem a mesma relação com o "Apocalipse", o último livro bíblico, que traz o fim do mundo como o conhecemos.

- Em "Twilight", a história se passa no futuro: 20 ou 30 anos. "Reino do Amanhã" também se ambienta no futuro: 10 anos, aproximadamente. Nos dois casos, é um futuro "hipotético" do Universo DC. Os personagens podem chegar a este futuro, ou não, dependendo apenas das decisões editorias.

- Em ambos, os super-heróis tomaram tal importância que ficaram acima das instituições e autoridades humanas. Em "Twilight", isso é mais radical: a América foi dividida em províncias, com clãs de super-heróis tomando contas de cada "província".

- Superman é uma figura central. Pela descrição de Moore, em "Twilight", é um personagem moralmente perturbado que não sabe o que fazer com o caos que o mundo se tornou. Em "Reino do Amanhã" ele tem o mesmo dilema, mas sabe o que fazer: foge. E fica anos isolado na fazenda em que cresceu.

- "Twilight": Superman se casa com a Mulher-Maravilha e tem dois filhos (o novo Superboy e a nova Supergirl). "Reino do Amanhã": Superman termina a história começando seu relacionamento com a Mulher-Maravilha, que fica grávida dele.

- "Twilight": Capitão Marvel é ainda mais perturbado que o Superman, "talvez por ter alter ego humano". Em "Reino do Amanhã", o alter ego do Capitão Marvel é crucial para o desfecho da história e um personagem tão instável que o tempo todo não se sabe de que lado ele vai ficar: dos humanos, dos super-heróis ou da equipe formada por Batman.

- "Twilight": um dos pontos centrais da história é o bar Sandy's Place, que pertence a uma ex-heroína (Lady Fantasma) Em "Reino do Amanhã", um dos pontos centrais é o restaurante Planeta Krypton, pertencente a um ex-super-herói (Gladiador Dourado).

- Em "Twilight", tudo leva a crer que o grande confronto será entre a Casa de Aço, liderada por Superman, e a Casa do Trovão, liderada pelo Capitão Marvel. As visões do reverendo Norman McCay, em "Reino do Amanhã", apontam que o duelo central será entre... Superman e Capitão Marvel.

Coincidência?



Escrito por Brasil Bonilla às 11h24
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O projeto de Alan Moore que a DC não quis publicar

Nem todo fã de quadrinhos é um colecionador. Eu me considero um. Não só das revistas impressas, mas de idéias e coisas relacionadas a HQs. E "Twilight" é, para mim, um item de colecionador.

Trata-se de um projeto entregue por Alan Moore à DC Comics em 1987. Moore estava no auge, havia acabado de publicar "Watchmen" e balançado as estruturas do gênero dos super-heróis. Além disso, ele tocava a revista mensal do Monstro do Pântano, criando histórias excelentes.

E a DC havia lançado "Crise nas Infinitas Terras", saga que envolvia todos os personagens da editora (todos mesmo!) e alcançado ótimo resultado. No ano seguinte houve "Lendas", não tão espetacular, mas bom.

"Twilight" ("crepúsculo") é um projeto de autoria de Moore que envolveria não todos, mas os principais personagens da DC. Seria dividido em 12 capítulos, como "Watchmen" (e como "Crise nas Infinitas Terras").

Por algum motivo, não foi publicado.

Para o projeto original, infelizmente, em inglês, clique aqui. Não lembro onde eu consegui, acho que no ótimo Alan Moore - Senhor do Caos (http://www.alanmooresenhordocaos.hpg.ig.com.br/).

Um pequeno resumo do projeto:

A história se passa no futuro: 20 ou 30 anos. Alguns heróis do futuro tentam avisar os heróis do presente do quão terrível o futuro está, e por que ele deve ser evitado. A América foi dividida em províncias, com clãs de super-heróis tomando contas de cada "província". Segundo Moore, é quase um "sistema feudal", dividido em "Casas".

"Casa do Aço": domina a América Oriental, principalmente ao redor de Nova York. É um dos dois clãs mais poderosos. Seu líder é o Superman. Além dele, fazem parte do clã a Mulher-Maravilha, que se casou com o kryptoniano e agora se chama Supermulher, e os dois filhos que ambos tiveram (o novo Superboy e a nova Supergirl).

"Casa do Trovão": domina a América Ocidental, a partir de Los Angeles. Capitão Marvel, Mary Marvel e afins. É o outro clã mais poderoso, junto com o Clã de Aço. Capitão Marvel e Mary Marvel, apesar de serem irmãos gêmeos, são casados e têm uma filha, Mary Marvel Jr. O Capitão Marvel Jr., que não é parente de nenhum deles, também faz parte do clã, e tem um caso secreto com a Mary Marvel. Os personagens que, assim como a família Marvel, eram da editora Fawcett (que foi incorporada à DC) habitam a área dominada por este clã.

"Casa dos Titãs": os Novos Titãs sobreviventes, agora adultos. O líder é o Asa Noturna, um personagem sem compaixão, quase um vilão. Entre seus comandados estão o Rapina Bélico (ex-Rapina), Cyborg, Quimera (ex-Mutano) e Ravena.

"Casa dos Mistérios": os místicos. Jason Blood, Espectro, Zatanna, Senhor Destino, Félix fausto e um amálgama do Barão Winter com o Deadman.

"Casa dos Segredos": os vilões sobreviventes. Lex Luthor, Coringa, Gorilla Grodd, Captain Frio, Mulher-Gato, Chronos, Estrela Safira e Doutor Silvana.

"Casa da Justiça": uma formação da Liga da Justiça Capitão Átomo, Besouro Azul, Aquaman 2 (ex-Aqualad), a nova Mulher-Maravilha (Donna Troy), Flash (Wally West) e uma nova mulher Flash, Slipstream (algo como "turbilhão", em português), Capitão Cometa e uma nova Doutora Luz.

"Casa do Amanhã": clã dos exilados de outras épocas, aprisionados pelo vilão Senhor do Tempo: Rip Hunter, Tommy Tomorrow, Space Ranger, Jonah Hex e alguns membros da Legião dos Super-Heróis. Haveria duas ou três versões, de épocas diferentes, de cada um desses heróis.

"Casa dos Lanternas": os Lanternas Verdes e todo e qualquer alienígena, como os thanagarianos, foram banidos da Terra. Superman, naturalizado norte-americano, pôde ficar. Exilados, os Lanternas que habitam uma das luas de Marte são: Guy Gardner, Carol Ferris e Sinestro (!), além do daxamita Sodal Yat e de Tomar Re.

Nem todos os super-heróis pertencem a clãs. Alguns estão "soltos", aposentados ou enlouquecidos: John Constantine, Lady Fantasma, Pequeno Polegar, Tio Sam, Falcão Negro, Homem-Borracha, Congorilla, Homens Metálicos, Homem-Robô, Arqueiro Verde, Canário Negro, Adam Strange e Questão. Ninguém sabe o que aconteceu ao Batman ou ao Sombra.

Há detalhes à la Alan Moore em tudo, como na morte do Capitão Marvel (morto durante um ato sadomasoquista com uma prostituta, que na verdade era Jonn Jonzz, o Caçador de Marte, disfarçado) e nas manipulações de John Constantine (que passa a perna até em Metron, um dos mais poderosos Novos Deuses).

Uma pena que não foi executado.

ps - há muitas coincidências entre "Twilight" e "O Reino do Amanhã", mas ficam para o post de sábado: aqui.



Escrito por Brasil Bonilla às 02h16
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Brasileiros adaptam contos dos irmãos Grimm

Na Alemanha do século 19, os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm reuniram em livros diversos contos de fadas e histórias folclóricas. No Brasil do século 21, 17 quadrinistas brasileiros trabalham na adaptação de 14 contos publicados pelos alemães e lançam “Irmãos Grimm em Quadrinhos”, livro que reúne adaptações de histórias mais famosas, como “O Pequeno Polegar” e “A Bela Adormecida”, a outras não tão conhecidas, como “Margaret Esperta” e “As Três Línguas”.

As adaptações, todas em preto e branco, tiveram resultados diferentes, conseqüência do ecletismo na escolha dos quadrinistas. Alguns mantiveram o tom sombrio dos contos originais; outras imprimiram mais humor à narrativa. De uma maneira geral, não apresentam a inocência de outras adaptações a estas mesmas histórias, como as versões de Walt Disney.

Única mulher a adaptar sozinha uma história neste projeto, Roberta Lewis narrou de maneira divertida a história de “Margaret Esperta”, a cozinheira que embriaga-se e acaba comendo o jantar que deveria servir para seu patrão e um convidado dele.

Rafael Sica também usa o humor ao contar a história de João Sortudo, um jovem eternamente insatisfeito, além de ingênuo, que tenta voltar para casa levando uma grande pedra de ouro, pagamento por serviços prestados.

O trio Carlos Ferreira, Walter Pax e Daniela Donadio faz uma adaptação sombria – e estilosa – da história de João e Maria, filhos de um casal muito pobre e que são deixados para morrer no meio de uma floresta, onde, para piorar, são capturados por uma bruxa.

Rafael Coutinho, filho de outro quadrinista, Laerte, criador dos Piratas do Tietê e colaborador da Folha, fez uma interpretação bem interessante da “Branca de Neve”. Diante de uma história tão conhecida (“espelho, espelho meu”, madrasta, maçã, príncipe...), criou uma HQ quase telegráfica, com imagens e diálogos rápidos e sintéticos.

Este livro ajuda a relembrar histórias clássicas, que marcaram a infância de muita gente (você se lembra como termina a história de Rapunzel ou qual é exatamente a história do Pequeno Polegar?). Mas, além disso, tem o mérito de trazer um pouco da nova geração de quadrinistas brasileiros: artistas com traços e estilos narrativos diferentes, capazes de transformar histórias clássicas do século 19 em um bom livro de quadrinhos do século 21.



Escrito por Brasil Bonilla às 02h16
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Walt Disney na mira da esquerda

Escrevi este texto há quase dez anos, quando li pela primeira vez "Para Ler o Pato Donald - Comunicação de Massa e Colonialismo", publicado em 1971, no Chile (e em 1977 no Brasil, pela Paz e Terra). Mudei algumas coisas para republicá-lo aqui.

O livro é uma análise dos valores implícitos e, por vezes, explícitos que aparecem nas histórias de Walt Disney (Walter Elias Disney, 5.dez.1901 a 15.dez.1966).

Mickey em cena de 'Fantasia'Para os autores do livro, os chilenos Ariel Dorfman e Armand Mattelart, Patópolis e seus arredores formam um microuniverso em que se defendem e propagam os valores e ideais capitalistas -é o imperialismo norte-americano que aparece nas sombras da caixa forte do tio Patinhas, dos uniformes laranja dos irmãos Metralha, dos "quacks" do Donald.

Quando o livro foi escrito, os partidos de esquerda estavam em progresso no Chile.

O candidato da situação, Radomiro Romeo, do Partido Democrata Cristão, havia sido derrotado na eleição presidencial de 1970 pelo candidato da oposição, Salvador Allende Gossens.

Os intelectuais de esquerda no Chile temiam qualquer forma de invasão capitalista. Dorfman e Mattelart, em particular, temiam que essa invasão se desse, também, pelas histórias em quadrinhos. Em seu prefácio para a edição brasileira, o tradutor Álvaro de Moya, especialista em quadrinhos, definiu a obra como "um panfleto, uma obra sectária, política, parcial, radical, esquerdista, antiimperialista e anticolonialista em seu bom e mau sentido".

As revistas da família Disney, assim como os partidos de esquerda, também estavam em alta -na época, os "niños" chilenos liam "Disneylândia", "Tio Rico" (com o tio Patinhas), "Tribilin" (com o Pateta) e "Fantasias".

Quando um terremoto assolou a cidade de San Antonio, os meninos de San Bernardo mandaram revistas "Disneylândia" para aliviar a dor de seus compatriotas.

A análise dos autores do livro não se propôs imparcial. Eles partiram do ponto que a obra de Disney era, por definição, errada, e que, por isso, deveriam combatê-lo. Já sabiam, também, que eles próprios seriam atacados por suas acusações e, na introdução do livro, já "profetizavam" como seriam descritos seus atos pelos críticos: "...querer lavar o cérebro das crianças com a doutrina do cinzento realismo socialista..."

Dorfman e Mattelart constatam que não há qualquer espécie de produção no "Mundo Disney": não são mostradas indústrias ou trabalhos cotidianos de qualquer espécie. E mesmo as relações sexuais inexistem.

Zé CariocaAnalisando o lado sexual, eles afirmam que "os (personagens) do setor masculino são obrigatoriamente, e perpetuamente, solteiros. Não, porém, solitários: também os acompanham sobrinhos, que chegam e vão".

Com essa sutil frase, eles vão pelo mesmo caminho que o psicólogo Fredric Wertham (do livro "A Sedução dos Inocentes", de 1954) seguiu quando acusou Batman de transar com Robin -e quase acabou com a revista do herói na década de 60. Mas isso é outra história, para um post futuro.

O fato de nenhum personagem de Disney ter pai ou mãe é considerado perigosamente ofensivo por Dorfman e Mattelart.

Como nunca foi descoberto qual irmão/irmã de Donald é pai/mãe dos trigêmeos Huguinho, Zezinho e Luisinho, e isso se passa em todas as relações tio/sobrinho de Patópolis, os autores concluem que há uma construção de um "mundo aberrante" para os leitores infantis, desprovido de sexo.

A mulher, segundo apontam, estaria restrita a dois papéis específicos: a donzela dona de casa (Margarida, Minie, Vovó Donalda, Clarabela) ou a perigosa perversa (Madame Min, Maga Patalógika). "É preciso escolher entre dois tipos de panela: a caçarola do lar ou a da poção mágica horrenda."

Ao tacharem as histórias de Patópolis como machistas, os autores podem estar se estendendo aos "comics" em geral.

Na época em que foi escrito o livro, as mulheres só protagonizavam HQs na Europa (Barbarella, de Jean-Claude Forest, e Valentina, de Guido Crepax, por exemplo) e no Japão (ah, os mangás...). Nos Estados Unidos, Lois Lane, eterna namorada (hoje mulher) do Super-Homem, Betty Banner, do Hulk, e outras personagens jamais saíram da sombra de seus importantes amantes. A exceção fica por conta da Mulher-Maravilha, iniciativa do psicólogo feminista Charles Moulton (pseudônimo de William Moulton Marston).

De volta a Patópolis: "Tais personagens, por não estarem engendrados em um ato biológico, aspiram à imortalidade; por muito que sofram, no transcurso de suas aventuras foram liberados da maldição de seu corpo".

Essa metonímia se estende, novamente, a todos os personagens das histórias em quadrinhos: jamais veremos um Cebolinha ou uma Mônica crescidos, para pegarmos exemplos brasileiros, ou um Batman e um Homem-Aranha de cabelos brancos. É uma crítica aos personagens de HQs de um modo generalizado.

Mas, além dos fatores de comportamento e evolução física, incomoda a Dorfman e Matelart o lado econômico das histórias, posto que jamais são vistos operários (tio Patinhas só tem "funcionários", segundo eles) ou fábricas nos cenários patopolenses.

Com a ausência das formas de produção, Disney "expulsa o setor secundário de seu mundo, de acordo com os desejos utópicos da classe dominante de seu país", de onde concluem que ele "cria um mundo que é uma paródia do mundo do subdesenvolvimento".

Tio Patinhas no traço de Keno Ron RosaComo o lado econômico, o valor exagerado dado pelo patos ao dinheiro, mostrado explicitamente, há também o lado político, este implícito, que também seria prejudicial às crianças.

"Já não podem escapar a ninguém os propósitos políticos de Disney, (...) em que está cobrindo de animalidade, infantilismo, bom-selvagismo, uma trama de interesses de um sistema social historicamente determinado e concretamente situado: o imperialismo norte-americano."
Funcionaria assim: a classe proletária estaria "escondida" sob os selvagens bonzinhos (pessoas de origem humilde, geralmente do interior) e criminosos patopolenses (fadados ao eterno fracasso).

Esses personagens resgatariam do proletariado alguns mitos que a burguesia tem construído desde sua aparição, com o propósito de "ocultar e domesticar seu inimigo, fazendo-o funcionar fluidamente dentro do sistema".

Essa representação é associada às relações autoritárias que os personagens têm entre si. Em muitas histórias, Donald segue à risca as ordens do tio Patinhas, bem como é obedecido cegamente quando esbraveja com seu sobrinhos.

Desses relacionamentos, eles concluem que há uma linha de poder dividindo os personagens. "Os que estão abaixo devem ser obedientes, submissos, disciplinados e aceitar com respeito e humildade as ordens superiores."

Assim, implicitamente, haveria uma "mensagem" de como os povos subdesenvolvidos devam se comportar frente aos mais desenvolvidos: seguindo suas ordens sem questionar, aceitando cegamente sua liderança.

Donald Fauntleroy Duck e sobrinhos (Huguinho, Zezinho e Luizinho, ou Huey, Dewey e Louie), pintados por Carl Barks, o Homem dos Patos"Os povos subdesenvolvidos são para Disney como as crianças; devem ser tratados como tais e, se não aceitam essa definição de seu ser, é preciso descer suas calças e lhes dar uma boa surra."

Eu sei que os Estados Unidos contrataram Walt Disney para viajar pela América Latina (Brasil inclusive) nos anos 30, a serviço da Política da Boa Vizinhança, lançada pelo presidente americano Franklin Roosevelt com o objetivo de manter toda a América alinhada com os Estados Unidos - e afastada da influência de comunistas e fascistas.

O responsável pela doutrina era o OCIAA (sigla em inglês para "Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos"), que usava a cultura como um dos principais meios para manter a influência americana. O órgão encomendou a Disney - uma espécie de "embaixador não-oficial" da Política da Boa Vizinhança - personagens que conquistassem a simpatia da América Latina. (Este parágrafo, na íntegra, e a maior parte do anterior foram retirados da reportagem "Zé Carioca era paulista", da ótima revista "Aventuras na História").

Ou seja: Walt Disney, de fato, trabalhou para aproximar a América Latina dos Estados Unidos. Criou, inclusive, personagens para homenagear países que visitou: o mexicano Panchito Pistoles (que tem até nome completo: Panchito Romero Miguel Junipero Francisco Quintero González III) e o brasileiro Zé Carioca (em inglês: Jose Carioca).

Mas uma coisa é o que ele fez ao vivo, às claras. Outra é acusar que ele, e todo o estúdio Disney, trabalham/ trabalharam todos aqueles desenhos animados e histórias em quadrinhos com segundas intenções.

Minha opinião? Às vezes nós queremos muito, mas muito mesmo, enxergar certos defeitos ou qualidades em pessoas, filmes, livros etc. E conseguimos. Mas, acredito, é muito mais do que está em nós, e projetamos, do que de fato exista. Nossas convicções, nossas paixões, alteram nossa percepção.

Obviamente, eu posso estar engando. Pode ser que minha paixão por histórias em quadrinhos não me permita ver com a clareza que eu gostaria.

ps - curiosidade, o vídeo de "Blame it on the Samba" (Ernesto Nazareth/Ray Gilbert), estrelado por Ethel Smith, Pato Donald e Zé Carioca:

ps2 - site da Disney Brasil: http://www.disney.com.br/



Escrito por Brasil Bonilla às 21h59
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Walt Disney na mira da igreja

Assisti, esta semana, ao vídeo abaixo. Trata-se do pastor norte-americano Josue Yrion pregando, em português e no Brasil, contra os estúdios Walt Disney que, segundo ele, pregam: bruxaria, satanismo, pornografia e espiritismo (!).



Os quadrinhos/desenhos Disney realmente provocam reações intensas. Nos anos 70, da esquerda politizada (post acima); agora, de religiosos (ou de um religioso, pelo menos). Por que será? Não pela qualidade, mas sempre por algum tipo de segundas intenções - capitalismo, nos anos 70, e bruxaria, satanismo, pornografia e espiritismo (!!!) agora.

Acredito, em um primeiro momento, que no caso dos políticos de esquerda havia uma identificação da cultura Disney com os Estados Unidos. Atacar Donald, Mickey e cia. era atacar o capitalismo norte-americano.

Já o caso do religioso acima me é mais misterioso. Será que ele está usando a Disney como alvo para atacar toda a cultura que não segue a religião dele? Parece-me que sim. Procurei mais sobre Josue Yrion e descobri que ele também já atacou o Homem-Aranha e a Xuxa (!). Ele acusa a Xuxa de ser satanista. Josue Yrion conta, em outro vídeo, que a filha dele ganhou uma boneca da Xuxa e dormiu abraçada com a boneca. A menina acordou doente. Ele, então, arrancou os membros (pernas e braços) da boneca. Quando ele arrancou a cabeça, a boneca da Xuxa "gritou".

Em tempo: discordo de tudo o que ele disse. E, segundo a Wikipedia, "Pocahontas" significa "menina brincalhona, peralta, travessa", e não "espírito que vem das profundezas".



Escrito por Brasil Bonilla às 21h58
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Astro City e a essência dos super-heróis

Notei que eu andei esculhambando algumas HQs de super-heróis por aqui: a mini "Procurado" e o onipresente Wolverine. Ei, nada contra... Gosto de quadrinhos, de um modo geral, e de muitas HQs de super-heróis. Hoje vou falar bem de uma: "Astro City".

Uma imagem que praticamente diz 'para o alto e avante': o Samaritano de Alex Ross"Astro City" foi criada por três quadrinistas que, antes de quadrinistas, são nerds: o roteirista Kurt Busiek, o desenhista Brent Eric Anderson e o fenômeno editorial e alavanca de vendas Alex Ross. Eles se juntatam para um projeto gigantesco, talvez megalomaníaco: criar uma série que, de uma paulada só, conseguisse sintetizar e homenagear o gênero de super-heróis.

A meta, convenhamos, não era das mais fáceis. Desde que Jerry Siegel e Joe Shuster publicaram a primeira aventura do Superman, em 1938, podemos dizer que milhares de super-heróis e vilões, além dos sempre populares anti-heróis, pipocaram em revistas, tiras de jornais, seriados de TV e filmes. É um filão e tanto. Teve, como ainda tem, aritstas extremamente talentosos fazendo essa máquina girar. E, não menos importante, milhões de fãs. Não apenas leitores, veja só: mas fãs.

Fã é aquele cara que sabe que super-heróis não existem, mas que fica chateado quando um roteirista dá uma "escapada" e erra ao retratar um personagem importante; que fica emputecida quando editorias "malandros" bolam estratégias mega-hiper-gigantescas para vender suas histórias, ignorando completamante o histórico de uma série ou personagem; que fica emocionado quando lê uma série boa e sente vontade de mandar um e-mail elogiando.

É um pássaro? É um avião? Não, é o S... Samaritano, de Alex RossEu me incluo entre esses fãs, claro. Exemplificando os três casos acima: detesto as 126.234 maneiras que os roteiristas da DC descrevem a personalidade do Batman, parece que não chegam a um acordo sobre quem ele é; parei de ler todas revistas com o Homem-Aranha depois da "Saga do Clone"; e já mandei cartas para Will Eisner e Ramona Fradon.

Pois por ser um fã, e não um leitor, eu gosto tanto de "Astro City". O que os três criadores fizeram foi bolar um universo (e uma cidade em particular, a Astro City do título) em que caberiam a essência de todos os grandes (ou não tão grandes) super-heróis que já existiram. A essência, mas não eles - ou tomariam processo das demais editoras.

Assim, o mais poderoso de todos os mortais, com sua capa esvoaçante e seu cabelinho "pega-rapaz", que esconde sua identidade secreta atrás de um cabelo diferente e um par de óculos, está lá, mas se chama Samaritano, e não Superman. O Quarteto Fantástico (Fantastic Four, em inglês) virou a Primeira Família (First Family). A Mulher-Maravilha é a Vitória Alada; Batman e Robin, Confessor e Coroinha e por aí vai.

Eu disse a essência... Eu vejo assim. O Superman da DC Comics já morreu duas ou três vezes, se dividiu em Superman Azul e Superman Vermelho, viajou ao passado e ao futuro, casou-se etc. etc. etc. Isso tudo não está em "Astro City" - não precisa estar. A base está lá. O imensurável altruísmo, os enormes poderes, o desafio de manter a identidade secreta, a tragédia de ter sobre seus ombros o fato de saber ser o último de seu mundo. Esse é o Samaritano. Assim, icônicos, também foram construídos seus colegas. Poderia parecer plágio, mas é uma homenagem rica em detalhes, para onde quer que se olhe.

Um homem comum sem dar a menor bola para o super qualquer coisa sentado ao seu lado; arte por Alex RossE é bom reparar mesmo nos detalhes: embora nada essenciais à continuidade da história, as homenagens aparecem, por exemplo, em locais e datas relativos a Astro City. O Monte Kirby, onde fica a sede da Primeira Família, é uma homenagem a Jack Kirby (criador de Quarteto Fantástico, Novos Deuses, Hulk, Capitão América); a universidade Fox-Broome lembra os escritores Gardner Fox (Liga da Justiça, Sandman, Starman, Flash/Barry Allen) e John Broome (Lanterna Verde/Hal Jordan, Guy Gardner, Capitão Cometa, Vingador Fantasma); e a ponte Outcault, em memória daquele que, para os norte-americanos, é o criador das histórias em quadrinhos, Richard F. Outcault ("pai" do Yellow Kid, ou Menino Amerelo). Referências cronológicas também aparecem: a Primeira Família surge em 1961, mesmo ano em que o Quarteto Fantástico, sua "inspiração", foi criado; e o Samaritano aparece em 1986, ano em que, pela primeira vez, a cronologia do Superman foi zerada e suas histórias começaram do zero (é a cronologia que vale até hoje).

Em resumo, é um universo em que há pessoas voando (algumas com capas), onde criaturas monstruosas nem sempre são o que parecem, e em que há pessoas que querem dominar o mundo. Esse é o ponto de partida. O ponto de chegada de "Astro City", e que é seu ponto alto, são as histórias. Excelentes.

O ponto de vista muda: pode ser de um herói ("Astro Cty: A Primeira Família", editora Pixel), de um vilão ("A Águia e a Montanha", de "Bem-Vindo a Astro Cty", editora Pixel), de um anti-herói ("Astro City: O Anjo Caído", editora Devir), de uma pessoa absolutamente comum ("A Proximidade Dela", de "Astro City: Inquisição", editora Devir). São histórias com começo, meio, fim e, acima de tudo, conteúdo. Vida longa a Astro City!



Escrito por Brasil Bonilla às 23h06
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Wanted - quero ser malvadinho ou o que são os quadrinhos para adultos?

Foi divulgado nesta semana o primeiro trailer do filme "Wanted", do diretor Timur Bekmambetov, com Angelina Jolie, Morgan Freeman e James McAvoy. O longa é uma adaptação da minissérie homônima lançada em 2004-05 nos Estados Unidos, e publicada no Brasil como "Procurado" (editora Mythos, 2005). Foi escrita por um dos roteiristas mais "descolados" das HQs de super-heróis no momento: o escocês Mark Millar, que escreveu "Guerra Civil", grande (no sentido de divulgação) evento da editora Marvel na virada de 2006 para 2007.

Antes da opinião, um resumo de "Procurado": garoto comum, com emprego burocrático e em crise no namoro (lembrou alguém que você conhece) descobre que seu pai, a quem nunca conheceu, é, na verdade, o maior assassino que o mundo já viu.

A premissa é boa: tudo pode acontecer a partir daí. No caso, o tal moleque acaba se tornando um assassino dos grandes, quase tão bom quanto o pai. Afinal, qualquer coisa é melhor do que ser uma pessoa comum, com uma emprego comum e um namoro comum.

Acima, o trailer. Abaixo, um trecho do discurso final de "Procurado", dito diretamente para o leitor (ou seja, você e eu):

"Porra, você é o maior cuzão... E tô falando por experiência própria. Por que você se borra todo pela resolução da minha vida? Você se mata de trabalhar 12 horas por dia, engorda de tanto se empanturrar de comida barata... E sua mina, é quase garantido, tá dando pra outros caras.

Só porque tem uma puta tevê de plasma e uma grande coleção de DVDs não significa que você é um cara livre, ô filha da puta. Cê num passa dum escravo bem-pago, como tantos outros fodidos por aí.

Até este gibi é um reles intervalo de 15 minutos nda nossa manipulação da sua vida."

Os protagonistas de Wanted (Procurado): Wesley Gibson e Raposa (arte por J.G. JoneS)Concorda? Ou é radical? Mais (ou menos) do que radical... Adolescente?

As histórias em quadrinhos de super-heróis sempre tiveram, de um modo bem definido, a estrutura básica que apresentava os heróis de um lado e os vilões de outro. Isso até 1985-86, quando foram publicados "O Cavaleiro das Trevas" (Frank Miller, Klaus Janson e Lynn Varley) e o espetacular "Watchmen" (Alan Moore e David Gibbons).

Depois disso, ficou difícil fazer HQs de super-heróis com a sombra deste colossos. Alguns escritores conseguem - são uma minoria: Kurt Busiek (Astro City), Keith Giffen (algumas fases da Liga da Justiça), Peter David (Hulk, Aquaman), Brian Michael Bendis (Homem-Aranha do universo Millenium, uma fase impressionante do Demolidor), John Byrne (um montão de coisas)... Os outros, a grande maioria, parece ter medo. De quê? Não sei: talvez de serem comparados a Miller ou Moore; ou de descobrirem que estão escrevendo super-heróis para o público adolescente.

Será que é isso? Querem tornar os quadrinhos mais "adultos"? Por isso, hoje, os heróis são tão dúbios em seus valores? Por isso, o maior evento da editora Marvel recentemente ("Guerra Civil") tem como mocinho o Capitão América e como vilão, o Homem de Ferro? Ou será o contrário? O Homem de Ferro é o mocinho e o Capitão América, o bandidão? Para não ficar só na Marvel: por essa razão que a Mulher-Maravilha assassinou, a sangue frio, um vilão na frente do Super-Homem? Para que os leitores percebam que "agora é sério"?

Por isso que o Millar "se soltou" em "Procurado"? Além desse discurso final, a HQ mostra como o menino-transformado-em-vilão descobriu o lado bom de ser mau: estuprar, matar, ferir, roubar... sem jamais sofrer qualquer represália por isso. Duvido que "Wanted", o filme, seja tão radical quanto "Wanted", a HQ.

Não consigo gostar de "Procurado". Acabei de relê-la. Sei que é uma ficção, uma fantasia escapista, que ninguém vai sair de arama em punho e estuprar a primeira vizinha que encontrar pela frente após ter lido "Wanted"... Mas não consigo gostar. Acho bobo. Acho adolescente esse lema "eu sou malvadinho, ninguém manda em mim". Coisa de criança mimada. De "mo-le-que", como diria o Capitão Nascimento.

Não vejo nada errado em histórias em quadrinhos trangressoras, ou em qualquer manifestão de arte que quebre as regras. Mas não vou gostar apenas porque é "revolucionária", "original" ou algo assim. Porque nem sempre é o que gostaria de ser. "Procurado", por trás de toda sua "revolta", não presta inúmeras homenagens ao trio Super-Homem& Batman& Mulher-Maravilha. Mark Millar, na minha opinião, não é um roteirista revolucionário, mas alguém com altos e baixos. "Wanted" é dos baixos: um gibi de super-herói que pretende ser voltado para adultos. Não é com palavrões ou estupros que se consegue isso.

ps - para que eu não fique apenas como um reclamão, três gibis de super-heróis que podem, perfeitamente, serem lidos pelo público adulto: "Astro City" (Kurt Busiek e Brent Eric Anderson); o Quarteto Fantástico de John Byrne; a versão Millenium do Homem-Aranha (Brian Michael Bendis e Mark Bagley); o fase do Demolidor com Brian Michael Bendis e Alex Maleev; o Homem-Animal de Grant Morrison; a Liga da Justiça do trio J.M. DeMatteis, Keith Giffen e Kevin Maguire... OK, eram só três, e citei seis. Me empolguei.

ps2 - a estréia de "Wanted" nos Estados Unidos está prevista para 28 de março de 2008

ps3 - Timur Bekmambetov nasceu em Guryev, União Soviética (hoje Atyrau, Cazaquistão), e dirigiu "Guardiões da Noite". Li pouco sobre o filme, mas achei muito próximo do gênero super-herói, embora não haja ninguém voando com uma capa. É diferente e visualmente lindo.



Escrito por Brasil Bonilla às 21h39
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Conhece Persépolis?

Marjane Satrapi por ela mesma, em PersépolisA Mostra Internacional de Cinema de São Paulo vai exibir na próxima semana "Persépolis", o filme (terça, dia 30, às 21h50, no HSBC Belas Artes 2; quarta, dia 31, às 21h10, no CineSesc; e quinta, dia 1, às 15h10, na Cinemateca - sala BNDES). É um desenho animado de 95 minutos baseado na série homônima criada pela iraniana Marjane Satrapi. Os quatro volumes foram lançados no Brasil de 2003 a 2006 (veja aqui: 1, 2, 3 e 4).

Não sou comedido quando falo deste trabalho de Marjane Satrapi. Acho espetacular. Trata-se de uma série autobiográfica que mostra o que foi ter crescido no Irã nos anos 80. Bombardeios, repressão, censura, falta de liberdade, perseguição perpetrada pelos guardiães da revolução, auto-flagelação obrigatória na escola, o uso do véu, a proibição do hino nacional. "Eu preferia meu pai vivo na prisão do que herói e no cemitério."

Satrapi narra com crueza os fatos. Para nós, ocidentais que sequer sabemos onde ficam Ararat ou Astana, e para quem a Ásia Central é apenas uma região enorme e problemática, Satrapi dá uma aula. Várias aulas, aliás. É extremamente didática ao mostrar, de perto, o que significava morar no Irã de então. E ajuda o ocidental a enxergar um pouco melhor o Irã de hoje, com Mahmoud Ahmadinejad na presidência (conhece o blog do Ahmadinejad?).

Satrapi é uma ótima narradora. Une textos às imagens com simplicidades, criatividade e clareza. Adota um tom direto, quase jornalístico, sobre os acontecimentos ao seu redor.

Já quando o foco é ela mesma, seus atos e opiniões, Satrapi muda: torna-se crítica e ácida. Sabe ridicularizar a si mesma, causando humor. E é corajosa, muito corajosa, ao mostrar passagens delicadas de sua vida. Momentos trágicos, fases de depressão e erros enormes - sem essa de pleonasmos para bancar o politicamente correto, Marjane é uma arista maravilhosa, mas antes de ser artista é humana e, portanto, erra como qualquer um.

Marjane Satrapi em foto de Christopher Lane para o The New York Times; o link para a entrevista (em inglês) está no pé deste postNão é "só" uma história sobre viver sob o regime autocrático dos aiatolás. É mais. No final do segundo livro, a adolescente Marjane é enviada para morar na Áustria e se distanciar da opressão cada vez pior que existia em seu país. Há choque de culturas e o amadurecimento. Ela agora vive em uma democracia, mas problemas existem em qualquer lugar. Ser humano significa... Enfim, não sei o que significa, mas duvido que exista um que não tenha sofrido muito.

"Eu vivi uma revolução que me fez perder parte da família. Sobrevivi a uma guerra que me afastou do meu país e dos meus pais... e foi uma banal história de amor que quase me levou embora." O "ir embora", neste caso, não é metafórico.

Ao final do terceiro livro, após ter passado quatro anos em terras ocidentais, ela volta para o Irã. O seu amadurecimento, é claro, continua. Sua vida continuou intensa e cheia de obstáculos. Há uma tentativa de suicídio; um casamento em que, menos de um mês após a cerimônia, ela e o marido já dormiam em quartos separados; uma faculdade de Artes Gráficas em que os alunos têm que aprender anatomia humana não com um(a) modelo(a) nu(a), mas com uma mulher com o corpo inteiro coberto pelo véu e apenas um pouco do rosto exposto.

Na verdade, estes fatos isolados talvez não importem tanto. O que importa é o conjunto. São quatro livros de honestidade e revelações vindos de uma mulher corajosa. "Persépolis" é uma obra de arte triste, reveladora, forte e, acima de tudo, humana.

Não sei o que mais admiro em Marjane Satrapi. Poderia ser o seu humor, sua perseverança ou seu talento. Mas acho que é a coragem de se expor. Eu, como a maioria das pessoas que conheço, uso uma espécie de véu sobre mim. Escondo muito mais do que mostro. Medos que tenho, cagadas que cometi, mágoas. Externá-los, como ela fez... É preciso mais do que coragem. É algo que existe na alma, um misto de maturidade, autoconhecimento e desprendimento. Um misto que eu, certamente, não tenho.

ps: entrevista com Marjane, em inglês, publicada neste domingo no "The New York Times": aqui. Abaixo, "teaser trailer" do filme:



Escrito por Brasil Bonilla às 19h14
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